segunda-feira, 22 de julho de 2019

Resenha: Solitude Aeturnus - Beyond The Crimson Horizon (1992)



Beyond The Crimson Horizon – Solitude Aeturnus (Roadrunner Records, 1992)

Tracklist:
01. Seeds Of The Desolate
02. Black Castle
03. The Final Sin
04. It Came Upon One Night
05. The Hourglass
06. Beneath The Fading Sun
07. Plague Of Procreation
08. Beyond…

Line-up:
Robert Lowe – vocais
John Perez – guitarras
Edgar Rivera – guitarras
Lyle Steadham – contrabaixo
John Covington – bateria


Texto: Bruno Rocha

Seguindo as trilhas do Epic Doom Metal descobertas pelo Candlemass, diversas bandas surgiram no fim dos anos 80 fazendo o já consolidado Doom Metal, mas num caminho progressivo, dando o tom épico que sugere o nome do gênero.

Em 1987 nascia no Texas a banda Solitude (de onde será que veio esse nome?) que depois de alguns meses mudou seu nome para Solitude Aeturnus, fazendo Doom como Leif Edling ensinou. A estreia da banda com Into The Dephts Of Sorrow, em 1991, fincou o nome do Solitude Aeturnus entre os grandes do gênero lento do Heavy Metal, tornando a banda texana na maior autoridade do Epic Doom Metal ao lado do Candlemass. E o álbum Beyond The Crimson Horizon foi lançado em 1992 para sacramentar tal feito.

Produzido por Danny Brown e lançado pela poderosa gravadora a época Roadrunner, o segundo álbum do Solitude Aeturnus trouxe uma preocupação maior em fazer o grupo soar agressivo. Corroborou para isso a nítida melhoria na qualidade sonora em relação ao debut, que não soa ruim, mas que também não tem uma mixagem que realça as características Metal da banda como peso e agressividade. Cabe citar que John Perez tocava guitarra na banda de Thrash Metal Rotting Corpse nos anos 80 antes de fundar o Solitude inspirado no Candlemass. A veia Thrash do cara ainda pulsava forte!

A abertura com Seeds Of The Desolate deixa bem claro a tônica seguida no restante do álbum. Muito peso nos riffs e bases, mudanças de andamento repentinas, solos de guitarra na linha “shred” por conta de Edgar Rivera e com presença ubíqua de vibratos com alavanca, cortesia do guitarrista fundador John Perez, bateria técnica sob responsabilidade de John Covington e, principalmente, a performance monumental do vocalista Robert Lowe (que anos mais tarde gravou três discos de estúdio com o próprio Candlemass). Sua voz limpa e seu alcance, aliados a melodias calcadas em escalas orientais, surpreendem até mesmo os acostumados a sonoridade da banda.

O disco segue com Black Castle (peso bruto) e The Final Sin, música mais rápida do álbum, onde a banda bota um pezão no Thrash. Depois, com uma introdução soturna de teclado, começa It Came Upon One Night, com um riff Doom daqueles de fazer a Terra tremer, seguido de uma mudança agressiva de andamento.

Outro destaque vem com The Hourglass, com uso e abuso de escalas orientais no fraseado de guitarra e na voz de Lowe. A coisa dá uma leve acalmada com Beneath The Fading Sun, mas depois, o peso e a técnica dos músicos voltam com Plague Of Procreation, que poderia até ser um pouco mais curta se o refrão não fosse repetido a exaustão. Mas esse fato não causa prejuízos a audição do disco, que encerra com a instrumental Beyond…

Todas as músicas foram compostas por Solitude Aeturnus, e todas as letras foram compostas pelo baixista mão-pesada Lyle Steadham, a exceção da faixa 4, cuja letra é de Kristoff Gabehart, ex-vocalista dos tempos que a banda se chamava Solitude.

Até hoje Beyond The Crimson Horizon é considerado por muitos o melhor álbum do Solitude Aeturnus, emparelhado em preferência com o seguinte, o criativo Through the Darkest Hour, de 1994. Após este período, a banda resolveu apostar em menos agressividade e reforçou o lado progressivo. A banda continuou lançando discos fundamentais para o Doom Metal mesmo assim, mas seu segundo trabalho é a prova cabal de que o Doom Metal não precisa ficar preso aos seus clichês, nem sequer impor marcha lenta às suas músicas o tempo todo. Exatamente pelo seu ritmo lento, o compositor criativo pode lançar mão de suas ideias para embelezar e enriquecer os arranjos Doom, coisa que John Perez, principal compositor do Solitude Aeturnus, sempre foi mestre.

