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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Resenha: Paradise Lost - Obsidian (2020)



OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)

Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)

Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria


Texto: Bruno Rocha

O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele serve de referência para ninguém menos que David Bowie.

Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes. Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990) até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999), sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh (guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais, misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.

Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami Records.

Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian, eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian. Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som, rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio crítico.

Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas. Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.



Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo de Edmondson a única segurança sonora.

As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black Sabbath.

Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian, constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes” musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night, um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como faixa-bônus foi muito bem entregue.

A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação, que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente. Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de Halifax ainda podem preparar para o futuro.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Resenha: Pontagulha - Memórias Mortas (EP, 2020)



MEMÓRIAS MORTAS - PONTAGULHA (EP, independente, 2020)

Tracklist:
01. Dimensão
02. Memórias Mortas
03. Ruínas
04. Noites Urbanas

Line-up (gravação):
Lucas Caducco - vocais, guitarras, contrabaixo
Gabriel Vieira - sintetizadores, programação

Line-up (atual):
Lucas Caducco - vocais, guitarras
Jocélio Freitas - guitarras
Guilherme Santos - contrabaixo



Texto: Bruno Rocha

O fato de que a música obscura chega até os mais longínquos ou interioranos rincões deste país pode surpreender quem não acompanha a movimentação desta vertente musical de perto, mas não é novidade para quem a devora com afinco. De Uruburetama, cidade cearense que dista 114 Km da capital Fortaleza, vem a banda Pontagulha, que estreou recentemente com o EP Memórias Mortas trazendo quatro faixas que demostram muito conhecimento de causa em uma musicalidade que mescla elementos do Darkwave e do Coldwave.


Formado por Lucas Caducco (vocais, guitarras, Casebre Alternativo) em 2017, a banda é composta também por Guilherme Santos (contrabaixo) e por Jocélio Freitas (guitarras). Seu nome teve uma origem curiosa e tocante: Lucas afirma que sonhou com sua avó após o falecimento da mesma em 2019. No sonho, ela dizia que o nome da banda deveria ser “Pontagulha” e que, a partir disso, portas seriam abertas para o projeto. Apesar de a formação ser o trio citado no começo deste parágrafo, o EP foi gravado sozinho por Lucas com seus próprios equipamentos em Uruburetama, assumindo também o contrabaixo. O produtor paulista Gabriel Vieira se disponibilizou para masterizar o trabalho e também para registrar os sintetizadores e as programações.

O EP se inicia com Dimensão, música que entrega a tônica que o EP seguirá dali em diante: melodias simples, soturnas e bastante eficientes no sentido de captar a atenção do ouvinte, levando-o a introspecção. Um generoso reverb foi adicionado para aumentar a sensação nebulosa que a música perpassa. Lucas aposta em vocais barítonos na faixa seguinte, a que dá nome ao EP, cujos arranjos casam bem com as letras que falam de solidão. É possível imaginar-se caminhando solitariamente no Centro de Uruburetama tarde da noite, contemplando o céu escuro e nevoento, sentindo frio e onde a única companhia são as luzes dos postes.

Para este escriba, o maior destaque do EP é a faixa de nº 3, Ruínas. Começando com um ritmo lento que destaca os bumbos da bateria programada, esta composição traz consigo novamente uma carga soturna, a qual se apresenta mais forte ainda do que na faixa de abertura graças às simples, mas negras, melodias de guitarra. É como se os americanos do French Police se encontrassem com os fortalezenses do Plastique Noir. O clímax próximo ao seu final é estonteante e poderia ter sido mais impactante ainda se um fade-out não esvaísse a música tão logo. O EP se encerra com Noites Urbanas, dona de uma atmosfera distinta de suas três antecessoras, mais cinzenta e nublada. Entretanto, inconscientemente ou não, esta música mais parece uma versão desacelerada de Rituel, do She Past Away.

Algo que precisa ser revisto pela banda é a forte dose de reverb que é dedicada especialmente aos vocais. Quando Caducco resolve lançar mão de linhas vocais mais graves, o reverb esconde tanto a performance de canto que entender as letras se torna uma tarefa complicada para um ouvido mais incauto, como se pode notar em Dimensão e em Noites Urbanas. Afora este detalhe, a produção e a mixagem dosaram na medida certa cada instrumento, deixando tudo bastante nítido aos ouvidos de quem ousa penetrar na musicalidade fria, mas convidativa, do Pontagulha. Os sintetizadores são discretos e tão somente têm a missão de reforçar o clima das composições, deixando as guitarras em posição de destaque para derramar suas melodias.

Musicalmente, o Pontagulha está no caminho certo e deixa uma boa impressão com Memórias Mortas. Esta impressão se converte em ansiedade quando paramos para imaginar o que a banda pode nos mostrar no futuro em termos de novas composições. De qualquer forma, o Pontagulha já se mostra como uma ótima alternativa para quem busca uma sonoridade Darkwave mais simples e introspectiva, mas que não deixa de lado os toques sombrios e a atmosfera fria.


sábado, 4 de abril de 2020

Resenha: These Dark Trails - Epiphany (EP, 2020)



EPIPHANY - THESE DARK TRAILS (EP, independente, 2020)

Tracklist:
01. Elixir
02. By Actions And Concepts
03. Almost
04. Void
05. Denial

Line-up:
Bruno Cassoni - todos os instrumentos


Texto: Bruno Rocha

These Dark Trails é um novo projeto capitaneado pelo músico Bruno Cassoni, que possui em seu currículo trabalhos com as bandas Songs of Oblivion, da qual é guitarrista, Feralia, Neon, HELP e Gray Souvenirs. O músico resolveu desafiar a si mesmo criando este projeto onde ele é o único integrante, praticando assim o conhecido formato “one-man band”.

A proposta do These Dark Trails é tocar um Black Metal na linha mais depressiva do estilo, como ensinado pelo Burzum e pelo Strid ainda nos anos 90, com letras que tratam das visões do autor sobre a vida e sobre os seus sentimentos. Junto a essas óbvias influências, o Black Metal do These Dark Trails também deixa transparecer momentos que nos remetem ao Post Black Metal e mesmo ao Blackgaze, muito embora o estilo preconizado pelo Alcest não emerja tanto em meio aos arranjos criados e tocados unicamente por Bruno.

O projeto fez sua estreia recentemente com o EP Epiphany, que é composto por cinco faixas que completam confortáveis 18 minutos de duração, o que é perfeito para se ouvir e absorver em meio ao frenético cotidiano da atualidade (considerando-se a normalidade afora a era Covid-19). O These Dark Trails mostra o seu cartão de visitas com Elixir, onde uma levada soturna conduzida por uma guitarra limpa e vocais limpos distorcidos são sucedidos por um momento mais pesado e perturbador. By Actions And Concepts dá continuidade ao trabalho na mesma pegada, mas incluindo em sua metade uma passagem com sons estranhos, quase industriais.

Almost é instrumental e serve para descansar o ouvinte da forte melancolia erguida pelas duas faixas anteriores; para tanto, teclados com timbres etéreos, acordes na guitarra em chorus e até mesmo um solo servem para este propósito. Void traz consigo guitarras de timbre bastante distorcido misturadas a outra com timbre limpo, criando assim uma atmosfera ao mesmo tempo asfixiante e confortável. Ponto aqui para o ótimo trabalho de mixagem feito pelo próprio Bruno em seu home-studio, batizado de Obscure Room. Um riff Doom Metal surge em Denial, faixa que encerra os trabalhos com uma forte e inclemente carga maligna.

