Texto: Bruno Rocha
O Rouxinol da Tristeza cantava de forma diferente de seus
pares. Enquanto os outros rouxinóis cantavam alegremente e assim também
alegravam aqueles que os ouviam, o rouxinol o qual me refiro cantava sobre suas
dores e sua solidão. Sua música era triste, sua voz, fantasmagórica, sua aparência,
hipnótica. Mas o poder que sua voz tinha era mais forte e atraente que as dos
demais. Sua voz era feitiço, encantava a qualquer um que a ouvisse, tal qual
uma sereia mitológica que enganava e atraia para a morte os fracos navegantes
da época. Aqueles que ousaram ouvir o seu canto estão inebriados até hoje,
mesmo após sua triste partida.
Julia Liane Stanbridge nasceu na África do Sul, mais
precisamente na Cidade do Cabo, no primeiro dia do sétimo mês de 1976. Seus
pais eram de origem britânica e sueca. O trabalho de sua mãe exigia que ela
viajasse constantemente, de modo que sua filha Julia nasceu distante de onde
ela depois tomaria base. Somente no começo dos anos 2000 foi que Julia veio se
fixar definitivamente na Suécia, onde ela iria ficar conhecida pelo seu
trabalho musical. Suas primeiras participações em gravações de estúdio aconteceram
em trabalhos eletrônicos, fazendo participações em álbuns lançados por Krister Linder
e Omnimotion no ano de 2006. Sua primeira empreitada solo foi lançada em 2007,
sob o nome artístico pelo qual ela se tornaria mais conhecida, Aleah.
Suas músicas solo funcionavam movidas unicamente por um
violão, como um Folk tocado na beira de um pequeno lago, dentro de uma floresta
nublada e úmida. Sua voz já trazia suas principais características: embebida em
reverb, o Rouxinol cantava suavemente e de forma sombria e tímida, ingredientes
suficientes para encantar o ouvinte incauto. Um dos muitos que ficaram encantados
por sua voz foi o músico Andy Cousin, do All About Eve e que também já foi
integrante do The Mission. Andy e Aleah fundaram o projeto de Rock Gótico That
Which Remains, que esteve na ativa somente em estúdio entre 2007 e 2008. Foi
neste período que Aleah começou a trabalhar em outro projeto, aquele que seria
sua verdadeira metamorfose em forma de música.
Desta vez, seu parceiro musical seria Juha Raivio,
guitarrista da banda de Melodic Death/Doom Metal Swallow The Sun. Eles seriam
parceiros não só musicalmente, mas também platonicamente. A química que existia
entre ambos não contribuiu somente com o amor que era mútuo, mas também na
criação de composições musicais únicas e doloridas. Ambos botaram em prática a
partir de 2009 o projeto Trees Of Eternity. Este projeto era um pouco parecido
com a sonoridade Death/Doom da banda original do guitarrista, mas era mais
atmosférico e etéreo, graças principalmente à contribuição criativa do Rouxinol.
O primeiro fruto deste combo musical só foi revelado ao mundo em 2013, através
da demo Black Ocean, que trazia em si quatro composições. Estas foram
reaproveitadas no primeiro lançamento oficial do grupo, Hour Of The Nightingale
(Hora do Rouxinol), lançado em 2016 via Svart Records.
Na verdade, o álbum começou a ser gravado em 2014 e os
músicos que o gravaram formavam uma seleção do Doom Metal da época. Além do
Rouxinol e de Juha Raivio, o Trees Of Eternity contava com os irmãos Fredrik e
Mattias Norrman na guitarra e no baixo, respectivamente. Na bateria, tínhamos
Kai Hahto, que até recentemente era baterista do Nightwish. O Atmospheric Doom
Metal do grupo não tinha nada de guitarras beirando o Death Metal ou vocais
guturais, como é de costume no chamado Metal Gótico. O enfoque do Trees Of
Eternity era passional. Nada poderia alterar a concentração do ouvinte, ou
tirá-lo do transe hipnótico ao qual o mesmo era submetido ao ouvir a voz doce e
fantasmagórica de Aleah Starbridge (sim, seu nome artístico incorporou um “R”
no sobrenome, passando a ser StaRbridge). A atmosfera criada pelas músicas e pela
voz do Rouxinol era absurdamente densa, sombria, soturna. Mas ao mesmo tempo
bela e aconchegante. Formava-se no álbum um ambiente nublado e frio, que
emanava muita tristeza e, ao mesmo tempo, amor e saudade. Não raro as músicas trazem
lágrimas aos olhos do ouvinte devido a grande carga emocional imprimida pela
voz de Aleah e pelas melodias tristes e inspiradíssimas de Juha Raivio.
Não deu tempo de Aleah Starbridge ver sua obra-prima revelada ao mundo. Ela partiu deste plano aos 18 dias do quarto mês de 2016, sete meses antes do lançamento oficial de Hour Of The Nightingale. O álbum foi lançado postumamente e, portanto, serviu como epitáfio para o túmulo do Rouxinol, exibindo ao mundo todo o poder de sua voz e de sua interpretação. A vida imita a arte, afinal. Tristemente, a música do Trees Of Eternity faz muito mais sentido sabendo que sua mentora-mor já partiu daqui. Ela, que cantava sobre saudade, tristeza e morte, sem querer prenunciava a sua própria partida. Um câncer a levou na tenra idade de 39 anos e deixou na Terra sua obra e seu legado musical e poético. Ficou também a sua voz, em forma de ecos distantes, reverberada aos quatro ventos pelos tormentos da melancolia, que torna tudo úmido e escuro. O poder de sua voz é tamanho que não se faz necessária a presença de sua pessoa aqui na Terra. Sua própria voz continua a enfeitiçar e congelar a cada um que a ouve.
Aleah Starbridge também colaborou em músicas do Swallow The
Sun, de seu parceiro Juha Raivio, e do Amorphis, banda finlandesa de Metal Progressivo.
Raivio deu início então ao projeto Hallatar, como forma de eternizar e mostrar ao
mundo as criações artísticas que Aleah ainda tinha escondidas. O primeiro álbum
do Hallatar não poderia ter nome mais sugestivo: No Stars Upon The Bridge.
Se o Rouxinol virou estrela ou não, ninguém sabe. Fato é que
os outros rouxinóis da Terra não conseguem emular seu canto soturno e
hipnótico. Eles são comuns. Só conseguem alegrar e cantar alegrias. Mal sabem
eles que a vida é uma mistura fatal de alegrias e tristezas, sendo as segundas
mais abundantes que as primeiras. Vai ver, eles mesmos ficaram tristes com a
partida de Aleah...
“À noite, as cortinas descem / Dentro da escuridão eu vagueio / Perdendo tudo que encontrei / Para o meu próprio desânimo / Meu tempo chegou a um fim.” (Trees Of Eternity - My Requiem)



Hoje seriam 44 anos
ResponderExcluirRealmente emocianente e única a voz de Aleah. Uma tristeza sem fim ouvir estas melodias sabendo que esta moça tão talentosa partiu!!!
ResponderExcluirFui hipnotizado por essa voz doce e mágica!
ResponderExcluirDesnecessário comentar...basta fechar os olhos e ouvir.
ResponderExcluirSinto uma dor profunda sempre que ouço esse disco e não me conformo com a partida precoce de Aleah.
ResponderExcluirAleah é a prova da existência de anjos
ResponderExcluirConheci a banda hoje e descubro que a vocalista já partiu ....
ResponderExcluirVoz angelical e uma beleza rara. Talvez a cantora mais bela que já existiu na cena musical.
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