Em pouco mais de 43 minutos, a banda do Texas deixa aqui para sempre sua autoridade em fazer Doom Metal técnico, rico em melodia e ao mesmo tempo agressivo, empolgando até quem não é chegado ao estilo. E Robert Lowe sacramenta seu nome como uma das vozes mais poderosas do Heavy Metal. O único detalhe que faço vem exatamente da parte de Lowe, pois ele canta em registros altos quase que o tempo todo, e um ouvido menos apurado poderá inferir que ele está executando a mesma melodia vocal em todas as faixas. Mas isso não tira o brilho deste disco fundamental do Epic Doom Metal, estilo que não vive só de Candlemass.

sábado, 13 de julho de 2019

Asylum Party: morre baixista e vocalista Thierry Sobezyk




Faleceu no dia 11 de julho Thierry Sobezyk, baixista, vocalista e membro-fundador do Asylum Party e que também foi integrante do Mary Goes Round. O músico lutava contra uma leucemia. Sua morte foi anunciada oficialmente através de uma publicação da banda Little Nemo em suas redes sociais.

Sobezyk fundou o Asylum Party em 1985 juntamente com o guitarrista/vocalista Philippe Planchon. Ambos, juntamente com a tecladista Pascale Malé, tornaram o Asylum Party uma das principais bandas do movimento Pós-Punk francês na segunda metade dos anos 80 ao lado das já citadas Mary Goes Round e Little Nemo, protagonistas do movimento conhecido como Touching Pop. Estes grupos ajudaram a sedimentar o atual entendimento do que é o estilo Coldwave.

Thierry Sobezyk tinha 57 anos e nos deixa uma obra musical e um legado importantes dentro do cenário do cenário Pós-Punk mundial.



terça-feira, 9 de julho de 2019

Hapax: banda italiana de Pós-Punk lança clipe da nova música “Parallel Words”


Foi lançado recentemente o novo álbum de estúdio dos italianos do Hapax, Monade, através da gravadora Swiss Dark Nights. O novo álbum, o terceiro da discografia da banda, surge após três anos de espera desde o lançamento de Cave.

Para divulgar o novo lançamento, a banda acaba de lançar o videoclipe da música Parallel Words, faixa de nº 3 do novo álbum, o qual você confere no player logo mais abaixo. O Hapax pratica um Pós-Punk com elementos de Darkwave e já possui em sua discografia três álbuns de estúdio que começaram com Stream Of Consciouness, de 2014.

Hapax é Michele Mozzillo (vocais, baixo, teclados) e Diego Cardone (guitarras, teclados, programação). Para o novo álbum, foram recrutados os serviços do baterista Fabio Malfi.





sexta-feira, 5 de julho de 2019

Escarlatina Obsessiva: banda libera clipe da música “It’s Just Great”


Está no ar o novo clipe dos mineiros do Escarlatina Obsessiva, o clipe de It’s Just Great. A música é a faixa de nº 7 de Back To The Land, o álbum mais recente do duo, lançado em 2018.

Back To The Land é o sétimo album de estúdio lançado pelo duo formado por Karolina Escarlatina (vocais, contrabaixo) e Zaf (guitarras, teclados e programações). Confira o clipe de It’s Just Great no player abaixo:




quinta-feira, 4 de julho de 2019

777: banda cearense de Synthwave/Pós-Punk lançará seu EP de estreia no dia 06 de julho




Está marcado para o dia 06 de julho, próximo sábado, o lançamento do EP de estreia do grupo cearense de Pós-Punk/Synthwave 777, Desfiladeiro no Campo Liso. O evento ocorrerá no Centro Cultural Belchior em Fortaleza.

Algumas das composições de Desfiladeiro no Campo Liso já foram apresentadas ao vivo no evento Creep Show, que ocorreu em Fortaleza no último dia 19 de maio e que reuniu, junto ao 777, as bandas Plastique Noir, Maldigo e Dark Hertz Transmission. O grupo apresenta em suas composições uma direção minimalista e experimental, trilha sonora que casa perfeitamente com suas letras que tratam sobre crises existenciais.