Cabe repetir algo que já foi dito aqui por conta de sua importância: o trabalho de mixagem feito por Bruno é digno de ser tirado chapéu. Não é fácil misturar timbres limpos e distorcidos de guitarras em um mesmo arranjo e deixar ambos bem audíveis, sem que um invada demasiadamente o espaço do outro. São detalhes como esses, além é claro do talento do músico em criar músicas dentro do estilo proposto, que podem levar o These Dark Trails a ser um dos principais representantes do Depressive Black Metal no Brasil daqui há um tempo. O projeto não traz nada novo dentro do estilo, mas as músicas por ele criadas são honestas, sinceras e muito bem trabalhadas. Isso já conta bastante ponto para uma nova banda que queira se destacar. O EP Epiphany foi um ótimo primeiro passo para se alcançar este objetivo, caso assim Bruno o queira.

sábado, 28 de março de 2020

Resenha: Noturna Régia - Sobre Anjos & Outros Contos (2019)



SOBRE ANJOS & OUTROS CONTOS - NOTURNA RÉGIA (independente, 2019)

Tracklist:
01. Licantropo
02. Isabel
03. Medusa
04. Anjos Caídos
05. Artemísia
06. Carne Trêmula
07. Sonhos & Pesadelos
08. Klaustrofobia
09. Valquíria

Line-up (álbum):
Daniel D.vill - vocais
Rodolfo Tietre - guitarras, vocais de apoio
Valdênio Solfieri - guitarras, vocais de apoio
Thiago Macedo - contrabaixo
Miss Phantom II - drum machine

Line-up (atual):
Daniel D.vill - vocais
Rodolfo Tietre - guitarras, vocais de apoio
Alexandre Castelo Branco - contrabaixo
Miss Phantom II - drum machine


Texto: Bruno Rocha

Rumores reportados de Campina Grande deram conta de uma reunião numerosa e agitada em um ponto afastado do Parque Louzeiro, região de mata da cidade. Não, não era dia de jogo entre Treze e Campinense (dois times que sempre me trazem boas lembranças, pois meu Ferroviário derrotou ambos nas fases finais da Série D de 2018). Muito menos, essa reunião não era de pessoas comuns. Era uma congregação de seres sobrenaturais que se regozijavam naquele local que, naquele momento, só pertencia a eles. Haviam lobisomens, vampiros, seres que mais se assemelhavam a anjos caídos e valquírias. Entre todos eles, um ser em especial se destacava. A lendária mulher dos cabelos de serpente, aquela a qual fora violada por Poseidon e amaldiçoada por Atena milhares de anos atrás.

Cada ser tinha sua própria história antes de chegarem a esta reunião. Contos de amor, de sedução e, acima de tudo, de desgraças sofridas, eram pontos em comum entre cada uma de suas vidas conturbadas. Animava aquela distinta tertúlia um grupo de quatro músicos locais, especialistas em seres sobrenaturais que fizeram por onde conquistar a confiança daquelas entidades. Esses músicos e poetas atendiam pelo nome Noturna Régia. Seu álbum mais recente, Sobre Anjos & Outros Contos, traz músicas cujas letras contam as histórias daquelas malditas criaturas.

Este é o primeiro álbum de estúdio do grupo paraibano de Rock Gótico formado atualmente por Daniel D.vill (vocais), Rodolfo Tietre (guitarras, vocais de apoio), Alexandre Castelo Branco (contrabaixo) e a Miss Phantom II, que nada mais é do que a drum machine usada pelo grupo, uma parente distante do Dr. Avalanche, a drum machine do The Sisters Of Mercy. À época da gravação, a banda ainda contava com Daniel e Rodolfo da formação atual, mais Valdênio Solfieri nas guitarras e Thiago Macedo no contrabaixo. O Noturna Régia foi fundado em 2011 e é atualmente uma das forças proeminentes do cenário gótico de Campina Grande, cidade que possui uma das cenas mais movimentadas do país dentro da cultura Dark. Sobre Anjos & Outros Contos representou o ápice da história da banda em termos de lançamentos, tendo em vista que o grupo havia lançado antes a demo Noturna Régia (2012) e o EP Artemísia (2016).  O full-length foi produzido, mixado e masterizado por Cristiano Costa, reconhecido produtor e músico da cidade de Campina Grande e do estado da Paraíba.

O ritual descrito brevemente nos primeiros parágrafos deste texto tem início em Licantropo, uma música que traz uma batida percussiva em sua bateria e guitarras não menos sincopadas, lado esse reforçado pelo timbre pesado e pelas palhetadas abafadas. Daniel canta com uma letra bastante inspirada e com um vernáculo riquíssimo (uma tônica em todo o álbum) sobre os dilemas e as ações dos lobisomens. Isabel, a personagem da próxima música, é uma vampira insaciável que não se intimida até mesmo diante de crucifixos e de estacas. Depois da metade da música, a banda cria um espaço que instiga o ouvinte para cantar junto o grudento refrão. Os timbres das guitarras nesta música e o andamento lembraram a este escriba o álbum Affects, da banda cearense Plastique Noir. É quase possível ouvir em sua mente a voz de Airton S. cantando o refrão junto a Daniel D.vill.

Por falar em refrão grudento, se prepare, pois os “cabelos de serpente” da Medusa, aquela que petrifica aqueles que ousam encará-la, ficarão impregnados na sua cabeça. A música que carrega no título o nome da górgona mais famosa é um dos grandes destaques do álbum graças ao seu clima sombrio (reforçado pela escala de Fá Sustenido Menor, uma das mais soturnas para os ouvidos deste que vos escreve), que remete este redator a uma cabana isolada sob um temporal à noite, a letra e as melodias vocais. Anjos Caídos traz uma atmosfera mais calma, mas não menos soturna. Destaque aqui para os solos de guitarra em cada música, sempre bem encaixadas e criadas.


Um dos grandes destaques do álbum surge agora com Artemísia, uma peça de quase oito minutos de puro êxtase sentimental, uma das melhores composições góticas dos últimos anos. Seus arranjos reverberados e os strings convidam o ouvinte a adentrar numa atmosfera etérea e inebriante, como uma neblina densa em alguma clareira no outono. Aqui mais uma vez Daniel usa o recurso de subir uma oitava em seu tom de voz próximo ao fim da música, recurso esse que enseja um clímax à canção, como um ser que atinge o nirvana. Daniel é dono de graves bem cantados e de barítonos marcantes. O sonho se encerra quando começa a ameaçadora e pesada Carne Trêmula, com destaque para o trecho quando o tom da música sobe acompanhado por um teclado em chorus, como que escurecendo a paisagem já desolada da música, e a bateria se torna mais frenética.

A princípio senti pena da música Sonhos & Pesadelos, pois ela, com sua pegada sentimental (como uma Artemísia acelerada) foi ensanduichada por duas das músicas mais pesadas do álbum, a já citada Carne Trêmula e Klaustrofobia, esta um verdadeiro Metal Industrial daqueles ensinados pela Neue Deutsche Hërte alemã, e que conta inclusive com berros guturais. Entretanto, muito embora a letra de Klaustrofobia faça menção a sufocamento e agonia, Sonhos & Pesadelos tem seu valor, tal qual uma flor que brota solitária e imponente entre massivos rochedos. O álbum se encerra com a belíssima Valquíria, que com seu andamento lento e calmo, conduz o ouvinte por uma viagem eterna por mares pacíficos rumo à eternidade, ou para onde os seus mais recônditos pensamentos queiram que você vá.

A produção de Cristiano Costa deixou todos os instrumentos bem equalizados e nítidos aos ouvidos, sabendo domar com perícia os mais diversos timbres e efeitos usados nas guitarras, impedindo que elas duelassem com os vocais. Após as gravações do álbum, o guitarrista Valdênio Solfieri e o baixista Thiago Macedo deixaram o Noturna Régia. Porém, suas contribuições às músicas e a história da banda não foram renegadas pelos integrantes permanentes. É tanto que magnífica arte de capa do álbum traz dois ômegas entrelaçados, representando os agora ex-integrantes.

