O Lebanon Hanover divulgou hoje mais uma nova música,
Shatter Matter. A mesma faz parte do novo single do duo, The Last
Thing, que foi lançado oficialmente no último dia 30 de maio.
A nova música completa o tom de melancolia prenunciado pela
faixa-título do single, mas desta vez com um ritmo bem mais lento e soturno que
toma conta do ambiente, tudo isso complementado pela intepretação sofrida de
William Maybelline. Chega a lembrar, em alguns momentos, o trabalho-solo do
mesmo, QUAL.
O single The Last Thing é um prenúncio do sétimo álbum completo do Lebanon Hanover, o qual sucederá Let Then Be Alien (2018) e que
se espera que seja lançado ainda em 2020 através da gravadora Fabrika Records. A versão física de The Last Thing, limitada a 1000 cópias, já foi toda comprada no período de pré-venda. Entretanto, se você ainda se interessa em adquiri-la com alguma esperança, algumas poucas cópias ainda podem ser solicitadas pelo Bandcamp da Fabrika Records.
Confira no player abaixo a nova música do Lebanon Hanover, Shatter
Matter. Lebanon Hanover é Larissa Iceglass (vocais, guitarras, programação)
e William Maybelline (vocais, contrabaixo, programação).
O duo paulista Days Are Nights está de volta após um
período de hiato. Neste tempo em que a banda esteve em off, Dennis Sinned
esteve envolvido com outros projetos tais como 1983, População Zero e Mateamargo.
Agora, Dennis, junto com Brunno dos Santos, acorda novamente o Days Are
Nights já com um novo lançamento, a coletânea Autarquia Sem Glamour
(2005-2020).
Esta coletânea foi lançada no último dia 15 de maio através
do selo Paranoia Musique em parceria com a Dissonância Magnética
e marca o aniversário de 15 anos do duo. As 18 faixas que compõem a coletânea
foram retiradas de cada um dos cinco álbuns já lançados pelo Days Are Nights,
desde o debut Sounds Of The End (2006), até o lançamento de inéditas
mais recente, O Encontro Entre Nicolas Flamel E A Garota Que Violava Corpos
(2015).
O Days Are Nights conquistou uma sólida reputação no cenário
underground paulista e nacional graças ao seu som característico que mescla
elementos do Pós-Punk e do Coldwave. O duo já participou de diversos eventos
Brasil afora, incluindo o importante Woodgothic Festival, e teve sua música sendo
reconhecida inclusive no exterior, tendo em vista o lançamento europeu do álbum
Eu Te Vejo Dormir Enquanto O Tempo Nos Mata (2008) e a crítica feita
pelo renomado jornalista Mick Mercer, referência da música gótica mundial.
Dennis e Brunno prometem voltar não só com lançamentos, mas
também aos palcos, assim que os reflexos da pandemia de Covid-19 tornem
possíveis o retorno das pessoas ao convívio social. Enquanto isso não,
acontece, a banda em parceira com o selo Paranoia Musique disponibiliza a coletânea
Autarquia Sem Glamour (2005-2020), bem como todo o restante do catálogo
do duo, nas plataformas digitais. Ouça pela sua plataforma preferida.
Confira no player abaixo um vídeo-teaser de Autarquia Sem
Glamour (2005-2020) e, mais abaixo, a capa da coletânea, criada por Diego de Oliveira.
O Paradise Lost lançou recentemente o seu
décimo-sexto álbum de estúdio, Obsidian, pela gravadora Nuclear Blast e
com distribuição brasileira pela Shinigami Records. Obsidian representa
um marco na discografia da banda formada por Nick Holmes (vocais), Gregor
Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen Edmondson
(contrabaixo) e Waltteri Wäyrynen (bateria) por ser um dos registros
mais pesados e melancólicos do grupo nos últimos tempos. Coincidentemente, este
álbum foi lançado num dos períodos mais negros e tristes da história recente da
humanidade com a pandemia de Covid-19. Em entrevista exclusiva ao blog THE ATMOSPHERE..., o guitarrista e principal compositor Gregor Mackintosh deu detalhes
sobre o novo álbum do Paradise Lost, falou o que vem fazendo durante o
isolamento social e explicou seu leque de influências oriundas do Gothic Rock,
estilo que apareceu com proeminência em Obsidian, tudo isso dentre outros
assuntos.
