Texto: Bruno Rocha
Nas trilhas sonoras que acompanham nossa existência neste mundo maldito e cada vez mais decadente, alguns álbuns se destacam por conquistar um espaço especial em nossos corações, seja por um momento marcante em nossas vidas, por sua qualidade musical ou pelos sentimentos que ele desperta em nossa imaginação. Seja em qual dessas categorias ele se encaixe, muito provavelmente Violator, do Depeche Mode, está presente nesta sua discoteca especial. Não há como se manter passivo ante as composições deste trabalho, que representou o ápice criativo e de ousadia do Depeche Mode naquela época e que completou nesta semana que se finda três décadas de lançamento.
Nas trilhas sonoras que acompanham nossa existência neste mundo maldito e cada vez mais decadente, alguns álbuns se destacam por conquistar um espaço especial em nossos corações, seja por um momento marcante em nossas vidas, por sua qualidade musical ou pelos sentimentos que ele desperta em nossa imaginação. Seja em qual dessas categorias ele se encaixe, muito provavelmente Violator, do Depeche Mode, está presente nesta sua discoteca especial. Não há como se manter passivo ante as composições deste trabalho, que representou o ápice criativo e de ousadia do Depeche Mode naquela época e que completou nesta semana que se finda três décadas de lançamento.
Lançado exatamente no ano em que se findou a era oitentista e começou a década de 90, Violator une elementos do Synthpop característico do quarteto a modas que viriam a fazer sucesso ao longo dos anos 90, provando que o Depeche Mode não somente alcançara um nível de maturidade musical absurdo, como também eles se tornariam influência-mor no futuro para diversos artistas de sucesso e se tornariam trilha sonora definitiva para uma legião de fãs mundo afora. Nunca um álbum de Eletrônico com pitadas de Rock foi tão bem criado e esmerado. O Rock não ousou invadir o espaço do Eletrônico. Alternativamente, os dois gêneros simplesmente juntaram o que tinham de melhor e criaram esta quimera musical. Ao mesmo tempo em que as batidas e melodias eletrônicas se distinguem das guitarras mais nervosas de Martin Gore (nervosismo esse notável em Personal Jesus e em Policy Of Truth), Violator se mostra homogêneo, e no final pouca gente se importa com qual estilo musical este álbum mais se encaixa. O que interessa e entrar e fazer parte de sua atmosfera única, sensacional e inebriante.
O título em si pode querer dar a entender que o álbum é
violento, impiedoso e inclemente, como aquele que viola de maneira iníqua aquilo
que não deve ser violado. Todavia, o significado do título não passa de uma
piada, como garante o criador da obra, Martin Gore, em entrevistas dadas em
1990. Pelo contrário; ouvir Violator é confortante, é animador. Seu interlocutor,
o ouvinte, é levado a lugares - noturnos, diga-se de passagem – onde os
problemas do mundo são trancados do lado de fora. Dentro, emerge um universo paralelo
onde o fã é convidado a dançar e sentir seus prazeres mais íntimos de forma
despudorada. Na verdade, esse universo não é paralelo à realidade. Os criadores
deste universo, o Depeche Mode, funcionam como a interseção deste lugar imaginário
e o mundo real.
Sim, interprete “prazeres mais íntimos” da forma mais livre
(libertina?) que você quiser. Este é o convite feito pela música que abre o
trabalho, World In My Eyes. Seu ritmo dançante e a interpretação irrepreensível
de Dave Gahan faz surgir uma atmosfera atraente, onde a personagem seduz
seu par, convidando-a a sentir os mais primitivos prazeres carnais, não como
sugere erroneamente o título do álbum, mas comparando suas sensações a uma
viagem pelas mais diferentes paisagens e climas da Terra. Sweetest Perfection,
cantada por Martin Gore, é sombria, mas aconchegante, como se o sexo de World
In My Eyes fosse seguido por um momento de sossego, mansidão e prazer eternos.
Um momento de rebeldia é invocado em Personal Jesus. Mostrando
que limitações estilísticas não existiam mais para a banda, Martin Gore pegou
sua guitarra, distorceu levemente seu timbre e criou um riff Country/Rock, que se
fez acompanhar por um andamento groovado e empolgante, para liderar uma música
da banda que até outrora era genuinamente Synthpop. Sim, as guitarras já eram
usadas pelo músico em Music For The Masses (1987), mas não com tanta
pujança quanto a apresentada em Personal Jesus. Assim como pela primeira
vez uma bateria acústica foi adotada pela banda quando Alan Wilder
tocou-a na já citada Sweetest Perfection. É ou não é atuar como Jesus, lançando
mão de seus instintos pessoais? As coisas voltariam a ficar mais sombrias, mas
não menos inspiradas, em Halo, que traz novamente um convite de uma
pessoa ao seu par, todavia de um modo mais polido. Repare como a voz de Dave
Gahan está agora imponente, pouco lembrando as performances inocentes do menino
Gahan na época de Just Can’t Get Enough...
