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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sobre lives na internet e o quanto queremos que tudo volte ao normal o quanto antes

FG Trade / Getty Images
Texto: Bruno Rocha

Ninguém, nem o mais pessimista dos terráqueos, nem mesmo os astrólogos ou aqueles videntes que subsistem na televisão, poderia imaginar ou prever a hecatombe sanitária pela qual o mundo passa em 2020. Um vírus cujo contágio se dá forma selvagem se espalhou por todo o planeta (menos no Turcomenistão, já que o "presidente" de lá afirma de pé junto que lá não existe nenhum caso), forçando assim a parada de todas as instâncias das sociedades como há muito tempo não se via. Se a coisa afetou tão fortemente até as maiores economias e corporações do mundo, imagine então para o lado mais fraco da corda, onde se localiza o Rock underground.

Com a preocupação maior em salvar a vida das pessoas e evitar que o coronavírus adoeça grande parte da população e mate aqueles que forem afetados de forma mais grave, aglomerações estão proibidas e as pessoas estão sendo orientadas a não saírem de casa em uma profilaxia enormemente comunitária chamada "isolamento social". Consequentemente, trazendo para o escopo deste humilde blog, que é o que interessa a vocês caros leitores, shows foram cancelados e as bandas estão tendo que se reinventar para manter o contato com o público. Daí surgiram a ideia das famosas lives.

Não que elas já não existissem, mas tendo em vista a atual conjuntura do mundo, as lives se tornaram praticamente a única maneira de os artistas apresentarem sua arte àqueles que a apreciam.

Dentro do mundo gótico, grupos como Ash Code, Sonsombre, Plastique Noir e Hapax, dentre vários outros cujos nomes a memória me veta neste momento (comentem aqui ou nas redes sociais do blog, por favor. Nunca vos pedi nada), já fizeram as suas lives para entreter o público que se enclausura em suas casas em meio à pandemia. Tocando juntos num mesmo ambiente ou então com cada integrante tocando em seu domicílio, para depois sincronizar tudo para ir ao ar de uma forma organizada, as bandas se viram como podem usando sua criatividade e seus recursos, lançando mão de jogos de luzes, de efeitos de vídeo ou mesmo fazendo algo mais simplista e caseiro. o duo francês Dear Deer fez sua live de dentro de uma cozinha, por exemplo. Os cariocas do Última Dança fizeram num sofá mesmo, com violão e teclado portátil. São diferentes formas de angariar a atenção do ouvinte em meio ao concorrido e sempre lotado palco da internet.

Uma iniciativa do tipo vem chamando a atenção. O Gothicat, loja virtual que vende produtos do universo gótico customizados com imagens de gatos, produziu e pôs no ar o Gothicat Festival, evento on-line cujo objetivo foi apresentar vídeos nunca divulgados antes por bandas do cenário Pós-Punk, Gothic Rock, Darkwave e vertentes, com apresentação de André Savetier, vocalista das bandas Deus Faust e Tenebris Obortis e responsável pelo canal The Wave Of Things. Não só com a intenção de apresentar vídeos, como descrito, o Gothicat Festival também apela para o lado social, já que, durante as transmissões, os espectadores podem fazer doações online para instituições de saúde que prestam serviços de combate ao Covid-19.

A primeira edição, que foi transmitida no último dia 12 de abril, contou com colaborações de importantes nomes como Clan Of Xymox (com um raro vídeo de uma apresentação de 1982), Lebanon Hanover, She Past Away, Minuit Machine, Molchat Doma e várias outras bandas. A aceitação foi tamanha que foi mister uma segunda edição, desta vez com  a curadoria sendo feita pelos próprios fãs através de uma enquete. Outras bandas indicadas pelos fãs através desta mesma enquete comporão a terceira edição do Gothicat Festival, que irá ao ar no próximo dia 23 de maio e que contará com a participação dos cearenses do Plastique Noir, além de outros nomes importantes como Nosferatu, Merciful Nuns, Bleib Modern, Iamtheshadow, O Children e et cetera.

A iniciativa vem gerando ecos. Tanto é que um novo projeto do tipo será colocado em prática a partir do próximo dia 22 de maio, sexta-feira, bem no Dia Mundial da Cultura Gótica. Será a primeira edição do Festival Under Latinoamericano, que está sendo organizado pela produtora peruana Tumbas Eternas Producciones. Como o nome do festival delata, o mesmo será composto somente por bandas de países latino-americanos. Nesta primeira edição, um total de 26 bandas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Costa Rica, Venezuela, Equador e Uruguai estão escaladas. Representando o nosso país estarão Plastique Noir, Ego Eris, Herzegovina e Jenni Sex. Dos outros países, alguns dos nomes confirmados são Los Malkavian, Gorgonas, Delirium Mask e El Ansia.

O Darkitalia, produtora de shows e webzine, também está organizando uma live nos mesmos moldes para o próximo dia 23. Será o World Gothic Day #FEST, que contará com colaborações de Clan Of Xymox, Molchat Doma, Iamtheshadow, Bedless Bones, Hapax, Sonsombre e outras bandas, totalizando um número de 32 grupos participantes. É tanta live que dá até para escolher!




E os DJ's? Sim, eles também estão se adaptando aos tempos pandêmicos. Suas pick-ups com vinis ou com aparelhagens mais modernas estão ainda a serviço de seus pilotos e dos fãs de discoteca. No Brasil, alguns DJ's como Zauber (Madame, Via Underground) e Marcelo Kpta (Das Projekt), dentre outros, vem lançando esporadicamente playlists "da quarentena" através do YouTube e do Soundcloud. O próprio Madame, tendo em vista o fechamento da casa por conta da pandemia, vem fazendo toda noite, a partir de 19:00 até as 5:00 do dia seguinte, lives com a presença ubíqua dos DJ's Gê Rodrigues e Ricardo Escudeiro, além de alguns convidados esporádicos, como modo de levar na medida do possível a essência da casa para as residências dos fãs.

Tais entretenimentos são essenciais em tempos que não podemos sair de casa para aproveitar a cultura nos lugares onde ela transmite o melhor de suas sensações. E, talvez, as lives rejam um paradigma que será seguido daqui em diante mesmo após a pandemia em uma nova forma que os artistas têm de se conectar com seus fãs neste moderno, maquinado e globalizado mundo. Entretanto, o que mais queremos de verdade é poder sair de casa e ver nossas bandas preferidas ao vivo, apoiar nossos artistas in loco e nos animarmos ao som dos DJ's que sempre discotecam aquelas nossas músicas preferidas. As lives, não obstante serem ideias criativas e que nos saciam bem neste período, jamais passarão o mesmo sentimento e sinergia que nos impacta nas apresentações ao vivo, onde podemos não somente ver os artistas se expressando ao vivo, como também temos a oportunidade de estarmos perto das pessoas que nos fazem bem.