Olá, Gregor! Em primeiro lugar, gostaria de te agradecer por
sua disponibilidade para responder estas perguntas e espero que você esteja bem
e com saúde. Como tem sido sua rotina e seu trabalho durante a pandemia? Este período
negro e de incertezas pelo qual o mundo passa tem influenciado você
musicalmente de alguma forma?
Gregor Mackintosh: Eu estou bem, obrigado. A maior
parte do meu tempo durante a pandemia tem consistido em promover o novo álbum
do Paradise Lost. Além disso eu tenho lido muitos livros, assistido muitos
filmes e ouvindo muita música. Criativamente eu comecei a trabalhar em novas composições
para meu projeto paralelo, o Strigoi. Somente o tempo nos dirá se esse material
virá inspirado por elementos da atual situação.
Falemos então sobre o novo álbum. Obsidian apresenta, de
uma maneira mais evidente comparado com os outros álbuns lançados na última
década, elementos de Rock Gótico oitentista. Em vários momentos podemos perceber
arranjos que nos remetem a The Sisters Of Mercy, The Cure e Dead Can Dance, não
apenas na música Ghosts, onde essas influências estão mais óbvias. Esse
direcionamento foi planejado antes que os trabalhos para a concepção de
Obsidian começassem?
Gregor: Influências não foram discutidas antes que começássemos
a compor para o álbum. Nós apenas concordamos que deveria ser mais variado em
relação ao lançamento mais recente (Medusa, 2017). Nós trabalhamos em uma música de cada vez e
isto acabou nos levando a diferentes caminhos. O que me inspira em qualquer dia
é o pontapé inicial para começar uma música, mas à medida em que trabalhamos
nela, ela pode seguir por um caminho ou pode seguir por outro. Nós temos várias
versões diferentes para cada música em qualquer momento e escolhemos depois por
qual caminho seguir. Isso fez com que o processo de composição acabasse por ser
divertido, apesar de que isso soe de qualquer forma, menos divertido.
A performance de Waltteri Wäyrynen na bateria me chamou
bastante a atenção. Talvez este tenha sido o mais técnico trabalho de bateria
da história da banda, com várias conduções nos tons, viradas criativas e “ghost-notes”
no caixa. Como compositor principal, você o orienta como você quer que a
bateria soe em cada música ou ele tem completa liberdade para criar?
Gregor: Eu costumo ter a bateria bem próxima do que
eu quero que ela seja, de modo que ele entende isso ao mesmo tempo que tem alguma
liberdade artística. O melhor sobre Waltteri é que sua tocada na bateria pode
cobrir vários estilos diferentes. Isto torna as coisas muito fáceis pra mim
quando eu tento explicar o que eu estou buscando em uma música. Sutileza e
dinâmica estavam bem em evidência na minha mente quando conversamos sobre isso
antes das gravações.
Este é o terceiro álbum do Paradise Lost gravado em parceria
com o produtor Jaime Gomez Arellano no Orgone Studio, o qual ele é dono. No
passado vocês também trabalharam com Jens Bogren, Rhys Fulber e e Simon Efemey,
dentre outros. Como tem sido trabalhar com Jaime e o quão importante é para o Paradise
Lost, uma banda que preza por uma sonoridade bastante característica e repleta
de influências, ter um produtor de fora da banda para direcionar as gravações além
dos aspectos técnicos?
Gregor: Tivemos uma grande experiência de aprendizado
com cada produtor com quem nós trabalhamos. Rhys realmente nos trouxe foco e crença
em nós mesmos. Jens nos ensinou sobre trabalhar com precisão. Nos anos mais recentes nós não
precisamos realmente de um produtor para nos guiar. Nós apenas precisávamos de
alguém para captar o som da banda com o melhor equipamento e com um grande
entendimento do que nós estávamos tentando alcançar. E Gomez tem sido o cara
para este trabalho. Ele é realmente talentoso em ajudar o artista a expressar o
que eles precisam e não somente em focar na técnica.
Aaron Aedy, Stephen Edmondson, Nick Holmes, Gregor Mackintosh e Waltteri Wäyrynen
De Dooms pesados até Gothic Rock’s animados, o Paradise
Lost explorou em Obsidian vários elementos musicais que construíram a discografia
da banda durante as últimas três décadas sem abrir mão da melancolia, do peso,
da miséria e de certa imponência em cada uma das músicas. Como vocês lidam com
criar uma música tão homogênea e com uma forte personalidade mesmo com a grande
variedade de influências com as quais vocês trabalham?