O 777 é um projeto musical do artista Orlok Sombra, conhecido em Fortaleza por discotecar na cena Gótica da cidade. Além de Sombra, que atua como vocalista do grupo, completam o 777 Mike Dutra nas guitarras e Diego Fidelis no contrabaixo e nas programações.

O evento contará com abertura da banda Monquiboy-boo e discotecagem Darkwave com o DJ Batastrophe. O Centro Cultural Belchior se localiza na Rua dos Pacajus, 123, na Praia de Iracema. O evento tem realização da Pé de Jambo Records e a entrada será gratuita!


quarta-feira, 3 de julho de 2019

Resenha: Serpent Rise - Gathered By... (1998, relançamento 2019)



Gathered By... - Serpent Rise (Megahard, 1998, Nuktemeron Productions, relançamento de 2019)

Tracklist:
01. In The Cosmic Sea
02. ...Kharma
03. Mistress Of My Paradise
04. Reflex In The Last Mirror
05. Betrayed God
06. Travelling Free
07. During The Eternity

Line-up:
Agnaldo - vocais
Luiz - guitarras
Júlio - guitarras, bateria
Eder - teclados
Marcelo - contrabaixo


Texto: Bruno Rocha

Um dos pilares do Doom Metal nacional atende pelo nome de Serpent Rise. Apesar dos poucos trabalhos lançados, a grande maioria deles nos anos 90, a criatividade e o pioneirismo do grupo gaúcho renderam-lhe o posto de um dos baluartes do Gênero Maldito em nosso país. Dentre suas principais obras lançadas em seu período fértil, é óbvio que o grande destaque é o full-length Gathered By..., de 1998. E sim! Ele acabou de ganhar um relançamento remasterizado através da Nuktemeron Productions. O relançamento ainda traz como bônus as demos Anastenárides (1994) e Travellin’ Free (1995). Ou seja: temos um pacotão de trabalhos essenciais do Doom Metal nacional em um único lançamento!

Ora, o que a banda apresentou em Gathered By... há 21 anos era uma visão de Doom Metal ainda pouco explorada no país com seus toques atmosféricos, vocais quase sussurrados em meio aos tradicionais guturais, teclados criando ambientações sombrias e alguns elementos de Rock Gótico que aparecem de forma pulverizada. Na época, a banda era formada por Agnaldo nos vocais, Luiz nas guitarras, Marcelo no contrabaixo, Eder nos teclados e Júlio nas guitarras e na bateria. Os timbres pesados e gordurentos das guitarras e do contrabaixo (realçados na remasterização) reforçam fortemente a parede sonora criada e gravada pela banda nas composições da época, tudo isso junto aos teclados muito bem encaixados, bateria reta e segura e a versatilidade vocal de Agnaldo.

O álbum tem início com In The Cosmic Sea, uma típica composição Doom de 10 minutos que traz com força todas as características citadas no parágrafo anterior e que cumpre bem sua missão de começar o álbum de forma bastante empolgante. A faixa seguinte traz em seu título a continuação do nome do álbum, ...Kharma. Iniciada por uma melodia de violão, a faixa segue num ritmo mais lento que sua antecessora e apresenta variações de andamentos, típicos do movimento Death/Doom que emergiu naquela década, lembrando especialmente o Anathema. Mistress Of My Paradise é uma faixa bastante sombria e negra, cujo começo é uma longa introdução que transporta o ouvinte para um escuro e úmido calabouço antes que as guitarras cortantes do Death/Doom entrem cortando tudo sem misericórdia.

Uma dose de Rock Gótico é percebida em Reflex In The Last Mirror, cujo andamento é um pouco mais acelerado e põe o baixo de Marcelo em evidência, temperado com teclados em piano e com um timbre lúgubre de guitarra cheio de chorus e tremolo. Todos esses elementos criam uma atmosfera melancólica e caleidoscópica que crescem rumo ao fim da música em peso e velocidade. O Doomzão mais mortal volta com força e inclemente em Betrayer God, vide o riff que faz a terra tremer carregado por um andamento fúnebre de bateria e teclados que parecem prenunciar o apocalipse. A faixa de nº 6 é a clássica Travelling Free, que faz jus ao seu nome por ser uma verdadeira viagem Doom de 15 minutos que passam voando graças as suas mudanças de andamento e de tom, que dão variedade e colorido (mórbido) a música. O álbum se encerra com During The Eternity, que mais uma vez reforça as influências Death/Doom da época em uma procissão fúnebre e etérea.

