THE FELLOW TRAVELLER – THE FROZEN AUTUMN (Echozone, 2017)
Tracklist:
01. Tomorrow’s Life
02. White On White
03. We’ll Fly Away (long version)
04. Told You At Once
05. Your Touch
06. A Gentle Flame
07. Grey Metal Wings
08. Sirens And Stargazers
09. The Twin Planet
10. I Love You But I’ve Chosen Synthesizers
11. Loving The Alien (David Bowie cover)
02. White On White
03. We’ll Fly Away (long version)
04. Told You At Once
05. Your Touch
06. A Gentle Flame
07. Grey Metal Wings
08. Sirens And Stargazers
09. The Twin Planet
10. I Love You But I’ve Chosen Synthesizers
11. Loving The Alien (David Bowie cover)
Line-up:
Diego Merletto – vocais, sintetizadores
Froxeanne – vocais, sintetizadores
Diego Merletto – vocais, sintetizadores
Froxeanne – vocais, sintetizadores
Texto: Bruno Rocha
Prepare-se! Uma frente fria está vindo da região de Turim,
na Itália. Mas ela não é uma frente fria qualquer, que traz chuvas ou mesmo
leves geadas. Essa frente fria é uma verdadeira onda congelante, sob a qual nem
mesmo o próprio ar escapa incólume, passando por um processo de sublimação, acabando
por solidificar-se. Fora estes efeitos, a onda congelante de Turim obscurece
luzes, tornado o ambiente escuro; os poucos e corajosos fachos de luzes que ousam
resistir são como as auroras boreais que rasgam os céus nórdicos, criando assim
um espaço, ao mesmo tempo escuro e frio, agradável e etéreo.
O grupo italiano The Frozen Autumn possui considerável
respeito dentro do cenário Gothic/Darkwave mundo afora graças ao seu estilo
bastante pessoal que mescla elementos de música atmosférica e de Synthpop, num
estilo que seus próprios integrantes batizaram de “Frozenwave”. Fundado em 1993 por Diego Merletto, o The
Frozen Autumn mostrou em seus primeiros trabalhos um som ainda com um pé no
Gothic Rock (na época a banda contava com os serviços de Claudio Brosio nas
guitarras) e com fortes influências de Clan Of Xymox, porém já havia ali
elementos de sonoridade característica que se tornaria consagrada anos depois.
Os dois primeiros álbuns do The Frozen Autumn, Pale Awakening (1995) e
Fragments Of Memories (1997), se tornariam clássicos do Darkwave, trazendo
consigo faixas atmosféricas e sorumbáticas recheadas com teclados que criam
climas ora melancólicos, ora confortantes. Os elementos Synthpop já existiam,
mas eram poucos e retraídos. A parceria de Merletto com Arianna Vespasiano teve
início com uma participação especial da cantora na faixa-título de Fragments Of
Memories, naquilo que foi um motivador para um projeto paralelo dos dois
músicos chamado Static Movement. O único álbum lançado por esse projeto,
Visionary Landscapes (1999), foi de suma importância para uma leve mudança no
direcionamento musical do próprio The Frozen Autumn, que deixou de lado
qualquer contribuição de guitarras e tornou seu som 100% eletrônico, fabricado
a base de sintetizadores e com maior proeminência das influências Synthpop.
Arianna, que atende pelo pseudônimo Froxeanne, foi efetivada
no The Frozen Autumn e a agora dupla grava o importante Emotional Screening
Device (2002) e a perfeição chamada Is Anybody There? (2005). As guitarras
voltam a se fazer presentes no bom álbum Chirality (2010) e no DVD Seen From
Under Ice (2011), que foi gravada em quarteto com a adição de mais um
tecladista e de um guitarrista, o que permitiu que algumas músicas de todos os álbuns
ganhassem novos arranjos. Após alguns anos sem novos lançamentos, o The Frozen
Autumn volta novamente como a dupla Merletto/Froxeanne no lançamento do EP Lie
In Wait (2014), que serviu como uma prévia para o sexto álbum de estúdio do
grupo, The Fellow Traveller, lançado em 2017 pela gravadora Echozone e que é o
objeto de análise deste artigo.