Gregor: Eu acho que isto vem de anos aprimorando
nosso trabalho. Nós compomos e tocamos de um modo que não é mais de uma maneira
consciente. Eu amo aprender, experimentar e me inspirar pelas mais diferentes
coisas, mas quando tudo isso entra no caldeirão do Paradise Lost, o resultado é
único de uma certa maneira.
No primeiro press-release divulgando Obsidian, a banda
declarou que este álbum seria o mais eclético em muito tempo. Dado o
direcionamento mais pesado que o Paradise Lost tomou nas últimas duas décadas,
mais notadamente na última, eu não esperava que arranjos mais acessíveis, como
os vistos em Host, por exemplo, estariam de volta com vocês. Com o Vallenfyre e
agora com o Strigoi, você tem extrapolado sua vontade de tocar um Death Metal
cru e sujo, que é outra forte influência de suas composições. Você planeja ou
pelo menos tem vontade de tocar algo mais direcionado ao Gothic Rock ou ao
Darkwave novamente em algum projeto paralelo no futuro, seja de um modo mais
orgânico lembrando The Cure ou mesmo com um direcionamento eletrônico como
visto em Host?
Gregor: Eu estive pensando em fazer isso durante
vários anos mas eu nunca senti que havia chegado a hora certa. Eu tenho várias partes
de música nesse estilo que eu fui criando ao longo dos últimos 20 anos, mas eu
nunca estive convicto que essas ideias eram boas o suficiente. Talvez algum dia
eu encontre inspiração para completar um álbum nesse estilo.
Eu imagino que existem diferentes períodos em sua vida
onde você tem mais vontade de ouvir Death e Doom Metal e outros onde sua vontade
de ouvir Gothic Rock é mais forte. Como guitarrista e compositor, quais músicos
da cena Post Punk/Gótica oitentista você mais gosta de ouvir e como eles te
influenciam na hora de compor e de tocar?
Gregor: Tem vários. Siouxsie and the Banshees, The
Sisters of Mercy, Southern Death Cult (The Cult), Christian Death, a fase inicial
do The Cure, Bauhaus, Depeche Mode, Dead Can Dance... Todas estas bandas tem
diferentes elementos que eu admiro e que me inspiram de várias maneiras. Lisa
Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) são os mestres da fluidez e da dinâmica,
indo do mais silencioso sussurro até o crescendo mais bombástico. Gore (Martin,
Depeche Mode) compõe os sucessos mais pegajosos. Robert Smith (The Cure) e
Siouxsie me ajudaram a compreender as sutilezas para criar paisagens sonoras.
Sisters me mostrou que simplicidade pode as vezes ser melhor. Mas todas estas
bandas pintam imagens com suas músicas e é isto que eu almejo fazer.
Para finalizar esta entrevista, mate-me uma curiosidade a
qual você é uma das únicas pessoas no mundo que podem fazer isso. Exceto pelo
baterista, o Paradise Lost mantém a mesma formação desde o começo há 32 anos
com você, Nick, Aaron e Stephen. Qual é o segredo para manter uma formação tão
longeva e conectada apesar de tantos acontecimentos e de mudanças de
sonoridade?
Gregor: Nós compartilhamos do mesmo estilo de vida ao
longo de nossos crescimentos. Viemos de uma classe trabalhadora, do Norte da
Inglaterra, com estas perspectivas humildes e com um senso de humor autodepreciativo.
Nenhum tipo de ego pode sobreviver neste tipo de ambiente e o ego é o que
costuma acabar com várias bandas.
O blog agradece a Karina Somacal e a equipe Shinigami Records pelo valioso apoio.
OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)
Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)
Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria
Texto: Bruno Rocha
O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que
possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender
do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo
chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo
de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em
cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse
tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele
serve de referência para ninguém menos que David Bowie.
Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise
Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum
entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza
que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes.
Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise
Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990)
até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999),
sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta
onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a
banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh
(guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele
nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube
filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais,
misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente
com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa
única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.
Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com
seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no
último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami
Records.
Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada
elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente
e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost
resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos
integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor
Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian,
eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em
muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além
disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian.
Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas
linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves
profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira
lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera
soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas
bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som,
rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri
Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio
crítico.
Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax
pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim
Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os
sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão
parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo
cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com
guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete
cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede
passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes
de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais
empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que
todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o
ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o
Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock
Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas
pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes
canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas.
Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria
ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.
Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano
imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de
te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de
guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy
servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos
melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez
mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na
pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês
com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost
notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity
começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar
conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove
das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a
alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum
com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de
Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo
de Edmondson a única segurança sonora.
As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo
dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies
Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a
ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve
enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um
timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável
e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras
prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício
de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não
abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão
lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black
Sabbath.
Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian,
constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua
proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que
Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das
outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes”
musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim
como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal
de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The
Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me
pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri
Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e
capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que
eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica
absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda
de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver
bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse
Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma
bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e
viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee
Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night,
um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na
versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como
faixa-bônus foi muito bem entregue.
A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez
Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação,
que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência
das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se
destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo
maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato
artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar
visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro
em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do
outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente.
Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do
grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de
Halifax ainda podem preparar para o futuro.
Ninguém, nem o mais pessimista dos terráqueos, nem mesmo os astrólogos ou aqueles videntes que subsistem na televisão, poderia imaginar ou prever a hecatombe sanitária pela qual o mundo passa em 2020. Um vírus cujo contágio se dá forma selvagem se espalhou por todo o planeta (menos no Turcomenistão, já que o "presidente" de lá afirma de pé junto que lá não existe nenhum caso), forçando assim a parada de todas as instâncias das sociedades como há muito tempo não se via. Se a coisa afetou tão fortemente até as maiores economias e corporações do mundo, imagine então para o lado mais fraco da corda, onde se localiza o Rock underground.
Com a preocupação maior em salvar a vida das pessoas e evitar que o coronavírus adoeça grande parte da população e mate aqueles que forem afetados de forma mais grave, aglomerações estão proibidas e as pessoas estão sendo orientadas a não saírem de casa em uma profilaxia enormemente comunitária chamada "isolamento social". Consequentemente, trazendo para o escopo deste humilde blog, que é o que interessa a vocês caros leitores, shows foram cancelados e as bandas estão tendo que se reinventar para manter o contato com o público. Daí surgiram a ideia das famosas lives.
Não que elas já não existissem, mas tendo em vista a atual conjuntura do mundo, as lives se tornaram praticamente a única maneira de os artistas apresentarem sua arte àqueles que a apreciam.
Dentro do mundo gótico, grupos como Ash Code, Sonsombre, Plastique Noir e Hapax, dentre vários outros cujos nomes a memória me veta neste momento (comentem aqui ou nas redes sociais do blog, por favor. Nunca vos pedi nada), já fizeram as suas lives para entreter o público que se enclausura em suas casas em meio à pandemia. Tocando juntos num mesmo ambiente ou então com cada integrante tocando em seu domicílio, para depois sincronizar tudo para ir ao ar de uma forma organizada, as bandas se viram como podem usando sua criatividade e seus recursos, lançando mão de jogos de luzes, de efeitos de vídeo ou mesmo fazendo algo mais simplista e caseiro. o duo francês Dear Deer fez sua live de dentro de uma cozinha, por exemplo. Os cariocas do Última Dança fizeram num sofá mesmo, com violão e teclado portátil. São diferentes formas de angariar a atenção do ouvinte em meio ao concorrido e sempre lotado palco da internet.
Uma iniciativa do tipo vem chamando a atenção. O Gothicat, loja virtual que vende produtos do universo gótico customizados com imagens de gatos, produziu e pôs no ar o Gothicat Festival, evento on-line cujo objetivo foi apresentar vídeos nunca divulgados antes por bandas do cenário Pós-Punk, Gothic Rock, Darkwave e vertentes, com apresentação de André Savetier, vocalista das bandas Deus Faust e Tenebris Obortis e responsável pelo canal The Wave Of Things. Não só com a intenção de apresentar vídeos, como descrito, o Gothicat Festival também apela para o lado social, já que, durante as transmissões, os espectadores podem fazer doações online para instituições de saúde que prestam serviços de combate ao Covid-19.
