Gotham - Anjos e Demônios
Havana 1884 - Fortaleza/CE (19/10/2019)
Imagens: Karen Cintra e Daniel Dutra
Texto: Bruno Rocha
Estabilizado como o evento gótico mais importante de
Fortaleza, a feira
Gotham, organizada anualmente pela
Underdark Produções,
viveu a sua quarta encarnação no último dia 19 de outubro, pela primeira vez no
Havana 1884, um dos mais importantes abrigos da música alternativa da capital
cearense dos últimos tempos. Desta feita o Gotham foi alcunhado como “Anjos e
Demônios”, de modo a abrir espaço para que os mais variados e contrastantes
espectros da arte obscura pudessem se fazer presentes no evento.
A feira Gotham reúne não só apresentações musicais, como
também agrega outras formas de expressões como dança, fotografia, artes
plásticas, exposição e feira de livros, lojinhas de souvenirs relacionados ao
tema da feira e muita, muita gente sedenta por esse tipo de arte. O público que
compareceu ao Gotham – Anjos e Demônios superou as expectativas, lotando o
Havana 1884 e embelezando mais ainda o brilho do evento.
O Havana 1884 se localiza no bairro Benfica, quase na
fronteira com o Centro de Fortaleza. Por ser um bairro universitário (no Benfica se
localiza um dos campi da Universidade Federal do Ceará), lá se localizam muitas
atrações para os jovens, tanto de documento quanto de alma, como bares, pubs,
casas de shows e etc. Com seus ares boêmios, o Benfica é um prato cheio para as
mais variadas matizes de arte e de cultura. Logo, as noites de sábado daquele
bairro são sempre movimentadas. Não foi diferente na noite do dia 19 de outubro
nas portas do Havana 1884. Por volta das 19:00, uma parte do público gótico que
lá já estava se reunia no pequeno alpendre que existe do lado de fora da
casa, completamente a mercê de uma imensa poça d’água que inundava a avenida bem em frente ao Havana e
que se mexia violentamente cada vez que um carro ou um ônibus passava por cima.
Este redator que vos escreve foi uma das vítimas do famigerado lago urbano.
Pelo menos, pude acompanhar o evento de banho tomado, mas não necessariamente
cheiroso.
Enquanto isso, o público que estava no alpendre aguardava a
abertura dos portões dando os últimos retoques em seus visuais, tentando se
distrair com seus estoques abarrotados de maquiagens, sombras e laquês.
Finalmente, os portões se abrem as 19:35 com Leo de Oliveira, um dos
organizadores do evento, chegando ao alpendre externo convidando as corujas e
os morcegos para adentrarem ao mundo de Gotham – Anjos e Demônios.
Uma vez lá dentro, um dos DJ’s anfitriões escalados para a
noite, Batastrophe, estava coordenando a trilha sonora para esquentar aqueles
que ao recinto adentravam. Pouco tempo após a abertura da casa, já subiam ao
palco os integrantes do Dark Hertz Transmission, que tinha a missão de abrir os
trabalhos musicais do Gotham. A banda formada por Leo de Oliveira (vocais, sim,
o organizador), Caio Mota (contrabaixo) e Erik Castro (guitarras, teclados,
samplers) subiu ao palco e às 20:00 deu início ao seu animado show. O trio
apresentou seu curto set recheado de composições inspiradas nas mais variadas
matizes do Pós-Punk e do Synthpop, incluindo aí o single Carmilla, que fora
divulgado um dia antes do evento. Muito a vontade em cima do palco, Leo de
Oliveira intercalava danças bastante animadas em meio a sua performance vocal.
Erik Castro se desdobrava com muita perícia em seus sintetizadores enquanto
Caio Mota destilava melodias em seu contrabaixo de timbre agudo e cheio de
efeitos. Em um dado momento, Leo de Oliveira desceu do palco para dançar junto
ao público, deixando Erik com a responsabilidade de cantar Blue Monday,
clássico do New Order. E esta não seria a última vez que o grupo de Bernard
Sumner seria lembrado naquela noite.
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| Dark Hertz Transmission. Foto: Daniel Dutra |
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| Leo de Oliveira (Dark Hertz Transmission). Foto: Daniel Dutra. |
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| Caio Mota. Foto: Daniel Dutra. |
Terminada a apresentação do Dark Hertz Transmission, Erik e
Caio mal tiveram tempo de descer do palco e já voltaram a ocupar suas posições
lá, pois eles também são integrantes do Maldigo, a próxima atração daquela
noite de Gotham. Além deles dois, o Maldigo é formado pela vocalista Juliana
Weyne, presença frequente em eventos de discotecagem como DJ Juju e também em
diversas bandas-tributo. A proposta musical do Maldigo é um Pós-Punk/Gothic
Rock com influências de música árabe, que reflete o conteúdo histórico adotado
pelas letras. A banda também executa alguns covers ao vivo e foi exatamente um
deles que deu início ao set do grupo, Dark Entries, do Bauhaus.
