Texto: Bruno Rocha
Provavelmente você já deve ter dançado ao som de Tansevat,
do Molchat Doma. Vou mais além: você já deve conhecer várias músicas do
trio Pós-Punk da Bielorrússia. Se você não atende a nenhuma das duas afirmações
anteriores, você está perdendo tempo.
O Pós-Punk do lado de lá da Europa tem uma sonoridade
peculiar e facilmente reconhecível graças a simplicidade dos arranjos e o clima
nublado que elas criam que mais parecem versões musicais das imponentes
arquiteturas e construções soviéticas. Desde os pioneiros do Kino até
nomes atuais como Human Tetris, Ploho, Supernova 1006 e Buerak, o
Pós-Punk russo se mantém forte, coeso e relevante na atualidade.
Mas o Molchat Doma é um caso bastante peculiar e específico.
Primeiro que eles não são da Rússia. São de Belarus, nome oficial do país que
conhecemos como Bielorrússia. Belarus fica localizado a Oeste da Rússia e ao
Norte da Ucrânia e fazia parte até o começo dos anos 90 da União Soviética. O
segundo ponto advém de sua sonoridade. Resguardando as tradições do Pós-Punk de
seu país vizinho, o Molchat Doma consegue elaborar uma identidade musical para
si próprio mesclando elementos de Coldwave e Synthpop. Terceiro, e não menos
importante, o grupo trabalha muito bem a parte visual, que inclui logos, capas
de álbuns e figurinos dos integrantes. Não vai dizer que não reconhece aquela roupa
social preta fechada até o pescoço e aquele bigode do vocalista Egor Shkutko?
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| Roman Komogortsev, Egor Shkutko e Pavel Kozlov. |
Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente até 2010. Naquele
ano, dois estudantes de uma escola técnica em Minsk, capital de Belarus, se
conheceram e um descobriu que o outro tocava instrumentos musicais. Estes eram Egor
Shkutko e Roman Komogortsev. Todavia, não era só o fato de ambos
serem músicos que os aproximou. Egor e Roman eram fãs de Depeche Mode e também
partilhavam um carinho por Red Hot Chili Peppers. Os gostos musicais parecidos
fizeram com que os dois começassem a tocar juntos na soturna, cinzenta, imponente
e soviética Minsk.
Ambos tocavam juntos vários estilos diferentes, que iam de
vertentes eletrônicas até Funk e passando até mesmo por Trip Hop. Em 2014 eles
se encontravam juntos na banda Net Kadrov, onde Roman era guitarrista e
tecladista e Egor era baixista. Foi durante a existência do Ned Kadrov que algumas
composições hoje tocadas pelo Molchat Doma surgiram, como Ya Ne Komunist,
Tishina I Priatki e Tecnologia. O vocalista do Net Kadrov
resolveu deixar o grupo após divergências musicais com Egor e Roman, o que
abriu caminho para que os dois seguissem com a banda de acordo com seus próprios
objetivos e ideais.
A primeira iniciativa foi mudar o nome da banda. De Net
Kadrov, o grupo passou a se chamar Molchat Doma, que significa “casas silenciosas”.
Ao invés de procurarem por um novo cantor, Egor resolveu largar o contrabaixo
para assumir o posto de vocalista. A busca por um baixista foi difícil, já que
vários músicos foram recrutados, mas todos eles abandonavam o projeto em pouco
tempo. Quando a dupla de amigos já estava desanimada ao ponto de encerrar de
vez o projeto, eis que Pavel Kozlov entra em contato se mostrando altamente
interessado na vaga. A salvação chegou e o Molchat Doma enfim toma o formato que
conhecemos hoje em 2017.
Em meio a tantos estilos musicais que a dupla Egor/Roman já
haviam testado, o Pós-Punk vingou como sonoridade definitiva do Molchat Doma.
Já foi citado neste texto que ambos eram fãs de Depeche Mode, mas Roman, principal
arranjador do grupo, também cultivava um forte apreço pelo Kino, um dos
principais nomes do Rock russo de todos os tempos e que praticava um Pós-Punk
frio e introspectivo.
O trio produziu e lançou de forma independente seu álbum de
estreia, S’Krish Nashik Domov (Dos Telhados de Nossas Casas) ainda em
2017, com nove faixas que traziam um som empoeirado, abafado, com
sintetizadores que remetiam a época de ouro do Synthpop e do New Wave,
guitarras com melodias frias cobertas de reverb, baixo hipnotizante e vocais
soturnos que pareciam ter sido gravados do fundo de um porão de algum prédio
setentista de Minsk. Um som realmente dançante e sombrio ao mesmo tempo,
sovieticamente arquitetado. O álbum chamou a atenção de Davide, o responsável
pela gravadora alemã Detriti Records. Davide entrou em contato com o
Molchat Doma através do Soundcloud, oferecendo a oportunidade de lançar S’Krish
Nashik Domov em formato de fita cassete. A oferta foi aceita pela banda e o
lançamento rapidamente se esgotou.
Mais uma oferta foi feita pelo italiano radicado na Alemanha,
Davide. Lançar o segundo álbum do Molchat Doma em vinil. Desta vez o trio
bielorrusso ficou apreensivo, pois eles nem sequer sabiam se teriam condições
de registrar um segundo álbum. Apesar da incerteza, o grupo se manteve
confiante e resolveu aceitar a oferta da gravadora alemã, o que possibilitou a
gravação de Etazhi (Pisos), lançado em 2018.
Apesar de serem músicos talentosos e criativos e de terem
uma imagem bastante chamativa, tudo isto não bastou ainda para que o Molchat
Doma se lançasse aos píncaros da glória. Um pouco de sorte também se fez
essencial para que os garotos de Belarus se tornassem a nova sensação do Pós-Punk.