Esta foi a trilha sonora que embalou a tertúlia sobrenatural nas matas de Campina Grande em uma noite indeterminada. A Medusa dos Cabelos de Serpente voltou aos seus domínios subterrâneos, os anjos caídos continuaram a vagar sem rumo pela noite fria, escoltados pelos seres licantropos movidos pela sedutora lua cheia. A vampira Isabel persistiu em sua busca incessante por vítimas para saciar o insaciável enquanto as valquírias retornaram a nórdica Valhalla. Já os músicos do Noturna Régia, estes continuam a animar as festas de sua cidade e de seu estado. Que estes continuem transbordando seu exímio talento músico/poético em prol da música gótica, como uma serpente que deixa escapar o excesso de veneno por suas presas, e que continuem a nos embalar com as histórias de seus amigos mitológicos.

Ou será que eles próprios são os lobisomens?



quarta-feira, 18 de março de 2020

Resenha: As Dramatic Homage - Praxis (single, 2020)




PRAXIS - AS DRAMATIC HOMAGE (independente, 2020)

Tracklist:
01. ISRS
02. Praxis

Line-up:
Alexandre Pontes - vocais, violões, programação
Leonardo Silva - teclado
Pedro Ramos - violão

Participação:
Alexandre Carneiro - guitarra em Praxis



Texto: Bruno Rocha

Os cariocas do As Dramatic Homage estão de volta após dois anos com um novo single, Praxis. Musicalmente, este single está conectado ao anterior, Consternation (2018), como Praxis fosse uma continuação, ou um epílogo, de Consternation, tendo em vista que o novo single possui uma abordagem completamente introspectiva, quase que desprovida de distorções e até mesmo de bateria.

Quando a banda surgiu, em 1999, a proposta de Alexandre Pontes (vocais, guitarras, programação) e companhia era de praticar um misto de Black e Doom Metal, algo que foi se tornando mais complexo e variado com o passar dos anos até atingir um nível que os classifica hoje como um ato de Metal Progressivo, apesar de elementos de Metal extremo, notadamente de Doom, terem sido retidos. Esta evolução musical foi necessária a fim de acompanhar e emoldurar com precisão os questionamentos filosóficos e existenciais presentes nas letras. Os arranjos mais ricos e introspectivos servem como um canal para que os pensamentos sejam absorvidos com maior facilidade; junto a eles, as passagens pesadas e mais velozes servem para nos lembrar que a banda toca, em sua essência pétrea, Heavy Metal.

Porém, Praxis surge despido de quaisquer elementos musicais de peso ou de distorções. As duas faixas que compõem o single são acústicas e com acompanhamento somente de teclados tímidos, mas pontuais. ISRS, a faixa instrumental que abre os trabalhos, traz um clima melancólico em sua levada de violão e no timbre do teclado que o acompanha que fazem jus ao significado de seu título (Inibidor Seletivo de Recaptação de Serotonina). Para quem não conhece, “serotonina” é um neuro-transmissor que, dentre outras funções, possui atividades relacionadas à regulação do humor. O déficit de serotonina no organismo é um facilitador de desenvolvimento de doenças como a depressão.

A faixa-título traz em sua letra o conceito de “práxis”, usado em diversos campos do conhecimento para definir a sequência entre finalidades teóricas e os resultados práticos. Dentro da proposta filosófica do As Dramatic Homage, o “práxis” é tratado como um estimulante para que as pessoas saiam de seu comodismo e passem a agir para que novos e satisfatórios resultados aconteçam em suas vidas. Musicalmente, a música me parece um encontro do 40 Watt Sun com alguma banda Prog setentista, dado o andamento sofrido criado pelos violões que contrastam com a beleza calmante do refrão. Uma distorção na verdade aparece, em um curto solo de guitarra na metade, tocado pelo músico convidado Alexandre Carreiro, antes que um trecho bastante lento no violão acompanhe um teclado de timbre lúgubre. A interpretação de Alexandre Pontes nos vocais é tocante e correta, somente com a ressalva de que ele poderia se aprimorar ainda mais na pronúncia do inglês. Mas isto é algo que só importará a quem é fluente na língua, pois a interpretação do cantor e a música em si falam conseguem falar ao interior do ouvinte sem a obrigação de usar como vetor um idioma específico.

Praxis foi gravado no HCS Estúdio, no Rio de Janeiro, e teve produção do próprio Alexandre Pontes, que soube dosar com clareza e inteligência a participação de cada um dos instrumentos nas músicas de modo a transmitir com clareza ao ouvinte a mensagem das mesmas. Para ilustrar com tamanha precisão a mensagem que Praxis transmite, o artista Gustavo Sazes elaborou uma arte capaz de simplesmente congelar aquele que o contempla.

Com Praxis, o As Dramatic Homage mostra mais uma vez que é uma banda importante e diferenciada dentro do cenário nacional. Sem medo de tentar e, principalmente, de ousar, a banda nos apresenta métodos criativos não somente dentro de arranjos ou de harmonias, como também em suas letras que instigam o ouvinte a pensar e a refletir. Praxis é mais uma peça do complexo e inquieto quebra-cabeça do As Dramatic Homage. Um quebra-cabeça que, verdadeiramente, não se acaba. Ele se estende até onde a imaginação alcança, e a imagem que ele cria não segue necessariamente um padrão, mas obedece à intepretação sonora e plástica daquele que o monta.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Resenha: Suum - Cryptomass (2020)


CRYPTOMASS - SUUM (Seeing Red Records, 2020)

Tracklist:
01. Cryptomass
02. The Silence Of Agony
03. Creatures From The Vault
04. Funeral Circle
05. Burial At Night
06. The Failure Of Creation
07. Mass In The Catacomb
08. Claws Of Evil
09. Reaper Looks In Yours Eyes

Line-up:
Mark Wolf - vocais
Painkiller - guitarras
Joe Grave - contrabaixo
Fed Kemper - bateria


Texto: Bruno Rocha


O Doomzão clássico habita nas catacumbas e é lá onde ele expressa de forma pungente sua essência soturna e pesada. Tal qual uma criatura abissal que nunca conheceu a luz, ele necessita se cercar da escuridão para se desenvolver. O Doom clássico não é uma criatura arredia, mas não espere que ele saia de seu habitat para encontrar você – é você quem precisa descer às catacumbas para encontrá-lo; isto é, se assim você desejar. Por isso o Doom Metal não é para qualquer um.

Esta é a sensação que percebemos quando ouvimos a banda Suum, de Catanzaro, na Calábria italiana. O quarteto formado por Mark Wolf (vocais), Painkiller (guitarras), Joe Grave (contrabaixo) e Fed Kemper (bateria) acaba de lançar o seu segundo álbum de estúdio, Cryptomass, via Seeing Red Records. Em relação ao debut, Buried Into The Grave (2018), a maior mudança ficou por conta das estreias de Joe Grave e Fed Kemper na cozinha, pois a proposta musical se mantém a mesma: Doom Metal clássico, pesado, imponente, grandioso e mortal. Riffs criativos se juntam a bases esmagadoras e vocais expressivos onde elementos tanto do Doom épico ensinado pelo Candlemass quanto do Doom arrastado do Reverend Bizarre se misturam ao DNA típico do Metal italiano, produzindo um som com identidade e ao mesmo tempo com essência notória.