Este é um período de sacrifício. O novo coronavírus é inclemente e espalhou sua chaga virulenta por toda a Terra (menos no Turcomenistão). Nossa única forma de combater seu contágio selvagem é nos resguardarmos em casa na medida do possível e seguir as recomendações das autoridades científicas e sanitárias. Enquanto líderes estúpidos e ineptos tentam a todo custo desacreditar a ciência em prol de ver em prática teorias conspiratórias ao mesmo tempo em que milhões de seguidores cegos ruminam e mugem ante qualquer atitude nojenta de seus líderes, devemos ser o lado consciente deste período de trevas e de incertezas. Cuidemo-nos. Assim, o quanto antes for possível, poderemos voltar a nossa vida normal. Nem que seja ao "novo normal" que especialistas vem falando em suas colunas, blogs e entrevistas. Espero otimista que seja um "novo normal" com saúde, esperança e cultura, tão legal quanto o antigo normal.

domingo, 12 de abril de 2020

Molchat Doma: o que explica o sucesso da mais nova sensação do Pós-Punk?




Texto: Bruno Rocha

Provavelmente você já deve ter dançado ao som de Tansevat, do Molchat Doma. Vou mais além: você já deve conhecer várias músicas do trio Pós-Punk da Bielorrússia. Se você não atende a nenhuma das duas afirmações anteriores, você está perdendo tempo.

O Pós-Punk do lado de lá da Europa tem uma sonoridade peculiar e facilmente reconhecível graças a simplicidade dos arranjos e o clima nublado que elas criam que mais parecem versões musicais das imponentes arquiteturas e construções soviéticas. Desde os pioneiros do Kino até nomes atuais como Human Tetris, Ploho, Supernova 1006 e Buerak, o Pós-Punk russo se mantém forte, coeso e relevante na atualidade.

Mas o Molchat Doma é um caso bastante peculiar e específico. Primeiro que eles não são da Rússia. São de Belarus, nome oficial do país que conhecemos como Bielorrússia. Belarus fica localizado a Oeste da Rússia e ao Norte da Ucrânia e fazia parte até o começo dos anos 90 da União Soviética. O segundo ponto advém de sua sonoridade. Resguardando as tradições do Pós-Punk de seu país vizinho, o Molchat Doma consegue elaborar uma identidade musical para si próprio mesclando elementos de Coldwave e Synthpop. Terceiro, e não menos importante, o grupo trabalha muito bem a parte visual, que inclui logos, capas de álbuns e figurinos dos integrantes. Não vai dizer que não reconhece aquela roupa social preta fechada até o pescoço e aquele bigode do vocalista Egor Shkutko?

Roman Komogortsev, Egor Shkutko e Pavel Kozlov.
Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente até 2010. Naquele ano, dois estudantes de uma escola técnica em Minsk, capital de Belarus, se conheceram e um descobriu que o outro tocava instrumentos musicais. Estes eram Egor Shkutko e Roman Komogortsev. Todavia, não era só o fato de ambos serem músicos que os aproximou. Egor e Roman eram fãs de Depeche Mode e também partilhavam um carinho por Red Hot Chili Peppers. Os gostos musicais parecidos fizeram com que os dois começassem a tocar juntos na soturna, cinzenta, imponente e soviética Minsk.

Ambos tocavam juntos vários estilos diferentes, que iam de vertentes eletrônicas até Funk e passando até mesmo por Trip Hop. Em 2014 eles se encontravam juntos na banda Net Kadrov, onde Roman era guitarrista e tecladista e Egor era baixista. Foi durante a existência do Ned Kadrov que algumas composições hoje tocadas pelo Molchat Doma surgiram, como Ya Ne Komunist, Tishina I Priatki e Tecnologia. O vocalista do Net Kadrov resolveu deixar o grupo após divergências musicais com Egor e Roman, o que abriu caminho para que os dois seguissem com a banda de acordo com seus próprios objetivos e ideais.

A primeira iniciativa foi mudar o nome da banda. De Net Kadrov, o grupo passou a se chamar Molchat Doma, que significa “casas silenciosas”. Ao invés de procurarem por um novo cantor, Egor resolveu largar o contrabaixo para assumir o posto de vocalista. A busca por um baixista foi difícil, já que vários músicos foram recrutados, mas todos eles abandonavam o projeto em pouco tempo. Quando a dupla de amigos já estava desanimada ao ponto de encerrar de vez o projeto, eis que Pavel Kozlov entra em contato se mostrando altamente interessado na vaga. A salvação chegou e o Molchat Doma enfim toma o formato que conhecemos hoje em 2017.

Em meio a tantos estilos musicais que a dupla Egor/Roman já haviam testado, o Pós-Punk vingou como sonoridade definitiva do Molchat Doma. Já foi citado neste texto que ambos eram fãs de Depeche Mode, mas Roman, principal arranjador do grupo, também cultivava um forte apreço pelo Kino, um dos principais nomes do Rock russo de todos os tempos e que praticava um Pós-Punk frio e introspectivo.

O trio produziu e lançou de forma independente seu álbum de estreia, S’Krish Nashik Domov (Dos Telhados de Nossas Casas) ainda em 2017, com nove faixas que traziam um som empoeirado, abafado, com sintetizadores que remetiam a época de ouro do Synthpop e do New Wave, guitarras com melodias frias cobertas de reverb, baixo hipnotizante e vocais soturnos que pareciam ter sido gravados do fundo de um porão de algum prédio setentista de Minsk. Um som realmente dançante e sombrio ao mesmo tempo, sovieticamente arquitetado. O álbum chamou a atenção de Davide, o responsável pela gravadora alemã Detriti Records. Davide entrou em contato com o Molchat Doma através do Soundcloud, oferecendo a oportunidade de lançar S’Krish Nashik Domov em formato de fita cassete. A oferta foi aceita pela banda e o lançamento rapidamente se esgotou.



Mais uma oferta foi feita pelo italiano radicado na Alemanha, Davide. Lançar o segundo álbum do Molchat Doma em vinil. Desta vez o trio bielorrusso ficou apreensivo, pois eles nem sequer sabiam se teriam condições de registrar um segundo álbum. Apesar da incerteza, o grupo se manteve confiante e resolveu aceitar a oferta da gravadora alemã, o que possibilitou a gravação de Etazhi (Pisos), lançado em 2018.

