sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Resenha: The Frozen Autumn - The Fellow Traveller (2017)




THE FELLOW TRAVELLER – THE FROZEN AUTUMN (Echozone, 2017)

Tracklist:

01. Tomorrow’s Life
02. White On White
03. We’ll Fly Away (long version)
04. Told You At Once
05. Your Touch
06. A Gentle Flame
07. Grey Metal Wings
08. Sirens And Stargazers
09. The Twin Planet
10. I Love You But I’ve Chosen Synthesizers
11. Loving The Alien (David Bowie cover)

Line-up:
Diego Merletto – vocais, sintetizadores
Froxeanne – vocais, sintetizadores


Texto: Bruno Rocha


Prepare-se! Uma frente fria está vindo da região de Turim, na Itália. Mas ela não é uma frente fria qualquer, que traz chuvas ou mesmo leves geadas. Essa frente fria é uma verdadeira onda congelante, sob a qual nem mesmo o próprio ar escapa incólume, passando por um processo de sublimação, acabando por solidificar-se. Fora estes efeitos, a onda congelante de Turim obscurece luzes, tornado o ambiente escuro; os poucos e corajosos fachos de luzes que ousam resistir são como as auroras boreais que rasgam os céus nórdicos, criando assim um espaço, ao mesmo tempo escuro e frio, agradável e etéreo.

O grupo italiano The Frozen Autumn possui considerável respeito dentro do cenário Gothic/Darkwave mundo afora graças ao seu estilo bastante pessoal que mescla elementos de música atmosférica e de Synthpop, num estilo que seus próprios integrantes batizaram de “Frozenwave”.  Fundado em 1993 por Diego Merletto, o The Frozen Autumn mostrou em seus primeiros trabalhos um som ainda com um pé no Gothic Rock (na época a banda contava com os serviços de Claudio Brosio nas guitarras) e com fortes influências de Clan Of Xymox, porém já havia ali elementos de sonoridade característica que se tornaria consagrada anos depois. Os dois primeiros álbuns do The Frozen Autumn, Pale Awakening (1995) e Fragments Of Memories (1997), se tornariam clássicos do Darkwave, trazendo consigo faixas atmosféricas e sorumbáticas recheadas com teclados que criam climas ora melancólicos, ora confortantes. Os elementos Synthpop já existiam, mas eram poucos e retraídos. A parceria de Merletto com Arianna Vespasiano teve início com uma participação especial da cantora na faixa-título de Fragments Of Memories, naquilo que foi um motivador para um projeto paralelo dos dois músicos chamado Static Movement. O único álbum lançado por esse projeto, Visionary Landscapes (1999), foi de suma importância para uma leve mudança no direcionamento musical do próprio The Frozen Autumn, que deixou de lado qualquer contribuição de guitarras e tornou seu som 100% eletrônico, fabricado a base de sintetizadores e com maior proeminência das influências Synthpop.

Arianna, que atende pelo pseudônimo Froxeanne, foi efetivada no The Frozen Autumn e a agora dupla grava o importante Emotional Screening Device (2002) e a perfeição chamada Is Anybody There? (2005). As guitarras voltam a se fazer presentes no bom álbum Chirality (2010) e no DVD Seen From Under Ice (2011), que foi gravada em quarteto com a adição de mais um tecladista e de um guitarrista, o que permitiu que algumas músicas de todos os álbuns ganhassem novos arranjos. Após alguns anos sem novos lançamentos, o The Frozen Autumn volta novamente como a dupla Merletto/Froxeanne no lançamento do EP Lie In Wait (2014), que serviu como uma prévia para o sexto álbum de estúdio do grupo, The Fellow Traveller, lançado em 2017 pela gravadora Echozone e que é o objeto de análise deste artigo.

The Fellow Traveller é um álbum empolgante e viciante do começo ao fim. Diferentemente de todos os álbuns anteriores, este álbum é completamente moldado em cima do Synthpop. Não há nenhuma música atmosférica ao estilo de Onyria (Pale Awakening, 1995), ou mesmo faixas introspectivas e de ritmo lento aos moldes de Evening Falls (Is Anybody There?, 2004). Claro que há momentos em que a dupla põe o pé no freio, mas na maior parte do tempo o ritmo é frenético e dançante. Outra diferença de The Fellow Traveller é na mixagem do som, que é bem mais limpo e cristalino que nos álbuns anteriores. Felizmente, a falta de uma mixagem mais abafada e empoeirada não tirou o clima nostálgico das composições, que por si só conseguem manter a chama (ou o gelo) típica dos anos 80 viva e forte. Como se isso tudo não bastasse, The Fellow Traveller é o álbum mais democrático da história da dupla. Diego Merletto e Froxeanne se alternam cantando em cada faixa, seis para ele e cinco para ela, quebrando assim uma tradição que fazia Merletto cantar a maioria das faixas em todos os outros álbuns.

As quatro primeiras faixas matam bem a sede dos fãs do grupo sedentos por música dançante. Os trabalhos já começam lá em cima com Tomorrow’s Life, onde Diego Merletto canta com sua inconfundível voz grave cheia de reverbs e ecos. As próximas duas músicas foram reaproveitadas do EP Lie In Wait e melhoradas. A coisa dá uma acalmada em White On White, que é a única música do álbum que se destaca por ser bem mais introspectiva, apesar da proeminência da bateria eletrônica. É a vez de Froxeanne cantar e ela entrega o que se espera dela: uma voz belíssima e angelical, com abençoados graves, que hipnotiza o ouvinte e o transporta para flutuar em nuvens de granizo. Gaivotas e ondas anunciam o começo de We’ll Fly Away e seu ritmo dançante e libertador. Com seu refrão belíssimo, Merletto fala sobre voar para sempre em busca da felicidade, assim como as gaivotas voam eternamente por sobre os mares. E parece que a chegada deste longo voo é na faixa 4, Told You At Once. Um apocalipse sonoro protagonizado por Froxeanne, uma perfeição para as pistas góticas de dança por seu ritmo acelerado, melodias destacadas e bases pesadas.