A sensação de estar ouvindo a música do Suum de dentro de uma caverna, ou de uma cripta, é altamente perceptível. E esta sensação provem não somente da belíssima e perturbadora arte de capa de autoria do próprio guitarrista Painkiller. Os riffs iniciais da faixa-título, que dá início aos trabalhos, vêm fortemente besuntados em reverb e echo, elementos que também são aproveitados fortemente nos timbres da bateria (em especial no bumbo) e nos vocais de Mark Wolf quando este se apresenta, potencializando sua performance altamente interpretativa como de quem conduz uma missa macabra. Ao final desta faixa, guitarras limpas se metem em meio as bases pesadas criando um final épico e doloroso. A proposta da faixa-título segue intacta em The Silence Of Agony, que já havia sido disponibilizada antes em formato de single. Em sua metade a música descamba para um ritmo mais rápido e as guitarras usam todo o poder de suas afinações baixar para destruir o Universo sob o comando de gritos guturais de Mark Wolf.

Creatures From The Vault vem num ritmo mais animado e groovado. As guitarras e o baixo são tão pesados que passam a impressão de que estão formando uma muralha fortificada e tão gigantesca que nem os judeus conseguiriam derrubar como derrubaram a de Jericó. O ritmo volta a ficar lento em Funeral Circle que, fazendo jus ao seu título, remete o ouvinte a uma colossal marcha fúnebre. A andamento e as linhas vocais de Wolf remetem imediatamente a banda norueguesa Fallen nesta faixa em particular. Após a marcha fúnebre, vem finalmente o enterro com Burial At Night, dona do refrão mais cabuloso de todo o álbum. O riff de The Failure Of Creation deixa claro para quem quiser ouvir que o baixo de Joe Grave está engordurado de distorção, o que reforça mais ainda o peso da seção de cordas do álbum. Hora de se sentar e de contemplar uma certa mansidão com Mass In The Catacomb, tocada toda com dedilhado na guitarra e com um som de chuva ao fundo.

Após o descanso, se prepare para ser massacrado novamente pelas duas últimas faixas. Claws Of Evil possui um riff asfixiante puxado por Painkiller e nos remete ao Candlemass antigo. O baixo de Joe Grave se revela líder novamente na parte mais enigmática do meio antes que um fade-out leve embora toda a maldição perpetrada por esta música. O álbum se encerra de forma magnânima e imponente com Reaper Looks In Your Eyes, dotada de várias mudanças de andamentos e uma seção maravilhosa ao final onde o monstro sai das cavernas para contemplar o pôr-do-sol escarlate e para sentir uma brisa fria no topo de alguma montanha próximo ao Mediterrâneo.

Daniele Perticalori foi o responsável por toda a parte técnica das gravações de Cryptomass e seu trabalho por trás dos botões foi essencial para a música do Suum, pois ele soube dosar as toneladas de efeito como distorções, reverbs e chorus em todos os instrumentos sem que nada soasse incompreensível ou embolado. A sujeira carregada é uma característica do Doom de Catanzaro e o modo que ela foi impregnada nas composições reforçou a repugnância do monstro que habita nas cavernas de lá. Ou seja, aquilo que mais atrai o fã de Doom.

Pouco após a conclusão das gravações do álbum, Mark Wolf deixou o posto de vocalista do Suum, cedendo a ingrata missão de substituí-lo a Misantrophil, que terá a missão de celebrar as missas negras com a mesma eloquência de seu antecessor daqui em diante. Mas Mark não deixou a banda sem um feito expressivo: o Suum manteve o alto nível apresentado no debut Buried Into The Grave e posiciona Cryptomass como sério candidato a figurar entre os melhores álbuns do estilo em 2020. Afinal, cravo ainda em fevereiro que será bastante complicado surgirem dez álbuns tão pesados, asfixiantes, agourentos e “casca-grossa” quanto este lançamento. Ouvir Cryptomass em sua plenitude é como se sentir esmagado por uma procissão macabra e gigantesca, que te carrega para as profundezas da escuridão, onde somente os mais soturnos morcegos habitam e cujo odor repugnante de suas ureias se misturam aos dos incensos jorrados por velas negras. É lá onde habita o Doom clássico. É lá onde habita o Suum. É lá onde ele deve viver para sempre.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Electro Bromance: grupo lança novo single “Breaking Chains” com remixagens de Ash Code e de Code: Red Core


Anunciado em dezembro de 2019, o novo single Breaking Chains, dos paraibanos do Electro Bromance, gerou ansiedade entre os fãs do grupo e do estilo não só por ser uma nova composição do duo (que já vinha sendo apresentado ao vivo, diga-se de passagem,), mas também por trazer como bônus remixagens dos italianos do Ash Code e do projeto paulista Code: Red Core.

Finalmente, as ansiedades foram saciadas. O duo formado por Wilame AC (vocais, sintetizadores, programação) e Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores, programação, vocais) lançou hoje no Bandcamp seu novo single e o que se escuta nele é um Electro Bromance bastante sombrio. Com influências do próprio Ash Code, ou mesmo de Plastique Noir, como se os cearenses tentassem soar “eletrificados”, Breaking Chains nos leva a caminhar em meio a becos úmidos de alguma metrópole durante a madrugada. Isso graças a sua base estonteante que mais aprece uma onda e os arranjos melódicos muito bem compostos e encaixados na composição, tudo criado em cima da sombria escala de Ré Sustenido Menor. Todavia, a identidade do Electro Bromance se mantém intacta com seu Synth/Darkwave elétrico e os vocais característicos de Wilame AC.


Além da versão original, o single traz as remixagens feitas pelo Code: Red Core e pelo Ash Code. O projeto paulista de Rodrigo Albuquerque (que também foi o responsável pela bela arte de capa do single) tratou de dar a música um toque mais Industrial e Trance, enquanto os renomados italianos estamparam sua marca em Breaking Chains com timbres retrôs na programação, novos arranjos de sintetizadores e graves pulsantes, embebidos em flanger.

Confira no player abaixo o single Breaking Chains:

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Resenha: The Frozen Autumn - The Fellow Traveller (2017)




THE FELLOW TRAVELLER – THE FROZEN AUTUMN (Echozone, 2017)

Tracklist:

01. Tomorrow’s Life
02. White On White
03. We’ll Fly Away (long version)
04. Told You At Once
05. Your Touch
06. A Gentle Flame
07. Grey Metal Wings
08. Sirens And Stargazers
09. The Twin Planet
10. I Love You But I’ve Chosen Synthesizers
11. Loving The Alien (David Bowie cover)

Line-up:
Diego Merletto – vocais, sintetizadores
Froxeanne – vocais, sintetizadores


Texto: Bruno Rocha


Prepare-se! Uma frente fria está vindo da região de Turim, na Itália. Mas ela não é uma frente fria qualquer, que traz chuvas ou mesmo leves geadas. Essa frente fria é uma verdadeira onda congelante, sob a qual nem mesmo o próprio ar escapa incólume, passando por um processo de sublimação, acabando por solidificar-se. Fora estes efeitos, a onda congelante de Turim obscurece luzes, tornado o ambiente escuro; os poucos e corajosos fachos de luzes que ousam resistir são como as auroras boreais que rasgam os céus nórdicos, criando assim um espaço, ao mesmo tempo escuro e frio, agradável e etéreo.