Chamava a atenção a indumentária e a maquiagem usada por
Juliana em sua apresentação, especialmente uma pintura vermelha em sua testa que
era adornada por uma lua crescente em branco. Erik Castro desta vez empunhava
uma guitarra, mas ele não saiu de frente de sua estação sintetizadora, alternando-se
entre os dois instrumentos quando convinha. Caio Mota continuava em sua mesma
abordagem melódica com seu contrabaixo. Após tocarem as autorais Babylon The Great e Of Bones And Hazy Thoughts,
a banda emendou um cover de The Hanging Garden, do The Cure. Juliana,
com seus vocais expressivos, mostrava versatilidade para cantar tanto as
músicas autorais do Maldigo quanto os covers, todos eles registrados
originalmente por vozes masculinas. Durante a execução de Treasures In Aramaic
Tears, Juliana põe uma tiara que lembrava uma coroa e se postou em cima de um
suporte enquanto a dançarina Angel Kali entrava em ação apresentando uma
magnânima performance de dança do ventre que durou alguns minutos por cima do instrumental
guiado por Erik e por Caio. Ao seu final, Angel Kali se prostrou perante
Juliana como ela fosse uma divindade, que estendeu a sua mão afim de receber
aquela dança como uma oferenda. Quando o Maldigo deu início a At The Gates Of
Babylon, os samplers de Erik Castro resolveram entrar em greve, impedindo assim
a execução da mesma. Prontamente o trio não deixou o público só na vontade e
mandou mais um cover, desta vez para Romeo’s Delight, do Christian Death,
encerrando mais uma belíssima apresentação do grupo. Ambas as bandas mostraram nesta
noite porque despontam como dois dos principais nomes do Pós-Punk fortalezense
dos últimos tempos.
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| Maldigo. Foto: Karen Cintra |
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| Juliana Weyne. Foto: Karen Cintra. |
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| Erik Castro. Foto: Daniel Dutra. |
Pausa nas apresentações
musicais, era hora de averiguar as exposições fotográficas que estavam sendo
exibidas no Gotham. Nesta hora o Havana 1884 já estava lotado, como era de se
esperar tendo em vista a importância e a magnitude do Gotham para a cena gótica
de Fortaleza. De repente, boa parte do público abria um círculo perto do palco
para acompanhar a apresentação de dança Tribal Fusion do quarteto Artemísia,
que apresentava sua performance iluminada por velas que elas mesmas trouxeram
ao ambiente. Enquanto elas se apresentavam em frente ao palco, o grupo
paraibano Electro Bromance já se encontrava em cima do mesmo arrumando seu
equipamento eletrônico composto por sintetizadores, MacBooks e uma guitarra.
Ao fim da apresentação do grupo
Artemísia, rapidamente o Electro Bromance deu início ao seu set. Uma das
atrações mais esperadas do evento, o duo formada por Wilame AC (vocais,
sintetizadores, programação) e por Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores,
programação, vocais) veio a Fortaleza direto do estado da Paraíba para mostrar
ao público local seu Synthpop pesado e futurista. Com músicas oriundas de seu
mais recente álbum de estúdio We Are Like A Time Bomb (2017) e de outros
singles já lançados, incluindo aí Supermodel (2017), o Electro Bromance colocou
todo o público presente no Gotham para dançar com uma apresentação empolgante e
eletrizante. Destacavam-se em meio ao público dois cybergoths que dançavam um
de frente para o outro com feixes luminosos ao ritmo do Futurepop da dupla
paraibana. O som a frente do palco estava ótimo e cada instrumento soava bastante
nítido aos ouvidos, mas para os fundos da casa o som estava baixo.
Hansen se desdobrava entre os
seus sintetizadores e sua guitarra de timbre altamente distorcido, além de ter
que assumir os vocais em alguns momentos do concerto. Wilame era um show a
parte; ora em sua estação, ora somente com o microfone, ele incendiava mais
ainda o público ali presente com uma forte presença de palco que misturava
danças e poses. E você lembra que em algum parágrafo acima eu disse que o New
Order seria mais uma vez lembrado nesta noite? Pois bem, o Electro Bromance tratou
de homenagear a banda britânica apresentando a sua versão para Bizarre Love Triangle.