Apesar de serem músicos talentosos e criativos e de terem uma imagem bastante chamativa, tudo isto não bastou ainda para que o Molchat Doma se lançasse aos píncaros da glória. Um pouco de sorte também se fez essencial para que os garotos de Belarus se tornassem a nova sensação do Pós-Punk. Os vídeos com as canções do grupo começaram a se tornar bastante divulgados e assistidos no YouTube. Foi através deste forte engajamento na internet que o Molchat Doma chamou a atenção dos americanos do Drab Majesty, que alimentou a vontade de tocar na Europa junto aos bielorrussos. O Drab Majesty tratou de entrar em contato com seu agente de shows na Europa para falar sobre o Molchat Doma e sobre a possibilidade de a agência também apoiá-los. O agente foi até Berlim testemunhar pessoalmente uma apresentação do Molchat Doma, desta feita no festival Pop-Kultur de 2019. Ao chegar lá, o que o agente presenciou foi um trio formado por um vocalista bigodudo e altamente empolgado com danças estranhas, um guitarrista que verdadeiramente se inebriava viajando em seus próprios solos e um baixista que mais se parecia um músico escandinavo de Heavy Metal, mas que dançava animadamente ao ritmo sincopado de seu baixo. Este trio tocava suas ótimas composições de forma coesa e segura, conquistando assim todo aquele público que, junto ao agente, testemunhavam aquele concerto. Depois foi só questão de tempo para que o agente e os garotos de Belarus assinassem uma parceria que permitiu ao trio rodar toda a Europa e até mesmo os Estados Unidos desde então.

Lembra da apreensão pela qual a banda passou antes de gravar seu segundo álbum, Etazhi? Pois bem. Etazhi já foi vorazmente devorado das lojas físicas cinco vezes. Atualmente o trabalho já está em sua sexta prensagem, a qual provavelmente terá o mesmo destino das cinco anteriores. Etazhi traz ainda a mesma essência fria e dançante do debut, porém com uma melhor produção e qualidade de som graças ao aporte da gravadora Detriti.


Não nos esqueçamos que o Molchat Doma é de Belarus, país governado com mãos-de-ferro por Alexander Lukashenko (sim, o mesmo que disse que o Coronavirus pode ser tratado com vodka e saunas) em mandatos consecutivos desde 1994 e que faz questão de resguardar tradições soviéticas até hoje. Se essas tradições se restringissem a pesada arquitetura, tudo bem. Contudo, tais costumes vão desde práticas econômicas até repressão e censura. Para alguma banda local poder tocar ao vivo no país, é necessário requisitar uma prévia autorização ao regime local, que verificará o histórico, as letras e até a imagem do grupo. Caso a autorização seja negada, representantes do regime bielorrusso vão até o local onde a apresentação aconteceria para verificar se realmente o show não ocorreu. O Molchat Doma já experimentou essa censura algumas vezes, muito embora eles afirmem que pouco se preocupam com política e que suas letras quase não abordam o assunto. Todavia, o Molchat Doma é presença frequente na emissora local de TV Belsat, que se intitula independente e com a missão de enaltecer a cultura bielorrussa, bem como em rádios.

O reconhecimento que falta em Belarus vem sendo ricamente recompensado fora de lá, em toda a Europa e em todo o mundo. O Molchat Doma é atualmente uma das principais representantes do estilo e muito deste sucesso se deve a sua personalidade, sua empolgante, fria e única sonoridade, trabalho duro, imagem reconhecível e, não faz mal reconhecer, uma pitada de sorte. Ora com guitarras e com baixo na direção do Coldwave, ora nos sintetizadores que os conduzem ao Synthpop/New Wave, o Molchat Doma se sai bastante competente em cada direção que resolve adotar, sempre guiados pela bateria eletrônica de timbres nostálgicos e simples. Não obstante a salada de influências, o grupo cria uma música consistente, homogênea e empolgante. Mais que isso, o Molchat Doma é responsável por uma atmosfera mágica e inebriante que, mesmo tendo uma coloração cinzenta e triste tal qual os prédios de Minsk, empolga e faz alegrar qualquer fã e ouvinte.

Ligue seu som e não permita que sua casa fique silenciosa ante ao poder frio do Molchat Doma.


domingo, 22 de março de 2020

Depeche Mode: os 30 anos de "Violator", o marco da ousadia e da maturidade do grupo




Texto: Bruno Rocha

Nas trilhas sonoras que acompanham nossa existência neste mundo maldito e cada vez mais decadente, alguns álbuns se destacam por conquistar um espaço especial em nossos corações, seja por um momento marcante em nossas vidas, por sua qualidade musical ou pelos sentimentos que ele desperta em nossa imaginação. Seja em qual dessas categorias ele se encaixe, muito provavelmente Violator, do Depeche Mode, está presente nesta sua discoteca especial. Não há como se manter passivo ante as composições deste trabalho, que representou o ápice criativo e de ousadia do Depeche Mode naquela época e que completou nesta semana que se finda três décadas de lançamento.

Lançado exatamente no ano em que se findou a era oitentista e começou a década de 90, Violator une elementos do Synthpop característico do quarteto a modas que viriam a fazer sucesso ao longo dos anos 90, provando que o Depeche Mode não somente alcançara um nível de maturidade musical absurdo, como também eles se tornariam influência-mor no futuro para diversos artistas de sucesso e se tornariam trilha sonora definitiva para uma legião de fãs mundo afora. Nunca um álbum de Eletrônico com pitadas de Rock foi tão bem criado e esmerado. O Rock não ousou invadir o espaço do Eletrônico. Alternativamente, os dois gêneros simplesmente juntaram o que tinham de melhor e criaram esta quimera musical. Ao mesmo tempo em que as batidas e melodias eletrônicas se distinguem das guitarras mais nervosas de Martin Gore (nervosismo esse notável em Personal Jesus e em Policy Of Truth), Violator se mostra homogêneo, e no final pouca gente se importa com qual estilo musical este álbum mais se encaixa. O que interessa e entrar e fazer parte de sua atmosfera única, sensacional e inebriante.

O título em si pode querer dar a entender que o álbum é violento, impiedoso e inclemente, como aquele que viola de maneira iníqua aquilo que não deve ser violado. Todavia, o significado do título não passa de uma piada, como garante o criador da obra, Martin Gore, em entrevistas dadas em 1990. Pelo contrário; ouvir Violator é confortante, é animador. Seu interlocutor, o ouvinte, é levado a lugares - noturnos, diga-se de passagem – onde os problemas do mundo são trancados do lado de fora. Dentro, emerge um universo paralelo onde o fã é convidado a dançar e sentir seus prazeres mais íntimos de forma despudorada. Na verdade, esse universo não é paralelo à realidade. Os criadores deste universo, o Depeche Mode, funcionam como a interseção deste lugar imaginário e o mundo real.