O grupo italiano The Frozen Autumn possui considerável respeito dentro do cenário Gothic/Darkwave mundo afora graças ao seu estilo bastante pessoal que mescla elementos de música atmosférica e de Synthpop, num estilo que seus próprios integrantes batizaram de “Frozenwave”.  Fundado em 1993 por Diego Merletto, o The Frozen Autumn mostrou em seus primeiros trabalhos um som ainda com um pé no Gothic Rock (na época a banda contava com os serviços de Claudio Brosio nas guitarras) e com fortes influências de Clan Of Xymox, porém já havia ali elementos de sonoridade característica que se tornaria consagrada anos depois. Os dois primeiros álbuns do The Frozen Autumn, Pale Awakening (1995) e Fragments Of Memories (1997), se tornariam clássicos do Darkwave, trazendo consigo faixas atmosféricas e sorumbáticas recheadas com teclados que criam climas ora melancólicos, ora confortantes. Os elementos Synthpop já existiam, mas eram poucos e retraídos. A parceria de Merletto com Arianna Vespasiano teve início com uma participação especial da cantora na faixa-título de Fragments Of Memories, naquilo que foi um motivador para um projeto paralelo dos dois músicos chamado Static Movement. O único álbum lançado por esse projeto, Visionary Landscapes (1999), foi de suma importância para uma leve mudança no direcionamento musical do próprio The Frozen Autumn, que deixou de lado qualquer contribuição de guitarras e tornou seu som 100% eletrônico, fabricado a base de sintetizadores e com maior proeminência das influências Synthpop.

Arianna, que atende pelo pseudônimo Froxeanne, foi efetivada no The Frozen Autumn e a agora dupla grava o importante Emotional Screening Device (2002) e a perfeição chamada Is Anybody There? (2005). As guitarras voltam a se fazer presentes no bom álbum Chirality (2010) e no DVD Seen From Under Ice (2011), que foi gravada em quarteto com a adição de mais um tecladista e de um guitarrista, o que permitiu que algumas músicas de todos os álbuns ganhassem novos arranjos. Após alguns anos sem novos lançamentos, o The Frozen Autumn volta novamente como a dupla Merletto/Froxeanne no lançamento do EP Lie In Wait (2014), que serviu como uma prévia para o sexto álbum de estúdio do grupo, The Fellow Traveller, lançado em 2017 pela gravadora Echozone e que é o objeto de análise deste artigo.

The Fellow Traveller é um álbum empolgante e viciante do começo ao fim. Diferentemente de todos os álbuns anteriores, este álbum é completamente moldado em cima do Synthpop. Não há nenhuma música atmosférica ao estilo de Onyria (Pale Awakening, 1995), ou mesmo faixas introspectivas e de ritmo lento aos moldes de Evening Falls (Is Anybody There?, 2004). Claro que há momentos em que a dupla põe o pé no freio, mas na maior parte do tempo o ritmo é frenético e dançante. Outra diferença de The Fellow Traveller é na mixagem do som, que é bem mais limpo e cristalino que nos álbuns anteriores. Felizmente, a falta de uma mixagem mais abafada e empoeirada não tirou o clima nostálgico das composições, que por si só conseguem manter a chama (ou o gelo) típica dos anos 80 viva e forte. Como se isso tudo não bastasse, The Fellow Traveller é o álbum mais democrático da história da dupla. Diego Merletto e Froxeanne se alternam cantando em cada faixa, seis para ele e cinco para ela, quebrando assim uma tradição que fazia Merletto cantar a maioria das faixas em todos os outros álbuns.

As quatro primeiras faixas matam bem a sede dos fãs do grupo sedentos por música dançante. Os trabalhos já começam lá em cima com Tomorrow’s Life, onde Diego Merletto canta com sua inconfundível voz grave cheia de reverbs e ecos. As próximas duas músicas foram reaproveitadas do EP Lie In Wait e melhoradas. A coisa dá uma acalmada em White On White, que é a única música do álbum que se destaca por ser bem mais introspectiva, apesar da proeminência da bateria eletrônica. É a vez de Froxeanne cantar e ela entrega o que se espera dela: uma voz belíssima e angelical, com abençoados graves, que hipnotiza o ouvinte e o transporta para flutuar em nuvens de granizo. Gaivotas e ondas anunciam o começo de We’ll Fly Away e seu ritmo dançante e libertador. Com seu refrão belíssimo, Merletto fala sobre voar para sempre em busca da felicidade, assim como as gaivotas voam eternamente por sobre os mares. E parece que a chegada deste longo voo é na faixa 4, Told You At Once. Um apocalipse sonoro protagonizado por Froxeanne, uma perfeição para as pistas góticas de dança por seu ritmo acelerado, melodias destacadas e bases pesadas.



Após quatro músicas frenéticas, é hora de aproveitar mais uma viagem guiada por Diego Merletto em Your Touch, mais uma que foi reaproveitada do último EP. Escura como um pôr-do-sol contemplada no inverno das montanhas de Turim, Your Touch traz de volta as antigas forças Darkwave de álbuns anteriores, incluindo até mesmo uma guitarra, desta vez aliadas as poderosas camas de sintetizadores e de bateria eletrônica. Por falar neste último elemento, nunca as viradas e recursos de bateria foram tão usadas num álbum do The Frozen Autumn. A próxima faixa, A Gentle Flame, não possui a mesma imponência de arranjos como as demais, até porque ela carrega um tom sisudo “kraftwerkiano”. Todavia ela não passa despercebida, pois não existe nada que passe desapercebido se Froxeanne impôs nela seu divinal dom de interpretação. A tradição de músicas longas e viajadas é mantida com a excelente e variada Grey Metal Wings, que é como se fosse uma irmã FuturePop de Is Everything Real?, do Emotional Screening Device, e de Static Cold, de Is Anybody There?.

Aqui, cabe mais um comentário acerca das novidades trazidas em The Fellow Traveller. Os efeitos nos vocais de Merletto e de Froxeanne se multiplicaram. Os tradicionais e obrigatórios reverbs continuam presentes, lógico. Mas os delays estão mais destacados e facilmente perceptíveis, principalmente nos vocais de Froxeanne. Também, as harmonias vocais nunca foram tão trabalhadas, especialmente nos vocais de Diego Merletto. É como se você pudesse ouvir vários Diegos formando um coral em muitos momentos do álbum. A verdade é que essa variedade de efeitos não faria sentido algum se as próprias vozes dos dois cantores não fossem belas e diferenciadas.

Findada mais uma viagem a bordo de Grey Metal Wings, a simplicidade oitentista retorna em Sirens and Stargazers, que se vai se tornando mais e mais empolgante a medida que avança em seu tempo, atingindo o ápice em um momento onde Froxeanne canta somente com o apoio de um sintetizador grave e nervoso. Em contraponto a simplicidade de Sirens and Stargazers, vem em seguida aquela que talvez seja a mais complexa e progressiva composição da história do grupo italiano, The Twin Planet. Esta faixa traz um elaborado trabalho de arranjos de sintetizadores que são guiados por uma bateria quebrada e cheia de contratempos no caixa. As escalas árabes dos strings, os graves destacados e os vocais cavernosos de Diego Merletto nos conduzem por uma viagem ao cosmos em busca dos planetas gêmeos. O auge da viagem no profundo cosmos é um trecho onde Merletto assobia uma melodia sinistra por cima de imponentes strings, o que faz arrepiar o ouvinte de frio intergaláctico. Sim, a onda congelante do The Frozen Autumn chegou aos confins do Universo!

De volta à Terra, Froxeanne dá uma forte declaração na próxima faixa: eu te amo, mas eu prefiro sintetizadores! Enaltecendo a adoração aos instrumentos eletrônicos de teclas, a faixa que carrega o maravilhoso título de I Love You But I’ve Chosen Synthesizers é um dos grandes destaques de The Fellow Traveller e traz de volta o clima de pista de dança. O álbum se encerra com um cover de Loving The Alien, do eterno David Bowie, muito bem interpretada por Diego Merletto, claro, com seus vocais graves.