Assim foi a destruidora apresentação da dupla paraibana em terras alencarinas e
que deixou muita saudade ao público.
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| Electro Bromance. Foto: Karen Cintra. |
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| Wilame AC. Foto: Karen Cintra |
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| Hansen Pessoa. Foto: Karen Cintra |
Em pouco tempo as estações de
Wilame e de Hansen foram desmontadas e rapidamente a outra grande atração do
evento subiu ao palco, o Plastique Noir. Apesar de serem mais conhecidos “do
que farinha”, como se diz no Ceará, a qualidade musical e o profissionalismo do
trio sempre são indicativos de que um show do grupo será mais uma grande
apresentação, donde sempre um grande e fiel público se reúne para vê-los. A
novidade que o Plastique Noir estava divulgando no momento era o split
As Above, So Below, que o
grupo lançou junto a banda paulista
Das Projekt, onde uma banda toca músicas da
outra num total de dez faixas, trabalho lançado pela
Wave Records.
O trio formado por Airton S.
(vocais, programações), Danyel Noir (guitarras) e Deivyson Teixeira (contrabaixo)
chegou arrebentando tudo com 24 Hours Awake, faixa-título do álbum mais recente
lançado em 2014, e com Phantom In My Stereo. Em seguida veio uma nova música, a
maravilhosa Asleep In The Night Train, que dá indícios de que o novo trabalho
que o Plastique Noir está gravando virá com uma carga mais forte ainda de
negrume e melancolia. Após uma acalmada com a infalível Emerging Rats e uma
acordada geral com Inconstancy, o trio apresentou Christine, do Das Projekt,
uma das faixas registradas no split mencionado no parágrafo anterior. Logo após
veio I Disappear, que teve a missão de preparar o público para a reta final
arrebatadora com a levanta-público Rose Of Flash And Blood (não se ouve os
vocais de Airton quando o público esbraveja o refrão), a clássica e maldosa
Creep Show (onde o público aproveitou a levada de bateria para levantar um coro
maravilhoso contra o atual presidente da república) e o encerramento definitivo
com mais uma música nova, Catedrais em Chamas.
Junto a “definitivo”, esse
encerramento foi inesperado. Meio que sem mais nem menos, o Plastique Noir
começou a desmontar seu equipamento, o que deixou parte do público que esperava
por um set mais longo visivelmente com cara de tacho. Mas a culpa disso não foi
da banda e nem da produção. Os fiscais da Prefeitura de Fortaleza e a Polícia
sempre pegam pesado com relação aos horários de som alto em nossa cidade, o que
já ocasionou diversos problemas parecidos em eventos anteriores dos mais
variados estilos musicais. Mas o que foi apresentado pelo Plastique Noir nesta
noite saciou muito bem, como sempre, o fiel público que chegou para vê-los e
para apreciar mais uma edição bem-sucedida do Gotham.
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| Airton S. e Deivyson Teixeira. Foto: Daniel Dutra. |
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| Danyel Noir. Foto: Daniel Dutra. |
Este repórter precisou se
retirar ao fim da apresentação do Plastique Noir e não pode conferir a
apresentação dos renomados DJ’s paraibanos
Xymox e
Bat, além do outro anfitrião
da noite, DJ
Enceladus. Mas, dado tudo o que foi relatado aqui e muito mais,
fica uma certeza: o Gotham se solidifica como um dos eventos góticos mais
importantes quiçá do Brasil. A cena gótica local se mostra forte e presente,
com organizadores e produtores que arregaçam as mangas para que tudo seja
executado com a maior precisão e perícia possíveis (parabéns a todos da equipe
Underdark Produções). Outro ponto a se destacar é a emergente onda de bandas
que surgem em Fortaleza, especialmente nos últimos dois anos. Ficava difícil mencionar
outra banda Gótica/Pós-Punk da cidade que não fosse o Plastique Noir. Agora, as
apresentações de Dark Hertz Transmission e Maldigo, bem como de outros grupos
que já tiveram a oportunidade de mostrarem seus promissores trabalhos ao vivo,
provam que existe em Fortaleza um talento natural de seus músicos para a coisa,
o que fará com que mais nomes daqui sejam cada vez mais reconhecidos. Para
isso, é só manter o nível de profissionalismo e de garra apresentado até agora,
pois o talento existe.
Adorei o tom de crônica jornalística com as poças de água e palavras como alcunhado e quiçá e a boa descrição do evento.
ResponderExcluirEspero poder prestigiar um evento de vocês em breve! Sucesso! S2
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