The Fellow Traveller é um álbum empolgante e viciante do
começo ao fim. Diferentemente de todos os álbuns anteriores, este álbum é completamente
moldado em cima do Synthpop. Não há nenhuma música atmosférica ao estilo de
Onyria (Pale Awakening, 1995), ou mesmo faixas introspectivas e de ritmo lento
aos moldes de Evening Falls (Is Anybody There?, 2004). Claro que há momentos em
que a dupla põe o pé no freio, mas na maior parte do tempo o ritmo é frenético
e dançante. Outra diferença de The Fellow Traveller é na mixagem do som, que é
bem mais limpo e cristalino que nos álbuns anteriores. Felizmente, a falta de
uma mixagem mais abafada e empoeirada não tirou o clima nostálgico das
composições, que por si só conseguem manter a chama (ou o gelo) típica dos anos
80 viva e forte. Como se isso tudo não bastasse, The Fellow Traveller é o álbum
mais democrático da história da dupla. Diego Merletto e Froxeanne se alternam
cantando em cada faixa, seis para ele e cinco para ela, quebrando assim uma
tradição que fazia Merletto cantar a maioria das faixas em todos os outros
álbuns.
As quatro primeiras faixas matam bem a sede dos fãs do grupo
sedentos por música dançante. Os trabalhos já começam lá em cima com Tomorrow’s Life, onde Diego Merletto canta com sua inconfundível voz grave cheia de
reverbs e ecos. As próximas duas músicas foram reaproveitadas do EP Lie In Wait e melhoradas. A coisa dá uma acalmada em White On White, que é a única música
do álbum que se destaca por ser bem mais introspectiva, apesar da proeminência
da bateria eletrônica. É a vez de Froxeanne cantar e ela entrega o que se
espera dela: uma voz belíssima e angelical, com abençoados graves, que
hipnotiza o ouvinte e o transporta para flutuar em nuvens de granizo. Gaivotas
e ondas anunciam o começo de We’ll Fly Away e seu ritmo dançante e libertador. Com
seu refrão belíssimo, Merletto fala sobre voar para sempre em busca da
felicidade, assim como as gaivotas voam eternamente por sobre os mares. E parece
que a chegada deste longo voo é na faixa 4, Told You At Once. Um apocalipse
sonoro protagonizado por Froxeanne, uma perfeição para as pistas góticas de
dança por seu ritmo acelerado, melodias destacadas e bases pesadas.
Após quatro músicas frenéticas, é hora de aproveitar mais
uma viagem guiada por Diego Merletto em Your Touch, mais uma que foi reaproveitada do último EP. Escura como um pôr-do-sol contemplada
no inverno das montanhas de Turim, Your Touch traz de volta as antigas forças
Darkwave de álbuns anteriores, incluindo até mesmo uma guitarra, desta vez
aliadas as poderosas camas de sintetizadores e de bateria eletrônica. Por falar
neste último elemento, nunca as viradas e recursos de bateria foram tão usadas
num álbum do The Frozen Autumn. A próxima faixa, A Gentle Flame, não possui a
mesma imponência de arranjos como as demais, até porque ela carrega um tom sisudo
“kraftwerkiano”. Todavia ela não passa despercebida, pois não existe nada que passe desapercebido se Froxeanne impôs nela seu divinal dom de interpretação. A tradição de músicas longas e
viajadas é mantida com a excelente e variada Grey Metal Wings, que é como se
fosse uma irmã FuturePop de Is Everything Real?, do Emotional Screening Device,
e de Static Cold, de Is Anybody There?.