A primeira edição, que foi transmitida no último dia 12 de abril, contou com colaborações de importantes nomes como Clan Of Xymox (com um raro vídeo de uma apresentação de 1982), Lebanon Hanover, She Past Away, Minuit Machine, Molchat Doma e várias outras bandas. A aceitação foi tamanha que foi mister uma segunda edição, desta vez com a curadoria sendo feita pelos próprios fãs através de uma enquete. Outras bandas indicadas pelos fãs através desta mesma enquete comporão a terceira edição do Gothicat Festival, que irá ao ar no próximo dia 23 de maio e que contará com a participação dos cearenses do Plastique Noir, além de outros nomes importantes como Nosferatu, Merciful Nuns, Bleib Modern, Iamtheshadow, O Children e et cetera.
A iniciativa vem gerando ecos. Tanto é que um novo projeto do tipo será colocado em prática a partir do próximo dia 22 de maio, sexta-feira, bem no Dia Mundial da Cultura Gótica. Será a primeira edição do Festival Under Latinoamericano, que está sendo organizado pela produtora peruana Tumbas Eternas Producciones. Como o nome do festival delata, o mesmo será composto somente por bandas de países latino-americanos. Nesta primeira edição, um total de 26 bandas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Costa Rica, Venezuela, Equador e Uruguai estão escaladas. Representando o nosso país estarão Plastique Noir, Ego Eris, Herzegovina e Jenni Sex. Dos outros países, alguns dos nomes confirmados são Los Malkavian, Gorgonas, Delirium Mask e El Ansia.
O Darkitalia, produtora de shows e webzine, também está organizando uma live nos mesmos moldes para o próximo dia 23. Será o World Gothic Day #FEST, que contará com colaborações de Clan Of Xymox, Molchat Doma, Iamtheshadow, Bedless Bones, Hapax, Sonsombre e outras bandas, totalizando um número de 32 grupos participantes. É tanta live que dá até para escolher!
E os DJ's? Sim, eles também estão se adaptando aos tempos pandêmicos. Suas pick-ups com vinis ou com aparelhagens mais modernas estão ainda a serviço de seus pilotos e dos fãs de discoteca. No Brasil, alguns DJ's como Zauber (Madame, Via Underground) e Marcelo Kpta (Das Projekt), dentre outros, vem lançando esporadicamente playlists "da quarentena" através do YouTube e do Soundcloud. O próprio Madame, tendo em vista o fechamento da casa por conta da pandemia, vem fazendo toda noite, a partir de 19:00 até as 5:00 do dia seguinte, lives com a presença ubíqua dos DJ's Gê Rodrigues e Ricardo Escudeiro, além de alguns convidados esporádicos, como modo de levar na medida do possível a essência da casa para as residências dos fãs.
Tais entretenimentos são essenciais em tempos que não podemos sair de casa para aproveitar a cultura nos lugares onde ela transmite o melhor de suas sensações. E, talvez, as lives rejam um paradigma que será seguido daqui em diante mesmo após a pandemia em uma nova forma que os artistas têm de se conectar com seus fãs neste moderno, maquinado e globalizado mundo. Entretanto, o que mais queremos de verdade é poder sair de casa e ver nossas bandas preferidas ao vivo, apoiar nossos artistas in loco e nos animarmos ao som dos DJ's que sempre discotecam aquelas nossas músicas preferidas. As lives, não obstante serem ideias criativas e que nos saciam bem neste período, jamais passarão o mesmo sentimento e sinergia que nos impacta nas apresentações ao vivo, onde podemos não somente ver os artistas se expressando ao vivo, como também temos a oportunidade de estarmos perto das pessoas que nos fazem bem.
Este é um período de sacrifício. O novo coronavírus é inclemente e espalhou sua chaga virulenta por toda a Terra (menos no Turcomenistão). Nossa única forma de combater seu contágio selvagem é nos resguardarmos em casa na medida do possível e seguir as recomendações das autoridades científicas e sanitárias. Enquanto líderes estúpidos e ineptos tentam a todo custo desacreditar a ciência em prol de ver em prática teorias conspiratórias ao mesmo tempo em que milhões de seguidores cegos ruminam e mugem ante qualquer atitude nojenta de seus líderes, devemos ser o lado consciente deste período de trevas e de incertezas. Cuidemo-nos. Assim, o quanto antes for possível, poderemos voltar a nossa vida normal. Nem que seja ao "novo normal" que especialistas vem falando em suas colunas, blogs e entrevistas. Espero otimista que seja um "novo normal" com saúde, esperança e cultura, tão legal quanto o antigo normal.