Sim, interprete “prazeres mais íntimos” da forma mais livre (libertina?) que você quiser. Este é o convite feito pela música que abre o trabalho, World In My Eyes. Seu ritmo dançante e a interpretação irrepreensível de Dave Gahan faz surgir uma atmosfera atraente, onde a personagem seduz seu par, convidando-a a sentir os mais primitivos prazeres carnais, não como sugere erroneamente o título do álbum, mas comparando suas sensações a uma viagem pelas mais diferentes paisagens e climas da Terra. Sweetest Perfection, cantada por Martin Gore, é sombria, mas aconchegante, como se o sexo de World In My Eyes fosse seguido por um momento de sossego, mansidão e prazer eternos.

Um momento de rebeldia é invocado em Personal Jesus. Mostrando que limitações estilísticas não existiam mais para a banda, Martin Gore pegou sua guitarra, distorceu levemente seu timbre e criou um riff Country/Rock, que se fez acompanhar por um andamento groovado e empolgante, para liderar uma música da banda que até outrora era genuinamente Synthpop. Sim, as guitarras já eram usadas pelo músico em Music For The Masses (1987), mas não com tanta pujança quanto a apresentada em Personal Jesus. Assim como pela primeira vez uma bateria acústica foi adotada pela banda quando Alan Wilder tocou-a na já citada Sweetest Perfection. É ou não é atuar como Jesus, lançando mão de seus instintos pessoais? As coisas voltariam a ficar mais sombrias, mas não menos inspiradas, em Halo, que traz novamente um convite de uma pessoa ao seu par, todavia de um modo mais polido. Repare como a voz de Dave Gahan está agora imponente, pouco lembrando as performances inocentes do menino Gahan na época de Just Can’t Get Enough...

Um momento de introspecção enfim surge para acalmar os ânimos ferozes das músicas e, neste momento, dos ouvintes, em Waiting For The Night. Como a brisa do anoitecer de algum lugar alto e longe das metrópoles, esta música afaga nossa mente transportando-a em uma nuvem de etereidade. Isso tudo para que depois se possa aproveitar em toda a sua personalidade, o silêncio.

Hora de acordar, mas mantenha-se em silêncio e o aproveite, pois a próxima música é a imortal Enjoy The Silence. Um hit dançante, grudento e com a eternizada guitarra cheia de chorus de Martin Gore a ecoar por todo o seu comprimento. Concentre-se – lembre-se do silêncio – e repare em cada elemento que compõe a música; cada efeito, cada string, o timbre da bateria programada... tente até mesmo ouvir os dedos de Martin Gore deslizando pelas cordas da guitarra. Você consegue mais: tente ouvir as trilhas tocadas pelo nosso querido e fofo tecladista Andrew Fletcher. Repare como todos os elementos, do mais presente ao mais discreto, passando pela intepretação certeira de Dave Gahan e o ritmo sincopado criado por Alan Wilder, se harmonizam com tamanha perfeição que o produto final, a música, toma conta de você de forma nunca experimentada antes. Experimente o silêncio!


Não é nada fácil ser a música responsável por suceder Enjoy The Silence, mas Policy Of Truth quase chega a rivalizar com sua antecessora por conta de suas melodias grudentas e a levada seca e dançante. Policy Of Truth é uma música por si só poderosa e que possui predicados suficiente para torná-la o grande hit da história do Depeche Mode. Uma dualidade marca o fim de Violator: Uma balada muito bonita, mas com uma simplicidade “krafterkiana”, a música Blue Dress, antecede a pesada Clean, onde Dave Gahan clama que está mais limpo do que nunca. Parece até uma piada tendo em vista a situação pela qual o cantor passou poucos anos depois, quando chegou a ser declarado morto por overdose. Estas duas últimas faixas nos fazem lembrar que o Depeche Mode é uma banda de músicas sombrias e pesadas, mas que sabe trabalhar esses elementos em doses sensatas, abrindo espaço para algo mais iluminado e tocante, quando estes adjetivos se fazem necessários. Desta forma, a mente do ouvinte não se afoga ferozmente no absinto negro, nem se deixa transformar em um anjo que depende da luz para sobreviver.

Tecnicamente, Violator, o sétimo da discografia do Depeche Mode, representa o ponto onde a transformação começada em Music For The Masses enfim se concretizou. Influências de Rock alternativo se mostraram cada vez mais presentes e as construções eletrônicas se tornaram mais variadas, muito disso graças à novos métodos de produção adotados principalmente por Alan Wilder (o nerd musical do quarteto) e pela parceria com Mark “Flood” Ellis, produtor que trabalhara anteriormente com U2, New Order, Nine Inch Nails e Erasure, dentre outros nomes. Anteriormente, a banda preparava suas programações eletrônicas e já as deixava prontas antes mesmo de entrar em estúdio. Com o novo método adotado a partir de Violator, a pré-produção passou a trabalhar somente o essencial, de modo a trabalhar com maior liberdade e criatividade em estúdio o esqueleto elaborado antes. Foi assim que Enjoy The Silence, o maior hit da história do Depeche Mode, foi moldado. Originalmente, Martin Gore o compôs como uma balada quase que romântica. Alan Wilder, em seu trabalho como arranjador do grupo, transformou a música em uma peça dançante e empolgante, da forma como a conhecemos hoje.

Resultado: sucesso no mundo inteiro, sacramentando de vez o Depeche Mode como uma banda de arenas e estádios, milhões de álbuns vendidos e muitas, muitas, certificações. A ousadia musical seria ainda mais trabalhada no álbum seguinte, Songs Of Faith And Devotion (1993), onde o grupo colocaria o pé de vez no Rock Alternativo. Entretanto, esta ousadia apareceria de uma forma predominantemente mais densa e pesada. 