Após quatro músicas frenéticas, é hora de aproveitar mais uma viagem guiada por Diego Merletto em Your Touch, mais uma que foi reaproveitada do último EP. Escura como um pôr-do-sol contemplada no inverno das montanhas de Turim, Your Touch traz de volta as antigas forças Darkwave de álbuns anteriores, incluindo até mesmo uma guitarra, desta vez aliadas as poderosas camas de sintetizadores e de bateria eletrônica. Por falar neste último elemento, nunca as viradas e recursos de bateria foram tão usadas num álbum do The Frozen Autumn. A próxima faixa, A Gentle Flame, não possui a mesma imponência de arranjos como as demais, até porque ela carrega um tom sisudo “kraftwerkiano”. Todavia ela não passa despercebida, pois não existe nada que passe desapercebido se Froxeanne impôs nela seu divinal dom de interpretação. A tradição de músicas longas e viajadas é mantida com a excelente e variada Grey Metal Wings, que é como se fosse uma irmã FuturePop de Is Everything Real?, do Emotional Screening Device, e de Static Cold, de Is Anybody There?.

Aqui, cabe mais um comentário acerca das novidades trazidas em The Fellow Traveller. Os efeitos nos vocais de Merletto e de Froxeanne se multiplicaram. Os tradicionais e obrigatórios reverbs continuam presentes, lógico. Mas os delays estão mais destacados e facilmente perceptíveis, principalmente nos vocais de Froxeanne. Também, as harmonias vocais nunca foram tão trabalhadas, especialmente nos vocais de Diego Merletto. É como se você pudesse ouvir vários Diegos formando um coral em muitos momentos do álbum. A verdade é que essa variedade de efeitos não faria sentido algum se as próprias vozes dos dois cantores não fossem belas e diferenciadas.

Findada mais uma viagem a bordo de Grey Metal Wings, a simplicidade oitentista retorna em Sirens and Stargazers, que se vai se tornando mais e mais empolgante a medida que avança em seu tempo, atingindo o ápice em um momento onde Froxeanne canta somente com o apoio de um sintetizador grave e nervoso. Em contraponto a simplicidade de Sirens and Stargazers, vem em seguida aquela que talvez seja a mais complexa e progressiva composição da história do grupo italiano, The Twin Planet. Esta faixa traz um elaborado trabalho de arranjos de sintetizadores que são guiados por uma bateria quebrada e cheia de contratempos no caixa. As escalas árabes dos strings, os graves destacados e os vocais cavernosos de Diego Merletto nos conduzem por uma viagem ao cosmos em busca dos planetas gêmeos. O auge da viagem no profundo cosmos é um trecho onde Merletto assobia uma melodia sinistra por cima de imponentes strings, o que faz arrepiar o ouvinte de frio intergaláctico. Sim, a onda congelante do The Frozen Autumn chegou aos confins do Universo!

De volta à Terra, Froxeanne dá uma forte declaração na próxima faixa: eu te amo, mas eu prefiro sintetizadores! Enaltecendo a adoração aos instrumentos eletrônicos de teclas, a faixa que carrega o maravilhoso título de I Love You But I’ve Chosen Synthesizers é um dos grandes destaques de The Fellow Traveller e traz de volta o clima de pista de dança. O álbum se encerra com um cover de Loving The Alien, do eterno David Bowie, muito bem interpretada por Diego Merletto, claro, com seus vocais graves.



The Fellow Traveller pode ser o início de uma nova fase na discografia do The Frozen Autumn. Falo “pode ser”, pois é só o primeiro álbum desta nova sonoridade depois de sete anos sem lançar um novo full-length. O melhor de tudo é que a essência do som do The Frozen Autumn, o Darkwave, permanece lá em seu devido lugar. Mas agora ele está recauchutado e muito bem cuidado com todas as facilidades e opções que os sintetizadores podem oferecer. Há quem talvez tenha sentido falta de pelo menos uma faixa fortemente atmosférica, aos moldes antigos, mas a alternância de músicas fortes e dançantes com outras composições mais calmas sacia a qualquer um que goste das duas facetas da dupla italiana. Também considero um fato extremamente positivo a alternância de vocais entre Merletto e Froxeanne. Apesar de ele ser o fundador do grupo e principal compositor, ela o completa com seus vários recursos que a tornam uma cantora tão talentosa e que não deixa nada a dever às grandes divas Pop de todas as eras. Por sua vez, Merletto não teve em momento algum medo de ousar nas composições de The Fellow Traveller, que são as mais ricas e bem trabalhadas de toda a história do grupo. The Twin Planet que o diga!

Pois bem. A onda congelante veio, fez seus estragos e foi embora. Estragos sob o ponto de vista meteorológico, pois a música do The Frozen Autumn faz justamente o contrário de estragar. Ela eleva a mente do ouvinte e o faz experimentar múltiplas sensações num curto período de tempo. As vozes etéreas de Diego Merletto e de Froxeanne são essenciais para este mundo, bem como a musicalidade do The Frozen Autumn. Se você nunca testemunhou a Tempestade Congelante de Turim, faça-o agora. Congele sua mente nesta onda e mantenha-a fossilizada nela para sempre.

Ah, um estrago de verdade foi feito: no coração da pessoa cuja amada o trocou por sintetizadores.



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