Aqui, cabe mais um comentário acerca das novidades trazidas
em The Fellow Traveller. Os efeitos nos vocais de Merletto e de Froxeanne se
multiplicaram. Os tradicionais e obrigatórios reverbs continuam presentes,
lógico. Mas os delays estão mais destacados e facilmente perceptíveis,
principalmente nos vocais de Froxeanne. Também, as harmonias vocais nunca foram
tão trabalhadas, especialmente nos vocais de Diego Merletto. É como se você
pudesse ouvir vários Diegos formando um coral em muitos momentos do álbum. A verdade
é que essa variedade de efeitos não faria sentido algum se as próprias vozes
dos dois cantores não fossem belas e diferenciadas.
Findada mais uma viagem a bordo de Grey Metal Wings, a
simplicidade oitentista retorna em Sirens and Stargazers, que se vai se
tornando mais e mais empolgante a medida que avança em seu tempo, atingindo o
ápice em um momento onde Froxeanne canta somente com o apoio de um sintetizador
grave e nervoso. Em contraponto a simplicidade de Sirens and Stargazers, vem em
seguida aquela que talvez seja a mais complexa e progressiva composição da
história do grupo italiano, The Twin Planet. Esta faixa traz um elaborado
trabalho de arranjos de sintetizadores que são guiados por uma bateria quebrada
e cheia de contratempos no caixa. As escalas árabes dos strings, os graves
destacados e os vocais cavernosos de Diego Merletto nos conduzem por uma viagem
ao cosmos em busca dos planetas gêmeos. O auge da viagem no profundo cosmos é
um trecho onde Merletto assobia uma melodia sinistra por cima de imponentes strings,
o que faz arrepiar o ouvinte de frio intergaláctico. Sim, a onda congelante do
The Frozen Autumn chegou aos confins do Universo!
De volta à Terra, Froxeanne dá uma forte declaração na
próxima faixa: eu te amo, mas eu prefiro sintetizadores! Enaltecendo a adoração
aos instrumentos eletrônicos de teclas, a faixa que carrega o maravilhoso
título de I Love You But I’ve Chosen Synthesizers é um dos grandes destaques de
The Fellow Traveller e traz de volta o clima de pista de dança. O álbum se
encerra com um cover de Loving The Alien, do eterno David Bowie, muito bem
interpretada por Diego Merletto, claro, com seus vocais graves.
The Fellow Traveller pode ser o início de uma nova fase na
discografia do The Frozen Autumn. Falo “pode ser”, pois é só o primeiro álbum
desta nova sonoridade depois de sete anos sem lançar um novo full-length. O melhor
de tudo é que a essência do som do The Frozen Autumn, o Darkwave, permanece lá
em seu devido lugar. Mas agora ele está recauchutado e muito bem cuidado com
todas as facilidades e opções que os sintetizadores podem oferecer. Há quem talvez
tenha sentido falta de pelo menos uma faixa fortemente atmosférica, aos moldes
antigos, mas a alternância de músicas fortes e dançantes com outras composições
mais calmas sacia a qualquer um que goste das duas facetas da dupla italiana. Também
considero um fato extremamente positivo a alternância de vocais entre Merletto e
Froxeanne. Apesar de ele ser o fundador do grupo e principal compositor, ela o
completa com seus vários recursos que a tornam uma cantora tão talentosa e que
não deixa nada a dever às grandes divas Pop de todas as eras. Por sua vez, Merletto
não teve em momento algum medo de ousar nas composições de The Fellow Traveller,
que são as mais ricas e bem trabalhadas de toda a história do grupo. The Twin Planet
que o diga!
Pois bem. A onda congelante veio, fez seus estragos e foi embora.
Estragos sob o ponto de vista meteorológico, pois a música do The Frozen Autumn
faz justamente o contrário de estragar. Ela eleva a mente do ouvinte e o faz experimentar
múltiplas sensações num curto período de tempo. As vozes etéreas de Diego Merletto
e de Froxeanne são essenciais para este mundo, bem como a musicalidade do The
Frozen Autumn. Se você nunca testemunhou a Tempestade Congelante de Turim,
faça-o agora. Congele sua mente nesta onda e mantenha-a fossilizada nela para sempre.



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