Há quem prefira o Depeche Mode oitentista, puramente Synthpop. Tem os que gostam bastante da fase alternativa vivida nos anos 90 e os álbuns atuais agradam por trazer elementos até mesmo de Blues (apesar das reclamações de quem ainda sente falta de Alan Wider na banda). Mas ninguém pode contestar o valor e a importância de Violator na discografia da banda. Este álbum é a esquina onde os mundos já criados pela musicalidade do Depeche Mode se encontram. Alternativo na medida certa, eletrônico para não esquecer as raízes nem perder a essência. Em resumo: perfeito para a boa música e, principalmente, para levantar os sentimentos mais escondidos, ferozes e ousados do ser humano. Ouça este álbum e viole sua timidez.



sábado, 15 de fevereiro de 2020

Doom Metal: como o Gênero Maldito já era praticado ainda nos anos 70



Texto: Bruno Rocha

Se o Doom Metal possuísse uma versão plástica, esta seria a capa do debut do Black Sabbath, a imagem acima. Perturbadora em sua simplicidade autoral, esta imagem traduz com perfeição em forma de imagem o sentido real e estrangulador do estilo. Por falar neste álbum, o Heavy Metal nasceu através dele sob o signo do Doom. Na forma deste, o debut do Black Sabbath foi composto e lançado oficialmente no dia 13 de fevereiro de 1970, portanto, tendo completado 50 anos nesta semana que se passou.

O Black Sabbath praticava em seus primeiros álbuns aquilo que partir dos anos 80 seria conhecido como Doom Metal: um Heavy Metal lento, com guitarras de timbres bastante distorcidos, atmosferas soturnas e vocais desesperados. Portanto, não há exagero em afirmar que o Doom Metal existe desde os anos 70, sendo, portanto, o primeiro subgênero de Metal a existir. Se formos considerar os outros gêneros que começaram a se emancipar no fim dos anos 70 para os anos 80, como Thrash, Death, Black, Progressivo, Power e outros, o Doom é aquele que ainda carrega a essência raiz com a qual o Metal foi gerado por Tony Iommi e cia.

O próprio Black Sabbath é constantemente lembrado como pai tanto do Heavy Metal quanto do Doom Metal, mas eles não eram a única banda a praticar o estilo na época. Apesar de a crítica massacrar aquele Rock encapetado e feio que os Sabbath praticavam, a banda rapidamente adquiriu popularidade no underground e cresceu a ponto de alcançar a fama. Tão logo seus primeiros trabalhos chegaram aos ouvidos dos fãs de Rock do mundo todo, outras bandas foram surgindo inspirados por aquele Rock negro e pesado. Também carregando o cheiro do Rock Psicodélico e ocultista, as bandas que praticavam Doom nos anos 70 mesclavam a brisa psicodélica com as distorções pesadas. Além disso, não seria muito auspicioso falar de temas como ocultismo fazendo Rock bonitinho, em tons maiores e timbres limpos, não é?

Antes de prosseguirmos, é preciso deixar claro um detalhe que, apesar de parecer óbvio, é de suma importância neste artigo. Não é que as bandas citadas nesta matéria eram genuinamente bandas de Doom Metal. Este entendimento só veio a existir a partir da década seguinte. Indo mais além, nem sequer o termo “Heavy Metal” estava estabelecido na época em questão. O ponto aqui é que algumas bandas já tocavam de forma clara em algumas músicas ou trabalhos aquilo que a partir dos anos 80 viria a ser batizado como Doom Metal. Outro detalhe que complementa este primeiro é que o que compreendemos hoje como qualquer outro gênero de Metal não era praticado no mesmo período. Bandas como Judas Priest, Motörhead e Accept aceleraram e tornaram mais melódicos (este segundo adjetivo não se aplica tanto ao Motörhead) o Metal na segunda metade dos anos 70 e acabaram por influenciar outros gêneros de Metal que foram surgindo a partir do começo dos anos 80, somente.

O Doom Metal emancipou-se como gênero de Metal na era oitentista graças a bandas como Saint Vitus, The Obsessed, Trouble - estas americanas - Pagan Altar e Witchfinder General, estas britânicas oriundas da NWOBHM. Depois veio o Candlemass, o nome mais bem sucedido do estilo, inaugurando o segmento Epic Doom. Todavia, como já dito, o estilo já era praticado como tal nos anos 70. Vejamos a seguir alguns poucos nomes que se enquadram no Doom Metal setentista. E se prepare: se você não conhece alguns destes nomes, vai se surpreender com o quanto estas bandas já soavam tão pesadas e cabulosas na época.

BLACK SABBATH


Ah vá!

Aquilo que conhecemos hoje como Heavy Metal existiria se o Black Sabbath não fosse uma realidade? Provavelmente sim. Mas, como a Matemática garante através do Princípio da Boa Ordem, alguém teve que receber as honras da inauguração e este alguém foi o Sabbath. Ainda, será que se outra banda tivesse criado o Metal, teria sido com tanto estilo e personalidade como os britânicos de Birmingham fizeram?

Há quem entenda que o Metal já havia aparecido antes do debut do Black Sabbath através de trabalhos do Cream, do Blue Cheer ou até mesmo pelos Beatles. Mas a grande maioria dos entendidos em Rock e Metal (eu incluso, apesar de este escritor estar longe de ser considerado um “entendido”) concordam que a pedra angular do Metal foi mesmo o primeiro álbum do grupo, lançado em 13 de fevereiro de 1970 pela gravadora Vertigo. Fato é que as músicas do debut traziam uma carga pesada na guitarrada de Tony Iommi, no baixo furioso de Geezer Butler, na bateria agressiva de Bill Ward e nos vocais ríspidos de Ozzy Osbourne. A faixa-título em particular é tão negra e revolucionária que conseguiu colocar o mundo da música de ponta-cabeça graças ao riff tocado em trítono, a “Nota do Diabo”, a atmosfera horripilante e as letras que evocam o Tinhoso, algo sem precedentes na história da Música. O Doom Metal nasceu aí e foi devidamente lapidado nos próximos álbuns do Black Sabbath desde então, influenciando assim uma legião de músicos e bandas de Doom e Stoner por anos a fio até hoje. E contando.



PENTAGRAM


Apesar de o Pentagram ser constantemente lembrado junto a outros nomes como pioneiros do Doom oitentista, já emancipado, a verdade é que a banda do caricato Bobby Liebling viveu a sua primeira encarnação durante vários intervalos dos anos 70. O grupo não alcançou a devida fama naquela década por conseguir somente lançar uns poucos singles, consequências de alguns péssimos relacionamentos envolvendo empresários e os abusos de alucinógenos por parte de Liebling. O reconhecimento só veio na segunda encarnação do grupo, durante os anos 80 e já com o peso pesado Victor Griffin nas guitarras, egresso do Death Row. Mas o fato de ter que dividir essa fama com Saint Vitus e Trouble, além de outros aspectos, não os fez atingir o estrelato que os aguardava ainda nos anos 70.