Pode-se resumir tudo que este redator analisou em dois pontos:

1º) A banda conseguiu êxito naquilo que se propôs a apresentar em cada faixa. Foi sucinta e direta naquilo que queria mostrar nas músicas mais curtas e foi dinâmica e sortida nas composições mais longas. O grande desafio do compositor de Doom Metal é exatamente compor uma música que prenda o ouvinte em seu longo comprimento, deixando-o ansioso pelo que virá pela frente no que tange a variação de arranjos.

2º) Estamos em 1998. O Serpent Rise não estava só influenciado pelo Death/Doom noventista; o Serpent Rise ERA do Death/Doom noventista. Fazia parte daquele conjunto de bandas que emergiram nos anos 90. Além disso, eles continuaram carregando a pureza do estilo enquanto My Dying Bride sofria de dupla personalidade musical, o Paradise Lost dava uma de Depeche Mode e o Anathema estava em sua metamorfose para se tornar um Pink Floyd “Coldplayzado”. E o melhor de tudo: o Serpent Rise fazia seu Death/Doom com muita identidade. Os elementos atmosféricos e as timbragens gordas dos instrumentos conferiram ao som do grupo uma energia única, perturbadora e bela, dentro dos limites do Doom.

Note que adotei os verbos com conjugação predominantemente pretérita. Mas não há prejuízo de interpretação se você os substituir pelas suas versões no presente. Gathered By... foi relançado e remasterizado. Ou seja, está mais poderoso ainda! Cuide em ouvi-lo e torne-se testemunha no futuro de uma das mais importantes realizações do Doom Metal nacional que aconteceram no passado.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Uma taça feita de um crânio humano (Lord Byron)



Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...

Escrito originalmente em 1812 e publicado pela primeira vez na sétima edição de "Childe Harold".
Traduzido por Castro Alves e publicado em "Espumas Flutuantes", de 1870.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Aleah Starbridge: hoje, o Rouxinol da Tristeza completaria 43 anos de idade



Texto: Bruno Rocha

O Rouxinol da Tristeza cantava de forma diferente de seus pares. Enquanto os outros rouxinóis cantavam alegremente e assim também alegravam aqueles que os ouviam, o rouxinol o qual me refiro cantava sobre suas dores e sua solidão. Sua música era triste, sua voz, fantasmagórica, sua aparência, hipnótica. Mas o poder que sua voz tinha era mais forte e atraente que as dos demais. Sua voz era feitiço, encantava a qualquer um que a ouvisse, tal qual uma sereia mitológica que enganava e atraia para a morte os fracos navegantes da época. Aqueles que ousaram ouvir o seu canto estão inebriados até hoje, mesmo após sua triste partida.

Julia Liane Stanbridge nasceu na África do Sul, mais precisamente na Cidade do Cabo, no primeiro dia do sétimo mês de 1976. Seus pais eram de origem britânica e sueca. O trabalho de sua mãe exigia que ela viajasse constantemente, de modo que sua filha Julia nasceu distante de onde ela depois tomaria base. Somente no começo dos anos 2000 foi que Julia veio se fixar definitivamente na Suécia, onde ela iria ficar conhecida pelo seu trabalho musical. Suas primeiras participações em gravações de estúdio aconteceram em trabalhos eletrônicos, fazendo participações em álbuns lançados por Krister Linder e Omnimotion no ano de 2006. Sua primeira empreitada solo foi lançada em 2007, sob o nome artístico pelo qual ela se tornaria mais conhecida, Aleah.

Suas músicas solo funcionavam movidas unicamente por um violão, como um Folk tocado na beira de um pequeno lago, dentro de uma floresta nublada e úmida. Sua voz já trazia suas principais características: embebida em reverb, o Rouxinol cantava suavemente e de forma sombria e tímida, ingredientes suficientes para encantar o ouvinte incauto. Um dos muitos que ficaram encantados por sua voz foi o músico Andy Cousin, do All About Eve e que também já foi integrante do The Mission. Andy e Aleah fundaram o projeto de Rock Gótico That Which Remains, que esteve na ativa somente em estúdio entre 2007 e 2008. Foi neste período que Aleah começou a trabalhar em outro projeto, aquele que seria sua verdadeira metamorfose em forma de música.