The Fellow Traveller pode ser o início de uma nova fase na discografia do The Frozen Autumn. Falo “pode ser”, pois é só o primeiro álbum desta nova sonoridade depois de sete anos sem lançar um novo full-length. O melhor de tudo é que a essência do som do The Frozen Autumn, o Darkwave, permanece lá em seu devido lugar. Mas agora ele está recauchutado e muito bem cuidado com todas as facilidades e opções que os sintetizadores podem oferecer. Há quem talvez tenha sentido falta de pelo menos uma faixa fortemente atmosférica, aos moldes antigos, mas a alternância de músicas fortes e dançantes com outras composições mais calmas sacia a qualquer um que goste das duas facetas da dupla italiana. Também considero um fato extremamente positivo a alternância de vocais entre Merletto e Froxeanne. Apesar de ele ser o fundador do grupo e principal compositor, ela o completa com seus vários recursos que a tornam uma cantora tão talentosa e que não deixa nada a dever às grandes divas Pop de todas as eras. Por sua vez, Merletto não teve em momento algum medo de ousar nas composições de The Fellow Traveller, que são as mais ricas e bem trabalhadas de toda a história do grupo. The Twin Planet que o diga!

Pois bem. A onda congelante veio, fez seus estragos e foi embora. Estragos sob o ponto de vista meteorológico, pois a música do The Frozen Autumn faz justamente o contrário de estragar. Ela eleva a mente do ouvinte e o faz experimentar múltiplas sensações num curto período de tempo. As vozes etéreas de Diego Merletto e de Froxeanne são essenciais para este mundo, bem como a musicalidade do The Frozen Autumn. Se você nunca testemunhou a Tempestade Congelante de Turim, faça-o agora. Congele sua mente nesta onda e mantenha-a fossilizada nela para sempre.

Ah, um estrago de verdade foi feito: no coração da pessoa cuja amada o trocou por sintetizadores.



quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Resenha: Bretus - Aion Tetra (2019)


Aion Tetra - Bretus (Ordo MCM, 2019)

Tracklist:
01. The Third Mystic Eye
02. Priests Of Chaos
03. The Other Side
04. Aion Tetra
05. Deep Space Voodoo
06. Mark Of Evil
07. Cosmic Crow
08. Fields Of Mars
09. City Of Frost

Line-up:
Zagarus - vocais
Gghenes - guitarras
Janos - contrabaixo
Striges - bateria


Texto: Bruno Rocha

Catanzaro é uma cidade que fica ao sul da Itália. Capital da Calábria, Catanzaro é conhecida como “A Cidade dos Dois Mares”, pois seu litoral à sudeste é banhado pelo Mar Jônico e de seus pontos mais altos pode-se ver o Mar Tirreno, que banha o noroeste da província que carrega também o nome de Catanzaro. Todavia, mesmo em meio a paisagens belíssimas, tingidas pelo azul dos mares e iluminadas pela luz solar que não impede que a temperatura suba tanto, o todo-poderoso Doom Metal consegue sobreviver em seus calabouços e catacumbas de forma pungente. Pois há quase duas décadas o Bretus existe lá como uma das mais fortes representações da música obscura e pesada da Itália.

Fundado no ano 2000 pelo guitarrista Ghenes, o Bretus atualmente é formado, além dele, por Zagarus (vocais, Suum, Land Of Hate), Janos (contrabaixo) e Striges (bateria), todos reunidos com o objetivo de levar em suas letras os contos de horror perpetrados por H.P. Lovecraft e por cineastas do gênero, tendo com trilha sonora o mais puro e clássico Doom Metal, ensinado pelos pioneiros do gênero e harmonizado com elementos de Stoner e de Psicodélico. Tudo isso, lógico, fabricado com o DNA italiano do estilo, o que torna o som das bandas vindas de lá único e reconhecível. No caso específico do Bretus, ouvir seu Doom é como se estivéssemos em uma caverna onde ocorrem cultos aos ocultos, enegrecidos por uma nauseabunda atmosfera onde o vocalista Zagarus invoca os mitos cósmicos Yog-Sothoth e seu guardião, Cthulhu.

Em pouco tempo o Bretus se tornou um dos mais importantes grupos de Doom Metal da Itália graças a boa recepção de seu EP de estreia, autointitulado, e de seu primeiro full-length, In Onirica (2012, Arx Productions), que os levaram a participar de importantes festivais do estilo na Europa, como o Malta Doom Fest e o Doom Over Viena. Os lançamentos de The Shadow Over Innsmouth (2015, BloodRock Records) e de ...From The Twilight Zone (2017, Endless Winter) reforçaram e sacramentaram a posição do Bretus no âmbito do Gênero Maldito em solo italiano. Agora em 2019 está previsto o lançamento do quarto álbum de estúdio do grupo, Aion Tetra, para o dia 27 de setembro pela gravadora Ordo MCM. Todavia, o blog The Atmosphere... recebeu com antecedência este material para análise antes de seu lançamento oficial.

Um baixo ameaçador seguido de um riff poderoso e cadenciado dá início aos trabalhos com The Third Mystic Eye, uma música bastante empolgante e que prende a atenção do ouvinte com suas variações de andamento e de tom para um pesado Ré Sustenido Menor. Uma introdução tocada em órgão pavimenta o caminho para os riffs de Priests Of Chaos, dona de uma cativante melodia com odor setentista em seu refrão. A faixa de nº 3, The Other Side, reúne em si todas as características do Bretus. Com início acelerado, a música passeia por diferentes andamentos (especialmente em compassos ¾) e passagens com timbres limpos embebidos em chorus. A faixa-tútlo ocupa a posição de número 4 e é tão-somente um interlúdio acústico de muita beleza e bom-gosto. Seu tom introspectivo prepara terreno para um dos grandes destaques do disco, a sombria, pesada e viajante faixa de nº 5, Deep Space Voodoo.

Todo o poder de fogo do Doom Metal clássico “sabbathico” volta em Mark Of Evil, outro grande destaque do álbum. Um corvo agourento anuncia Cosmic Crow e sua pegada setentista que aqui se mostra muito forte. Ganhou inclusive um clipe muito bem produzido e condizente com a proposta de horror do grupo. Mais um interlúdio surge em Fields Of Mars. Desta vez vocalizada, a composição se mostra sombria, mas limpa e etérea, criando um contraste com o restante do álbum assim como Cantazaro consegue vislumbrar a vista de dois mares diferentes. O álbum se encerra com a épica City Of Frost, que traz um apurado senso de melodia mais pujante que as músicas anteriores, inclusive lançando mão de guitarras dobradas em sua seção instrumental.

A produção de Aion Tetra deixou a sonoridade do álbum crua e orgânica, mas ao mesmo tempo sem muita sujeira, deixando assim todos os instrumentos nítidos e as músicas com fácil compreensão por parte do ouvinte. A produção também reforçou a característica dramática dos vocais de Zagarus, deixando-os em lugar de destaque sem ofuscar a primorosa parte instrumental. Ao longo de todo play, o guitarrista Ghenes consegue misturar em suas composições todas as suas influências musicais com o fim de criar um som único para o Bretus, usando para isso sua baita criatividade para criar riffs e passagens. A cozinha formada por Janos e Striges é bastante segura e forte, conduzindo com força os andamentos cadenciados e as muitas mudanças de andamento sem deixar a peteca cair. Tudo isso vem ilustrado com uma belíssima arte de capa, que consegue transmitir de forma plástica toda a proposta sonora e lírica do Bretus no álbum.