Um momento de introspecção enfim surge para acalmar os
ânimos ferozes das músicas e, neste momento, dos ouvintes, em Waiting For
The Night. Como a brisa do anoitecer de algum lugar alto e longe das metrópoles,
esta música afaga nossa mente transportando-a em uma nuvem de etereidade. Isso
tudo para que depois se possa aproveitar em toda a sua personalidade, o
silêncio.
Hora de acordar, mas mantenha-se em silêncio e o aproveite,
pois a próxima música é a imortal Enjoy The Silence. Um hit dançante,
grudento e com a eternizada guitarra cheia de chorus de Martin Gore a ecoar por
todo o seu comprimento. Concentre-se – lembre-se do silêncio – e repare em cada
elemento que compõe a música; cada efeito, cada string, o timbre da bateria
programada... tente até mesmo ouvir os dedos de Martin Gore deslizando pelas
cordas da guitarra. Você consegue mais: tente ouvir as trilhas tocadas pelo
nosso querido e fofo tecladista Andrew Fletcher. Repare como todos os
elementos, do mais presente ao mais discreto, passando pela intepretação certeira
de Dave Gahan e o ritmo sincopado criado por Alan Wilder, se harmonizam com
tamanha perfeição que o produto final, a música, toma conta de você de forma nunca
experimentada antes. Experimente o silêncio!
Não é nada fácil ser a música responsável por suceder Enjoy
The Silence, mas Policy Of Truth quase chega a rivalizar com sua
antecessora por conta de suas melodias grudentas e a levada seca e dançante. Policy
Of Truth é uma música por si só poderosa e que possui predicados suficiente
para torná-la o grande hit da história do Depeche Mode. Uma dualidade marca o
fim de Violator: Uma balada muito bonita, mas com uma simplicidade “krafterkiana”,
a música Blue Dress, antecede a pesada Clean, onde Dave Gahan
clama que está mais limpo do que nunca. Parece até uma piada tendo em vista a
situação pela qual o cantor passou poucos anos depois, quando chegou a ser
declarado morto por overdose. Estas duas últimas faixas nos fazem lembrar que o
Depeche Mode é uma banda de músicas sombrias e pesadas, mas que sabe trabalhar
esses elementos em doses sensatas, abrindo espaço para algo mais iluminado e
tocante, quando estes adjetivos se fazem necessários. Desta forma, a mente do
ouvinte não se afoga ferozmente no absinto negro, nem se deixa transformar em
um anjo que depende da luz para sobreviver.
Tecnicamente, Violator, o sétimo da discografia do
Depeche Mode, representa o ponto onde a transformação começada em Music For
The Masses enfim se concretizou. Influências de Rock alternativo se
mostraram cada vez mais presentes e as construções eletrônicas se tornaram mais
variadas, muito disso graças à novos métodos de produção adotados principalmente
por Alan Wilder (o nerd musical do quarteto) e pela parceria com Mark “Flood”
Ellis, produtor que trabalhara anteriormente com U2, New Order, Nine Inch
Nails e Erasure, dentre outros nomes. Anteriormente, a banda preparava suas programações
eletrônicas e já as deixava prontas antes mesmo de entrar em estúdio. Com o
novo método adotado a partir de Violator, a pré-produção passou a trabalhar
somente o essencial, de modo a trabalhar com maior liberdade e criatividade em
estúdio o esqueleto elaborado antes. Foi assim que Enjoy The Silence, o
maior hit da história do Depeche Mode, foi moldado. Originalmente, Martin Gore
o compôs como uma balada quase que romântica. Alan Wilder, em seu trabalho como
arranjador do grupo, transformou a música em uma peça dançante e empolgante, da
forma como a conhecemos hoje.
Resultado: sucesso no mundo inteiro, sacramentando de vez o Depeche Mode como uma banda de arenas e estádios, milhões de álbuns vendidos e muitas, muitas, certificações. A ousadia musical seria ainda mais trabalhada no álbum seguinte, Songs Of Faith And Devotion (1993), onde o grupo colocaria o pé de vez no Rock Alternativo. Entretanto, esta ousadia apareceria de uma forma predominantemente mais densa e pesada.
Resultado: sucesso no mundo inteiro, sacramentando de vez o Depeche Mode como uma banda de arenas e estádios, milhões de álbuns vendidos e muitas, muitas, certificações. A ousadia musical seria ainda mais trabalhada no álbum seguinte, Songs Of Faith And Devotion (1993), onde o grupo colocaria o pé de vez no Rock Alternativo. Entretanto, esta ousadia apareceria de uma forma predominantemente mais densa e pesada.
Há quem prefira o Depeche Mode oitentista, puramente Synthpop.
Tem os que gostam bastante da fase alternativa vivida nos anos 90 e os álbuns
atuais agradam por trazer elementos até mesmo de Blues (apesar das reclamações
de quem ainda sente falta de Alan Wider na banda). Mas ninguém pode contestar o
valor e a importância de Violator na discografia da banda. Este álbum é
a esquina onde os mundos já criados pela musicalidade do Depeche Mode se
encontram. Alternativo na medida certa, eletrônico para não esquecer as raízes
nem perder a essência. Em resumo: perfeito para a boa música e, principalmente,
para levantar os sentimentos mais escondidos, ferozes e ousados do ser humano. Ouça
este álbum e viole sua timidez.


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