O Pentagram foi fundado em 1971 no estado da Virginia através de Liebling e do baterista Geof O'Keefe. A banda surgiu como uma promessa de resposta americana aos ingleses do Black Sabbath, juntamente com os nova-iorquinos do Sir Lord Baltimore, e qualidade para tal posto a banda tinha de sobra. O principal trabalho lançado pelo Pentagram naquela década foi o Bias Recordings Studio, uma demo que trouxe clássicos da banda como Forever My Queen, When The Screams Come e Review Your Choices. Várias composições da primeira encarnação do Pentagram foram regravadas nos álbuns lançados a partir dos anos 80. Em 2002 o grupo lançou First Daze Here (The Vintage Collection), uma coletânea de 12 raridades e faixas perdidas dos anos 70 em versão remasterizada. Ainda havia mais material para desenterrar; o segundo lote de raridades setentistas do Pentagram foi lançado em 2006 sob o nome First Daze Here Too. Em ambas as coletâneas, percebe-se o quanto o Pentagram foi influenciado pelo Black Sabbath tanto nas músicas mais animadas quanto nas faixas mais soturnas, os Dooms, como a própria Forever My Queen e seu riff cinzento, a charmosa When The Screams Come e a fúnebre Be Forewarned.



BEDEMON

Uma das formações recentes do Bedemon, com a presença de Scott "Wino" Weinrich (à esquerda)

Pesadíssimo! É assim que podemos definir o som da banda Bedemon, que, tal como o Pentagram, passou por duas encarnações: uma entre 1973 e 1974, com um brevíssimo retorno em 1979, e uma segunda encarnação a partir de 2001.

Na fase setentista, a banda também contava com Bobby Liebling nos vocais e com Geof O’Keefe na bateria, que se faziam acompanhar de Mike Matthews no baixo e Randy Palmer nas guitarras. Este Randy Palmer também andou tocando no Pentagram por dois períodos, um na primeira encarnação e outro na segunda, perto do fim dos anos 80.

Todas as músicas gravadas pelo Bedemon naquele período só viram a luz do dia em 2005, quando do lançamento da coletânea Child Of Darkness: From The Original Master Tapes. O que esse trabalho revelou ao mundo era uma banda de som soturno, sujo, negro e pesado, como nenhuma outra fazia na época. A baixa qualidade das gravações só reforçou a poeira em cima das músicas. É tanta poeira que é possível tatear as músicas e constatar as cascas de sujeira. O grupo voltou a ativa em 2001 através da iniciativa do músico e jornalista Perry Greyson, que tratou de contactar e de reunir os ex-integrantes Palmer, Keefe e Matthews. Um álbum de inéditas foi lançado em 2011, Symphony Of Shadows, que contou com os vocais de Craig Junghandel.




STONE AXE


Essa aqui habita nas catacumbas plúmbeas da história do Rock e de lá nunca saiu. Quem quiser conhecer o Stone Axe, desça rumo a escuridão onde a luz nunca ousou penetrar.

O Stone Axe surgiu das cinzas do Josefus e existiu entre 1971 a 1972 na cidade de Houston, no Texas. Após o fim do Josefus, o vocalista Pete Bailey, o baixista Ray Turner e o baterista Jerry Ontiberoz receberam o guitarrista “Wolf” Mike Long para formar o Stone Axe. O único lançamento oficial do grupo foi o single Slave Of Fear/Snakebite, de 1971. A primeira faixa em particular apresenta algo que o Black Sabbath começaria a fazer naquele mesmo ano: afinações baixas nas guitarras. Isso somado ao ritmo lento e as influências de Psicodélico criou um som pesado, soturno e melancólico, que ficou escondido nas areias do tempo. O fim precoce do Stone Axe ensejou o retorno do Josefus em 1972. Até hoje o grupo teima em existir apesar das várias idas e vindas. Mas o blog The Atmosphere faz questão de desenterrar, limpar a poeira e apresentar este souvenir para você.



FLOWER TRAVELLIN’ BAND


Esta banda vem do Japão! Sim, o Doom Metal também aprontou das suas durante os anos 70 na Terra do Sol Nascente. O Flower Travellin’ Band foi a continuação natural do Yuya Uchida & The Flowers após uma reformulação da formação do grupo e a adoção de um novo direcionamento musical. Em seu segundo álbum, Satori, lançado em 1971, Uchida e companhia mostraram um som que lembrava muito o Black Sabbath dado o peso das guitarras, os ritmos lentos e as melodias sombrias. Ou seja, temos em Satori a receita básica do Doom Metal. As características pétreas do estilo são melhor percebidas nas faixas ímpares do álbum, Satori Part I, Satori Part III e Satori Part V, além da faixa-bônus Map. Ainda, por influência do guitarrista Hideki Hishima, o grupo usava de forma magnifica arranjos criados com escalas árabes, algo que se tornaria marca registrada do Solitude Aeturnus nos anos 90. O Flower Travellin’ Band existe até hoje, mesmo que sem seu membro-fundador e cérebro criativo da fase áurea do grupo, Yuya Uchida. Outro destaque do álbum Satori são as interpretações viscerais do vocalista Joe Yamanaka.



Por hoje é isso. Existem outros exemplos, mas estes que aqui foram lembrados cumprem bem o papel de apresentar a você o Doom setentista. É como este redator costuma falar sempre que as oportunidades permitem: o Doom Metal é o gênero mais antigo, o Primeiro, aquele que carrega a essência raiz do Heavy Metal. Da metade dos anos 80 em diante o Doom Metal se metamorfoseou e se hibridizou com outros gêneros para se transformar em vários formatos distintos como Epic Doom, Death Doom, Metal Gótico, Sludge, Funeral Doom e etc. Isso tudo sem considerar o Stoner Rock/Stoner Metal, que pode ser considerado um irmão do Doom Metal. Que o Gênero Maldito sobreviva nos calabouços renegados do Rock por muito mais tempo. De preferência, mantendo e perpetrando para toda a posteridade o negrume perturbador da imagem que abre esta matéria.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Gotham - Anjos e Demônios: confira como foi a edição 2019 da maior feira gótica de Fortaleza



Gotham - Anjos e Demônios
Havana 1884 - Fortaleza/CE (19/10/2019)
Imagens: Karen Cintra e Daniel Dutra

Texto: Bruno Rocha



Estabilizado como o evento gótico mais importante de Fortaleza, a feira Gotham, organizada anualmente pela Underdark Produções, viveu a sua quarta encarnação no último dia 19 de outubro, pela primeira vez no Havana 1884, um dos mais importantes abrigos da música alternativa da capital cearense dos últimos tempos. Desta feita o Gotham foi alcunhado como “Anjos e Demônios”, de modo a abrir espaço para que os mais variados e contrastantes espectros da arte obscura pudessem se fazer presentes no evento.