Para aqueles que apreciam o bom e velho Doom Metal clássico, vale muito a pena conferir o que os doomers de Cantazaro já apresentaram ao mundo e também esperar pelo lançamento oficial de Aion Tetra, em setembro. Não, não tenha medo das criaturas cósmicas enxergadas por Lovecraft. Se o Bretus for de fato o porta-voz daquele panteão, será muito auspicioso ouvir as palavras oriundas do espaço profundo.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Resenha: Solitude Aeturnus - Beyond The Crimson Horizon (1992)



Beyond The Crimson Horizon – Solitude Aeturnus (Roadrunner Records, 1992)

Tracklist:
01. Seeds Of The Desolate
02. Black Castle
03. The Final Sin
04. It Came Upon One Night
05. The Hourglass
06. Beneath The Fading Sun
07. Plague Of Procreation
08. Beyond…

Line-up:
Robert Lowe – vocais
John Perez – guitarras
Edgar Rivera – guitarras
Lyle Steadham – contrabaixo
John Covington – bateria


Texto: Bruno Rocha

Seguindo as trilhas do Epic Doom Metal descobertas pelo Candlemass, diversas bandas surgiram no fim dos anos 80 fazendo o já consolidado Doom Metal, mas num caminho progressivo, dando o tom épico que sugere o nome do gênero.

Em 1987 nascia no Texas a banda Solitude (de onde será que veio esse nome?) que depois de alguns meses mudou seu nome para Solitude Aeturnus, fazendo Doom como Leif Edling ensinou. A estreia da banda com Into The Dephts Of Sorrow, em 1991, fincou o nome do Solitude Aeturnus entre os grandes do gênero lento do Heavy Metal, tornando a banda texana na maior autoridade do Epic Doom Metal ao lado do Candlemass. E o álbum Beyond The Crimson Horizon foi lançado em 1992 para sacramentar tal feito.

Produzido por Danny Brown e lançado pela poderosa gravadora a época Roadrunner, o segundo álbum do Solitude Aeturnus trouxe uma preocupação maior em fazer o grupo soar agressivo. Corroborou para isso a nítida melhoria na qualidade sonora em relação ao debut, que não soa ruim, mas que também não tem uma mixagem que realça as características Metal da banda como peso e agressividade. Cabe citar que John Perez tocava guitarra na banda de Thrash Metal Rotting Corpse nos anos 80 antes de fundar o Solitude inspirado no Candlemass. A veia Thrash do cara ainda pulsava forte!

A abertura com Seeds Of The Desolate deixa bem claro a tônica seguida no restante do álbum. Muito peso nos riffs e bases, mudanças de andamento repentinas, solos de guitarra na linha “shred” por conta de Edgar Rivera e com presença ubíqua de vibratos com alavanca, cortesia do guitarrista fundador John Perez, bateria técnica sob responsabilidade de John Covington e, principalmente, a performance monumental do vocalista Robert Lowe (que anos mais tarde gravou três discos de estúdio com o próprio Candlemass). Sua voz limpa e seu alcance, aliados a melodias calcadas em escalas orientais, surpreendem até mesmo os acostumados a sonoridade da banda.

O disco segue com Black Castle (peso bruto) e The Final Sin, música mais rápida do álbum, onde a banda bota um pezão no Thrash. Depois, com uma introdução soturna de teclado, começa It Came Upon One Night, com um riff Doom daqueles de fazer a Terra tremer, seguido de uma mudança agressiva de andamento.

Outro destaque vem com The Hourglass, com uso e abuso de escalas orientais no fraseado de guitarra e na voz de Lowe. A coisa dá uma leve acalmada com Beneath The Fading Sun, mas depois, o peso e a técnica dos músicos voltam com Plague Of Procreation, que poderia até ser um pouco mais curta se o refrão não fosse repetido a exaustão. Mas esse fato não causa prejuízos a audição do disco, que encerra com a instrumental Beyond…

Todas as músicas foram compostas por Solitude Aeturnus, e todas as letras foram compostas pelo baixista mão-pesada Lyle Steadham, a exceção da faixa 4, cuja letra é de Kristoff Gabehart, ex-vocalista dos tempos que a banda se chamava Solitude.

Até hoje Beyond The Crimson Horizon é considerado por muitos o melhor álbum do Solitude Aeturnus, emparelhado em preferência com o seguinte, o criativo Through the Darkest Hour, de 1994. Após este período, a banda resolveu apostar em menos agressividade e reforçou o lado progressivo. A banda continuou lançando discos fundamentais para o Doom Metal mesmo assim, mas seu segundo trabalho é a prova cabal de que o Doom Metal não precisa ficar preso aos seus clichês, nem sequer impor marcha lenta às suas músicas o tempo todo. Exatamente pelo seu ritmo lento, o compositor criativo pode lançar mão de suas ideias para embelezar e enriquecer os arranjos Doom, coisa que John Perez, principal compositor do Solitude Aeturnus, sempre foi mestre.

Em pouco mais de 43 minutos, a banda do Texas deixa aqui para sempre sua autoridade em fazer Doom Metal técnico, rico em melodia e ao mesmo tempo agressivo, empolgando até quem não é chegado ao estilo. E Robert Lowe sacramenta seu nome como uma das vozes mais poderosas do Heavy Metal. O único detalhe que faço vem exatamente da parte de Lowe, pois ele canta em registros altos quase que o tempo todo, e um ouvido menos apurado poderá inferir que ele está executando a mesma melodia vocal em todas as faixas. Mas isso não tira o brilho deste disco fundamental do Epic Doom Metal, estilo que não vive só de Candlemass.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Resenha: Serpent Rise - Gathered By... (1998, relançamento 2019)



Gathered By... - Serpent Rise (Megahard, 1998, Nuktemeron Productions, relançamento de 2019)

Tracklist:
01. In The Cosmic Sea
02. ...Kharma
03. Mistress Of My Paradise
04. Reflex In The Last Mirror
05. Betrayed God
06. Travelling Free
07. During The Eternity

Line-up:
Agnaldo - vocais
Luiz - guitarras
Júlio - guitarras, bateria
Eder - teclados
Marcelo - contrabaixo


Texto: Bruno Rocha

Um dos pilares do Doom Metal nacional atende pelo nome de Serpent Rise. Apesar dos poucos trabalhos lançados, a grande maioria deles nos anos 90, a criatividade e o pioneirismo do grupo gaúcho renderam-lhe o posto de um dos baluartes do Gênero Maldito em nosso país. Dentre suas principais obras lançadas em seu período fértil, é óbvio que o grande destaque é o full-length Gathered By..., de 1998. E sim! Ele acabou de ganhar um relançamento remasterizado através da Nuktemeron Productions. O relançamento ainda traz como bônus as demos Anastenárides (1994) e Travellin’ Free (1995). Ou seja: temos um pacotão de trabalhos essenciais do Doom Metal nacional em um único lançamento!

Ora, o que a banda apresentou em Gathered By... há 21 anos era uma visão de Doom Metal ainda pouco explorada no país com seus toques atmosféricos, vocais quase sussurrados em meio aos tradicionais guturais, teclados criando ambientações sombrias e alguns elementos de Rock Gótico que aparecem de forma pulverizada. Na época, a banda era formada por Agnaldo nos vocais, Luiz nas guitarras, Marcelo no contrabaixo, Eder nos teclados e Júlio nas guitarras e na bateria. Os timbres pesados e gordurentos das guitarras e do contrabaixo (realçados na remasterização) reforçam fortemente a parede sonora criada e gravada pela banda nas composições da época, tudo isso junto aos teclados muito bem encaixados, bateria reta e segura e a versatilidade vocal de Agnaldo.

O álbum tem início com In The Cosmic Sea, uma típica composição Doom de 10 minutos que traz com força todas as características citadas no parágrafo anterior e que cumpre bem sua missão de começar o álbum de forma bastante empolgante. A faixa seguinte traz em seu título a continuação do nome do álbum, ...Kharma. Iniciada por uma melodia de violão, a faixa segue num ritmo mais lento que sua antecessora e apresenta variações de andamentos, típicos do movimento Death/Doom que emergiu naquela década, lembrando especialmente o Anathema. Mistress Of My Paradise é uma faixa bastante sombria e negra, cujo começo é uma longa introdução que transporta o ouvinte para um escuro e úmido calabouço antes que as guitarras cortantes do Death/Doom entrem cortando tudo sem misericórdia.