O fato de que a música obscura chega até os mais longínquos ou
interioranos rincões deste país pode surpreender quem não acompanha a movimentação
desta vertente musical de perto, mas não é novidade para quem a devora com
afinco. De Uruburetama, cidade cearense que dista 114 Km da capital Fortaleza,
vem a banda Pontagulha, que estreou recentemente com o EP Memórias
Mortas trazendo quatro faixas que demostram muito conhecimento de causa em
uma musicalidade que mescla elementos do Darkwave e do Coldwave.
Formado por Lucas Caducco (vocais, guitarras, Casebre
Alternativo) em 2017, a banda é composta também por Guilherme Santos
(contrabaixo) e por Jocélio Freitas (guitarras). Seu nome teve uma
origem curiosa e tocante: Lucas afirma que sonhou com sua avó após o falecimento
da mesma em 2019. No sonho, ela dizia que o nome da banda deveria ser “Pontagulha”
e que, a partir disso, portas seriam abertas para o projeto. Apesar de a
formação ser o trio citado no começo deste parágrafo, o EP foi gravado sozinho
por Lucas com seus próprios equipamentos em Uruburetama, assumindo também o
contrabaixo. O produtor paulista Gabriel Vieira se disponibilizou para
masterizar o trabalho e também para registrar os sintetizadores e as
programações.
O EP se inicia com Dimensão, música que entrega a
tônica que o EP seguirá dali em diante: melodias simples, soturnas e bastante
eficientes no sentido de captar a atenção do ouvinte, levando-o a introspecção.
Um generoso reverb foi adicionado para aumentar a sensação nebulosa que a
música perpassa. Lucas aposta em vocais barítonos na faixa seguinte, a que dá
nome ao EP, cujos arranjos casam bem com as letras que falam de solidão. É
possível imaginar-se caminhando solitariamente no Centro de Uruburetama tarde
da noite, contemplando o céu escuro e nevoento, sentindo frio e onde a única
companhia são as luzes dos postes.
Para este escriba, o maior destaque do EP é a faixa de nº 3,
Ruínas. Começando com um ritmo lento que destaca os bumbos da bateria
programada, esta composição traz consigo novamente uma carga soturna, a qual se
apresenta mais forte ainda do que na faixa de abertura graças às simples, mas
negras, melodias de guitarra. É como se os americanos do French Police se
encontrassem com os fortalezenses do Plastique Noir. O clímax próximo ao seu
final é estonteante e poderia ter sido mais impactante ainda se um fade-out não
esvaísse a música tão logo. O EP se encerra com Noites Urbanas, dona de
uma atmosfera distinta de suas três antecessoras, mais cinzenta e nublada. Entretanto,
inconscientemente ou não, esta música mais parece uma versão desacelerada de Rituel,
do She Past Away.
Algo que precisa ser revisto pela banda é a forte dose de
reverb que é dedicada especialmente aos vocais. Quando Caducco resolve lançar
mão de linhas vocais mais graves, o reverb esconde tanto a performance de canto
que entender as letras se torna uma tarefa complicada para um ouvido mais
incauto, como se pode notar em Dimensão e em Noites Urbanas.
Afora este detalhe, a produção e a mixagem dosaram na medida certa cada
instrumento, deixando tudo bastante nítido aos ouvidos de quem ousa penetrar na
musicalidade fria, mas convidativa, do Pontagulha. Os sintetizadores são
discretos e tão somente têm a missão de reforçar o clima das composições,
deixando as guitarras em posição de destaque para derramar suas melodias.
Musicalmente, o Pontagulha está no caminho certo e deixa uma
boa impressão com Memórias Mortas. Esta impressão se converte em ansiedade quando
paramos para imaginar o que a banda pode nos mostrar no futuro em termos de novas
composições. De qualquer forma, o Pontagulha já se mostra como uma ótima alternativa
para quem busca uma sonoridade Darkwave mais simples e introspectiva, mas que
não deixa de lado os toques sombrios e a atmosfera fria.