A feira Gotham reúne não só apresentações musicais, como também agrega outras formas de expressões como dança, fotografia, artes plásticas, exposição e feira de livros, lojinhas de souvenirs relacionados ao tema da feira e muita, muita gente sedenta por esse tipo de arte. O público que compareceu ao Gotham – Anjos e Demônios superou as expectativas, lotando o Havana 1884 e embelezando mais ainda o brilho do evento.

O Havana 1884 se localiza no bairro Benfica, quase na fronteira com o Centro de Fortaleza. Por ser um bairro universitário (no Benfica se localiza um dos campi da Universidade Federal do Ceará), lá se localizam muitas atrações para os jovens, tanto de documento quanto de alma, como bares, pubs, casas de shows e etc. Com seus ares boêmios, o Benfica é um prato cheio para as mais variadas matizes de arte e de cultura. Logo, as noites de sábado daquele bairro são sempre movimentadas. Não foi diferente na noite do dia 19 de outubro nas portas do Havana 1884. Por volta das 19:00, uma parte do público gótico que lá já estava se reunia no pequeno alpendre que existe do lado de fora da casa, completamente a mercê de uma imensa poça d’água que inundava a avenida bem em frente ao Havana e que se mexia violentamente cada vez que um carro ou um ônibus passava por cima. Este redator que vos escreve foi uma das vítimas do famigerado lago urbano. Pelo menos, pude acompanhar o evento de banho tomado, mas não necessariamente cheiroso.

Enquanto isso, o público que estava no alpendre aguardava a abertura dos portões dando os últimos retoques em seus visuais, tentando se distrair com seus estoques abarrotados de maquiagens, sombras e laquês. Finalmente, os portões se abrem as 19:35 com Leo de Oliveira, um dos organizadores do evento, chegando ao alpendre externo convidando as corujas e os morcegos para adentrarem ao mundo de Gotham – Anjos e Demônios.

Uma vez lá dentro, um dos DJ’s anfitriões escalados para a noite, Batastrophe, estava coordenando a trilha sonora para esquentar aqueles que ao recinto adentravam. Pouco tempo após a abertura da casa, já subiam ao palco os integrantes do Dark Hertz Transmission, que tinha a missão de abrir os trabalhos musicais do Gotham. A banda formada por Leo de Oliveira (vocais, sim, o organizador), Caio Mota (contrabaixo) e Erik Castro (guitarras, teclados, samplers) subiu ao palco e às 20:00 deu início ao seu animado show. O trio apresentou seu curto set recheado de composições inspiradas nas mais variadas matizes do Pós-Punk e do Synthpop, incluindo aí o single Carmilla, que fora divulgado um dia antes do evento. Muito a vontade em cima do palco, Leo de Oliveira intercalava danças bastante animadas em meio a sua performance vocal. Erik Castro se desdobrava com muita perícia em seus sintetizadores enquanto Caio Mota destilava melodias em seu contrabaixo de timbre agudo e cheio de efeitos. Em um dado momento, Leo de Oliveira desceu do palco para dançar junto ao público, deixando Erik com a responsabilidade de cantar Blue Monday, clássico do New Order. E esta não seria a última vez que o grupo de Bernard Sumner seria lembrado naquela noite.

Dark Hertz Transmission. Foto: Daniel Dutra

Leo de Oliveira (Dark Hertz Transmission). Foto: Daniel Dutra.

Caio Mota. Foto: Daniel Dutra.

Terminada a apresentação do Dark Hertz Transmission, Erik e Caio mal tiveram tempo de descer do palco e já voltaram a ocupar suas posições lá, pois eles também são integrantes do Maldigo, a próxima atração daquela noite de Gotham. Além deles dois, o Maldigo é formado pela vocalista Juliana Weyne, presença frequente em eventos de discotecagem como DJ Juju e também em diversas bandas-tributo. A proposta musical do Maldigo é um Pós-Punk/Gothic Rock com influências de música árabe, que reflete o conteúdo histórico adotado pelas letras. A banda também executa alguns covers ao vivo e foi exatamente um deles que deu início ao set do grupo, Dark Entries, do Bauhaus.

Chamava a atenção a indumentária e a maquiagem usada por Juliana em sua apresentação, especialmente uma pintura vermelha em sua testa que era adornada por uma lua crescente em branco. Erik Castro desta vez empunhava uma guitarra, mas ele não saiu de frente de sua estação sintetizadora, alternando-se entre os dois instrumentos quando convinha. Caio Mota continuava em sua mesma abordagem melódica com seu contrabaixo. Após tocarem as autorais Babylon The Great e Of Bones And Hazy Thoughts, a banda emendou um cover de The Hanging Garden, do The Cure. Juliana, com seus vocais expressivos, mostrava versatilidade para cantar tanto as músicas autorais do Maldigo quanto os covers, todos eles registrados originalmente por vozes masculinas. Durante a execução de Treasures In Aramaic Tears, Juliana põe uma tiara que lembrava uma coroa e se postou em cima de um suporte enquanto a dançarina Angel Kali entrava em ação apresentando uma magnânima performance de dança do ventre que durou alguns minutos por cima do instrumental guiado por Erik e por Caio. Ao seu final, Angel Kali se prostrou perante Juliana como ela fosse uma divindade, que estendeu a sua mão afim de receber aquela dança como uma oferenda. Quando o Maldigo deu início a At The Gates Of Babylon, os samplers de Erik Castro resolveram entrar em greve, impedindo assim a execução da mesma. Prontamente o trio não deixou o público só na vontade e mandou mais um cover, desta vez para Romeo’s Delight, do Christian Death, encerrando mais uma belíssima apresentação do grupo. Ambas as bandas mostraram nesta noite porque despontam como dois dos principais nomes do Pós-Punk fortalezense dos últimos tempos.

Maldigo. Foto: Karen Cintra

Juliana Weyne. Foto: Karen Cintra.
Erik Castro. Foto: Daniel Dutra.

Pausa nas apresentações musicais, era hora de averiguar as exposições fotográficas que estavam sendo exibidas no Gotham. Nesta hora o Havana 1884 já estava lotado, como era de se esperar tendo em vista a importância e a magnitude do Gotham para a cena gótica de Fortaleza. De repente, boa parte do público abria um círculo perto do palco para acompanhar a apresentação de dança Tribal Fusion do quarteto Artemísia, que apresentava sua performance iluminada por velas que elas mesmas trouxeram ao ambiente. Enquanto elas se apresentavam em frente ao palco, o grupo paraibano Electro Bromance já se encontrava em cima do mesmo arrumando seu equipamento eletrônico composto por sintetizadores, MacBooks e uma guitarra.