Desta vez, seu parceiro musical seria Juha Raivio, guitarrista da banda de Melodic Death/Doom Metal Swallow The Sun. Eles seriam parceiros não só musicalmente, mas também platonicamente. A química que existia entre ambos não contribuiu somente com o amor que era mútuo, mas também na criação de composições musicais únicas e doloridas. Ambos botaram em prática a partir de 2009 o projeto Trees Of Eternity. Este projeto era um pouco parecido com a sonoridade Death/Doom da banda original do guitarrista, mas era mais atmosférico e etéreo, graças principalmente à contribuição criativa do Rouxinol. O primeiro fruto deste combo musical só foi revelado ao mundo em 2013, através da demo Black Ocean, que trazia em si quatro composições. Estas foram reaproveitadas no primeiro lançamento oficial do grupo, Hour Of The Nightingale (Hora do Rouxinol), lançado em 2016 via Svart Records.

Na verdade, o álbum começou a ser gravado em 2014 e os músicos que o gravaram formavam uma seleção do Doom Metal da época. Além do Rouxinol e de Juha Raivio, o Trees Of Eternity contava com os irmãos Fredrik e Mattias Norrman na guitarra e no baixo, respectivamente. Na bateria, tínhamos Kai Hahto, que até recentemente era baterista do Nightwish. O Atmospheric Doom Metal do grupo não tinha nada de guitarras beirando o Death Metal ou vocais guturais, como é de costume no chamado Metal Gótico. O enfoque do Trees Of Eternity era passional. Nada poderia alterar a concentração do ouvinte, ou tirá-lo do transe hipnótico ao qual o mesmo era submetido ao ouvir a voz doce e fantasmagórica de Aleah Starbridge (sim, seu nome artístico incorporou um “R” no sobrenome, passando a ser StaRbridge). A atmosfera criada pelas músicas e pela voz do Rouxinol era absurdamente densa, sombria, soturna. Mas ao mesmo tempo bela e aconchegante. Formava-se no álbum um ambiente nublado e frio, que emanava muita tristeza e, ao mesmo tempo, amor e saudade. Não raro as músicas trazem lágrimas aos olhos do ouvinte devido a grande carga emocional imprimida pela voz de Aleah e pelas melodias tristes e inspiradíssimas de Juha Raivio.




Não deu tempo de Aleah Starbridge ver sua obra-prima revelada ao mundo. Ela partiu deste plano aos 18 dias do quarto mês de 2016, sete meses antes do lançamento oficial de Hour Of The Nightingale. O álbum foi lançado postumamente e, portanto, serviu como epitáfio para o túmulo do Rouxinol, exibindo ao mundo todo o poder de sua voz e de sua interpretação. A vida imita a arte, afinal. Tristemente, a música do Trees Of Eternity faz muito mais sentido sabendo que sua mentora-mor já partiu daqui. Ela, que cantava sobre saudade, tristeza e morte, sem querer prenunciava a sua própria partida. Um câncer a levou na tenra idade de 39 anos e deixou na Terra sua obra e seu legado musical e poético. Ficou também a sua voz, em forma de ecos distantes, reverberada aos quatro ventos pelos tormentos da melancolia, que torna tudo úmido e escuro. O poder de sua voz é tamanho que não se faz necessária a presença de sua pessoa aqui na Terra. Sua própria voz continua a enfeitiçar e congelar a cada um que a ouve.

Aleah Starbridge também colaborou em músicas do Swallow The Sun, de seu parceiro Juha Raivio, e do Amorphis, banda finlandesa de Metal Progressivo. Raivio deu início então ao projeto Hallatar, como forma de eternizar e mostrar ao mundo as criações artísticas que Aleah ainda tinha escondidas. O primeiro álbum do Hallatar não poderia ter nome mais sugestivo: No Stars Upon The Bridge.

Se o Rouxinol virou estrela ou não, ninguém sabe. Fato é que os outros rouxinóis da Terra não conseguem emular seu canto soturno e hipnótico. Eles são comuns. Só conseguem alegrar e cantar alegrias. Mal sabem eles que a vida é uma mistura fatal de alegrias e tristezas, sendo as segundas mais abundantes que as primeiras. Vai ver, eles mesmos ficaram tristes com a partida de Aleah...

“À noite, as cortinas descem / Dentro da escuridão eu vagueio / Perdendo tudo que encontrei / Para o meu próprio desânimo / Meu tempo chegou a um fim.” (Trees Of Eternity - My Requiem)