Os vídeos com as canções do grupo começaram a se tornar bastante divulgados e
assistidos no YouTube. Foi através deste forte engajamento na internet que o
Molchat Doma chamou a atenção dos americanos do Drab Majesty, que
alimentou a vontade de tocar na Europa junto aos bielorrussos. O Drab Majesty tratou
de entrar em contato com seu agente de shows na Europa para falar sobre o
Molchat Doma e sobre a possibilidade de a agência também apoiá-los. O agente
foi até Berlim testemunhar pessoalmente uma apresentação do Molchat Doma, desta
feita no festival Pop-Kultur de 2019. Ao chegar lá, o que o agente presenciou
foi um trio formado por um vocalista bigodudo e altamente empolgado com danças
estranhas, um guitarrista que verdadeiramente se inebriava viajando em seus próprios
solos e um baixista que mais se parecia um músico escandinavo de Heavy Metal,
mas que dançava animadamente ao ritmo sincopado de seu baixo. Este trio tocava suas
ótimas composições de forma coesa e segura, conquistando assim todo aquele público
que, junto ao agente, testemunhavam aquele concerto. Depois foi só questão de
tempo para que o agente e os garotos de Belarus assinassem uma parceria que
permitiu ao trio rodar toda a Europa e até mesmo os Estados Unidos desde então.
Lembra da apreensão pela qual a banda passou antes de gravar
seu segundo álbum, Etazhi? Pois bem. Etazhi já foi vorazmente
devorado das lojas físicas cinco vezes. Atualmente o trabalho já está em sua
sexta prensagem, a qual provavelmente terá o mesmo destino das cinco
anteriores. Etazhi traz ainda a mesma essência fria e dançante do debut,
porém com uma melhor produção e qualidade de som graças ao aporte da gravadora
Detriti.
Não nos esqueçamos que o Molchat Doma é de Belarus, país governado com mãos-de-ferro por Alexander Lukashenko (sim, o mesmo que disse que o Coronavirus pode ser tratado com vodka e saunas) em mandatos consecutivos desde 1994 e que faz questão de resguardar tradições soviéticas até hoje. Se essas tradições se restringissem a pesada arquitetura, tudo bem. Contudo, tais costumes vão desde práticas econômicas até repressão e censura. Para alguma banda local poder tocar ao vivo no país, é necessário requisitar uma prévia autorização ao regime local, que verificará o histórico, as letras e até a imagem do grupo. Caso a autorização seja negada, representantes do regime bielorrusso vão até o local onde a apresentação aconteceria para verificar se realmente o show não ocorreu. O Molchat Doma já experimentou essa censura algumas vezes, muito embora eles afirmem que pouco se preocupam com política e que suas letras quase não abordam o assunto. Todavia, o Molchat Doma é presença frequente na emissora local de TV Belsat, que se intitula independente e com a missão de enaltecer a cultura bielorrussa, bem como em rádios.
O reconhecimento que falta em Belarus vem sendo ricamente
recompensado fora de lá, em toda a Europa e em todo o mundo. O Molchat Doma é atualmente
uma das principais representantes do estilo e muito deste sucesso se deve a sua
personalidade, sua empolgante, fria e única sonoridade, trabalho duro, imagem
reconhecível e, não faz mal reconhecer, uma pitada de sorte. Ora com guitarras
e com baixo na direção do Coldwave, ora nos sintetizadores que os conduzem ao
Synthpop/New Wave, o Molchat Doma se sai bastante competente em cada direção que
resolve adotar, sempre guiados pela bateria eletrônica de timbres nostálgicos e
simples. Não obstante a salada de influências, o grupo cria uma música
consistente, homogênea e empolgante. Mais que isso, o Molchat Doma é
responsável por uma atmosfera mágica e inebriante que, mesmo tendo uma coloração
cinzenta e triste tal qual os prédios de Minsk, empolga e faz alegrar qualquer fã
e ouvinte.




Excelente texto!
ResponderExcluirTô viciado na banda e maravilhado com a sonoridade ainda que não entenda nenhuma palavra do que compõe aquilo, muito louco.
Eu quero ver umas traduções, talvez do Genius tenha pq acho que a coisa da politica pode tá nas entrelinhas, mesmo com eles dizendo que sua música não tem esse teor.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCara amei o texto. eu tenho um canal no youtube que fala sobre música estou inclusive fazendo nesse momento uma pesquisa para um guia básico de post punk revival. muito bacana a história sobre a banda! o poder da música é realmente inspirador!
ResponderExcluirsegue um pouco do meu trabalho
https://www.youtube.com/watch?v=f-VjoAoJ2r0&t=148s
Conheci hoje por acidente, que atmosfera fantástica. Vou ouvir muito!
ResponderExcluirEssa banda é maravilhosa, fico tão feliz de ver ela tendo o reconhecimento que merece. Ótimo texto💜
ResponderExcluirFi ao show deles ontem em São Paulo. Energia Inebriante de fato. Que venham mais vezes 🖤🤘
ResponderExcluirconheço esse trio desde 2020.. muito marcante pra mim e precisava muito saber da trajetória e tudo oque compõe essa atmosfera que esses caras produzem.. muito obrigado pelo texto e por cada detalhe principalmente pelo "vocalista bigodudo" sempre chama a atenção com seu estilo q completa mais ainda toda a estética que a banda trás... o show de sp deve ter sido incrível, acompanhei alguns vídeos/stories e da uma emoção insana:"...
ResponderExcluirO PALMEIRAS NÃO TEM MUNDIAL!
ResponderExcluirConheci a banda em 21. Ate comemorei a virada do ano ao som deles hahah... que presente incrivel ter presenciado o show!!! Agradecida pelo texto! Banda sensacional!
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