Uma dose de Rock Gótico é percebida em Reflex In The Last Mirror, cujo andamento é um pouco mais acelerado e põe o baixo de Marcelo em evidência, temperado com teclados em piano e com um timbre lúgubre de guitarra cheio de chorus e tremolo. Todos esses elementos criam uma atmosfera melancólica e caleidoscópica que crescem rumo ao fim da música em peso e velocidade. O Doomzão mais mortal volta com força e inclemente em Betrayer God, vide o riff que faz a terra tremer carregado por um andamento fúnebre de bateria e teclados que parecem prenunciar o apocalipse. A faixa de nº 6 é a clássica Travelling Free, que faz jus ao seu nome por ser uma verdadeira viagem Doom de 15 minutos que passam voando graças as suas mudanças de andamento e de tom, que dão variedade e colorido (mórbido) a música. O álbum se encerra com During The Eternity, que mais uma vez reforça as influências Death/Doom da época em uma procissão fúnebre e etérea.

Pode-se resumir tudo que este redator analisou em dois pontos:

1º) A banda conseguiu êxito naquilo que se propôs a apresentar em cada faixa. Foi sucinta e direta naquilo que queria mostrar nas músicas mais curtas e foi dinâmica e sortida nas composições mais longas. O grande desafio do compositor de Doom Metal é exatamente compor uma música que prenda o ouvinte em seu longo comprimento, deixando-o ansioso pelo que virá pela frente no que tange a variação de arranjos.

2º) Estamos em 1998. O Serpent Rise não estava só influenciado pelo Death/Doom noventista; o Serpent Rise ERA do Death/Doom noventista. Fazia parte daquele conjunto de bandas que emergiram nos anos 90. Além disso, eles continuaram carregando a pureza do estilo enquanto My Dying Bride sofria de dupla personalidade musical, o Paradise Lost dava uma de Depeche Mode e o Anathema estava em sua metamorfose para se tornar um Pink Floyd “Coldplayzado”. E o melhor de tudo: o Serpent Rise fazia seu Death/Doom com muita identidade. Os elementos atmosféricos e as timbragens gordas dos instrumentos conferiram ao som do grupo uma energia única, perturbadora e bela, dentro dos limites do Doom.

Note que adotei os verbos com conjugação predominantemente pretérita. Mas não há prejuízo de interpretação se você os substituir pelas suas versões no presente. Gathered By... foi relançado e remasterizado. Ou seja, está mais poderoso ainda! Cuide em ouvi-lo e torne-se testemunha no futuro de uma das mais importantes realizações do Doom Metal nacional que aconteceram no passado.

sábado, 29 de junho de 2019

Resenha: O Quarto de Helena - Diário das Noites (2019)


Diário das Noites - O Quarto de Helena (independente, 2019)

Tracklist:
01. Escura Primavera
02. Eram Eles
03. Contos de Solidão
04. Um Caminho Antigo
05. Mariana
06. Luzes

Line-up:
Fabiano Souza - vocais, violão
Anderson Morphis - teclados
Andressa Costa - programações



Texto: Bruno Rocha

Resolvo mais uma vez adentrar n’O Quarto De Helena. Um quarto obscuro e sombrio, úmido e frio. Intimidador por sua opulência tão simplória. Aconchegante por sua atmosfera de dor. Não, não há nada lá. Nem cama, nem criado-mudo. Muito menos abajur. O que encontro n’O Quarto De Helena é tudo aquilo que minha mente cria em sua oficina, inspirada pela atmosfera e pelas provocações do lugar, criando assim reflexos de meus sentimentos e saudades em forma de música. Isso, reflexos. Espelhos. Existem espelhos n’O Quarto De Helena. Você tem coragem de encará-los?

O projeto musical do trio Fabiano Souza (vocais, violão, Última Dança), Anderson Morphis (teclados, Mortiferik, Harmony Hate, etc.) e Andressa Costa (programações) lançou recentemente seu segundo EP, intitulado Diário das Noites, que traz em si mais seis composições que exploram o lado mais soturno do ser humano e que provocam as mais retraídas sensações da mente do ouvinte, como saudade, tristeza e dor. O estilo musical do grupo permanece inalterado em relação à estreia autointitulada, de 2017, promovendo em suas composições um tipo lento e sofrido de Darkwave, com alguma influência Folk, influência essa reforçada pelo violão de Fabiano Souza. Então, aqueles que já conheciam O Quarto de Helena, podem esperar por aquela mesma atmosfera nublada de outrora em Diário das Noites. Esta que serve como alicerces e paredes do Quarto.

A abertura com Escura Primavera é tão negra e sofrida que pega o ouvinte despreparado e o derruba para o canto do Quarto, massacrado pela pressão de sua mente. Tocada na sombria escala de Fá Sustenido Menor, a combinação dos teclados de Morphis (em piano, chorus e strings) e da minimalista bateria programada de Andressa é adornada pelo violão bem encaixado, formado um conjunto que serve de base para que a belíssima e calma voz de Fabiano cante suas dores e saudades de forma pesarosa. Amanhece e chove lá fora do Quarto; é a música Eram Eles, cinza, nublada e atraente, lembrando em sua estrutura de arranjos os grupos de Ethereal Wave como Autumn’s Grey Solace, graças aos timbres atmosféricos escolhidos por Morphis. Ainda na segunda música chego à conclusão que palavras são insuficientes para expressar o quão forte e doloroso é o som do Quarto de Helena. Mas as palavras são as únicas ferramentas que disponho para tão hercúleo trabalho. Sigamos em frente tentando desvendar os segredos do Quarto.

Um pouco menos lenta, lembrando um pouco o Última Dança, é a faixa Contos de Solidão, que ilumina um pouco o Quarto. Esta composição é conduzida por uma guitarra de timbre embebido em flanger e tremolo que mais parece a mente a melancólica mente do ouvinte. Um Caminho Antigo traz algo inédito n’O Quarto de Helena, algo que se aproxima de um riff em seu começo com uma harmonia de violão e teclado. Mais contida, esta última faixa prepara terreno para Mariana, uma composição bela e etérea, que parece conduzir o ouvinte por sonhos de paz em meio a um entardecer escarlate. O EP se encerra com a atmosférica Luzes, minimalista em sua condução percussiva. Praticamente o único elemento harmônico nesta música é o violão e a voz de Fabiano. Falando em morte, Luzes se revela na verdade como aquela que leva em definitivo aquele que ousou entrar no Quarto de Helena, achando que Mariana era apenas um sonho. Prova disso são os choros carpideiros que emergem ao final da faixa.

Aos poucos a música se esvai, deixando somente uma sensação de vazio e tormenta na mente daquele que entrou no Quarto. Um momento de reflexão se abate no recinto ao novamente encarar os espelhos lá posicionados, revelando que na verdade tudo na vida é vaidade, é passageiro. Consegui sair do Quarto e voltar à realidade, mas não da mesma forma que entrei. Sentindo o clima das músicas e meditando nas letras das mesmas, tornou-se claro que a vida é efêmera e passageira. As lembranças marcam como ferro na pele e ardem sem que nos preparemos antes.

O Quarto de Helena é uma entidade musical necessária para o cenário Darkwave pela sua originalidade e ousadia, conseguindo fazer com o minimamente necessário uma música grandiosa e poderosa, capaz de congelar seus pensamentos e evocar os sentimentos ocultos. Diário das Noites é mais um documento que atesta tudo que foi relatado neste diagnóstico musical. Coragem, entre no Quarto, querido leitor! Faz bem, é inebriante. Helena te convida, seja lá aquilo que for a Helena de seus pensamentos.