Ao fim da apresentação do grupo Artemísia, rapidamente o Electro Bromance deu início ao seu set. Uma das atrações mais esperadas do evento, o duo formada por Wilame AC (vocais, sintetizadores, programação) e por Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores, programação, vocais) veio a Fortaleza direto do estado da Paraíba para mostrar ao público local seu Synthpop pesado e futurista. Com músicas oriundas de seu mais recente álbum de estúdio We Are Like A Time Bomb (2017) e de outros singles já lançados, incluindo aí Supermodel (2017), o Electro Bromance colocou todo o público presente no Gotham para dançar com uma apresentação empolgante e eletrizante. Destacavam-se em meio ao público dois cybergoths que dançavam um de frente para o outro com feixes luminosos ao ritmo do Futurepop da dupla paraibana. O som a frente do palco estava ótimo e cada instrumento soava bastante nítido aos ouvidos, mas para os fundos da casa o som estava baixo.

Hansen se desdobrava entre os seus sintetizadores e sua guitarra de timbre altamente distorcido, além de ter que assumir os vocais em alguns momentos do concerto. Wilame era um show a parte; ora em sua estação, ora somente com o microfone, ele incendiava mais ainda o público ali presente com uma forte presença de palco que misturava danças e poses. E você lembra que em algum parágrafo acima eu disse que o New Order seria mais uma vez lembrado nesta noite? Pois bem, o Electro Bromance tratou de homenagear a banda britânica apresentando a sua versão para Bizarre Love Triangle. Assim foi a destruidora apresentação da dupla paraibana em terras alencarinas e que deixou muita saudade ao público.

Electro Bromance. Foto: Karen Cintra.


Wilame AC. Foto: Karen Cintra

Hansen Pessoa. Foto: Karen Cintra

Em pouco tempo as estações de Wilame e de Hansen foram desmontadas e rapidamente a outra grande atração do evento subiu ao palco, o Plastique Noir. Apesar de serem mais conhecidos “do que farinha”, como se diz no Ceará, a qualidade musical e o profissionalismo do trio sempre são indicativos de que um show do grupo será mais uma grande apresentação, donde sempre um grande e fiel público se reúne para vê-los. A novidade que o Plastique Noir estava divulgando no momento era o split As Above, So Below, que o grupo lançou junto a banda paulista Das Projekt, onde uma banda toca músicas da outra num total de dez faixas, trabalho lançado pela Wave Records.

O trio formado por Airton S. (vocais, programações), Danyel Noir (guitarras) e Deivyson Teixeira (contrabaixo) chegou arrebentando tudo com 24 Hours Awake, faixa-título do álbum mais recente lançado em 2014, e com Phantom In My Stereo. Em seguida veio uma nova música, a maravilhosa Asleep In The Night Train, que dá indícios de que o novo trabalho que o Plastique Noir está gravando virá com uma carga mais forte ainda de negrume e melancolia. Após uma acalmada com a infalível Emerging Rats e uma acordada geral com Inconstancy, o trio apresentou Christine, do Das Projekt, uma das faixas registradas no split mencionado no parágrafo anterior. Logo após veio I Disappear, que teve a missão de preparar o público para a reta final arrebatadora com a levanta-público Rose Of Flash And Blood (não se ouve os vocais de Airton quando o público esbraveja o refrão), a clássica e maldosa Creep Show (onde o público aproveitou a levada de bateria para levantar um coro maravilhoso contra o atual presidente da república) e o encerramento definitivo com mais uma música nova, Catedrais em Chamas.

Junto a “definitivo”, esse encerramento foi inesperado. Meio que sem mais nem menos, o Plastique Noir começou a desmontar seu equipamento, o que deixou parte do público que esperava por um set mais longo visivelmente com cara de tacho. Mas a culpa disso não foi da banda e nem da produção. Os fiscais da Prefeitura de Fortaleza e a Polícia sempre pegam pesado com relação aos horários de som alto em nossa cidade, o que já ocasionou diversos problemas parecidos em eventos anteriores dos mais variados estilos musicais. Mas o que foi apresentado pelo Plastique Noir nesta noite saciou muito bem, como sempre, o fiel público que chegou para vê-los e para apreciar mais uma edição bem-sucedida do Gotham.

Airton S. e Deivyson Teixeira. Foto: Daniel Dutra.

Danyel Noir. Foto: Daniel Dutra.
Este repórter precisou se retirar ao fim da apresentação do Plastique Noir e não pode conferir a apresentação dos renomados DJ’s paraibanos Xymox e Bat, além do outro anfitrião da noite, DJ Enceladus. Mas, dado tudo o que foi relatado aqui e muito mais, fica uma certeza: o Gotham se solidifica como um dos eventos góticos mais importantes quiçá do Brasil. A cena gótica local se mostra forte e presente, com organizadores e produtores que arregaçam as mangas para que tudo seja executado com a maior precisão e perícia possíveis (parabéns a todos da equipe Underdark Produções). Outro ponto a se destacar é a emergente onda de bandas que surgem em Fortaleza, especialmente nos últimos dois anos. Ficava difícil mencionar outra banda Gótica/Pós-Punk da cidade que não fosse o Plastique Noir. Agora, as apresentações de Dark Hertz Transmission e Maldigo, bem como de outros grupos que já tiveram a oportunidade de mostrarem seus promissores trabalhos ao vivo, provam que existe em Fortaleza um talento natural de seus músicos para a coisa, o que fará com que mais nomes daqui sejam cada vez mais reconhecidos. Para isso, é só manter o nível de profissionalismo e de garra apresentado até agora, pois o talento existe.

Vida longa ao Gotham!

Foto: Daniel Dutra.

Foto: Daniel Dutra.

Foto: Karen Cintra.

Foto: Karen Cintra.

Foto: Karen Cintra.

Foto: Karen Cintra

Foto: Karen Cintra.

Foto: Karen Cintra.

Foto: Karen Cintra
Foto: Karen Cintra

Foto: Karen Cintra.


Foto: Daniel Dutra
Foto: Daniel Dutra
Foto: Daniel Dutra
Foto: Daniel Dutra
DJ Xymox e DJ Bat. Foto: Daniel Dutra
Foto: Daniel Dutra
Foto: Karen Cintra
Foto: Karen Cintra