Está marcada para a próxima quarta-feira (01/07), amanhã, a próxima entrevista ao vivo do blog The Atmosphere! O convidado da vez
será o músico carioca Anderson Morphis, importante figura do underground
do Rio de Janeiro.
Morphis atualmente está a frente de vários projetos musicais,
tais como O Quarto de Helena (folk/darkwave), Bosque Lunar
(Medieval), Mortiferik (Death/Doom Metal) e Harmony Hate (Death
Metal). Em O Quarto de Helena, ele divide as responsabilidades do projeto com sua
esposa Andressa Costa e com Fabiano Sousa, conhecido pelo seu
trabalho a frente do Última Dança. Além de seus projetos musicais,
Morphis é o apresentador, juntamente também com Andressa, do programa Sons
do Apocalipse, que vai ao ar através da webrádio Soturna Sintonia.
Esses e outros assuntos serão destaques da conversa, que será conduzida pelo apresentador
de sempre, Bruno Rocha, o Escriba deste humilde blog.
A entrevista com Anderson Morphis acontecerá a partir das
19:00 em live no instagram do blog The Atmosphere. Não perca! Adentrem a
Atmosfera!
Entrevista com Anderson Morphis (O Quarto de Helena, Mortiferik)
Data: 01 de julho (quarta-feira) Horário: 19:00 Onde?: Instagram do blog The Atmosphere ( @blogtheatmosphere )
O Paradise Lost lançou recentemente o seu
décimo-sexto álbum de estúdio, Obsidian, pela gravadora Nuclear Blast e
com distribuição brasileira pela Shinigami Records. Obsidian representa
um marco na discografia da banda formada por Nick Holmes (vocais), Gregor
Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen Edmondson
(contrabaixo) e Waltteri Wäyrynen (bateria) por ser um dos registros
mais pesados e melancólicos do grupo nos últimos tempos. Coincidentemente, este
álbum foi lançado num dos períodos mais negros e tristes da história recente da
humanidade com a pandemia de Covid-19. Em entrevista exclusiva ao blog THE ATMOSPHERE..., o guitarrista e principal compositor Gregor Mackintosh deu detalhes
sobre o novo álbum do Paradise Lost, falou o que vem fazendo durante o
isolamento social e explicou seu leque de influências oriundas do Gothic Rock,
estilo que apareceu com proeminência em Obsidian, tudo isso dentre outros
assuntos.
Olá, Gregor! Em primeiro lugar, gostaria de te agradecer por
sua disponibilidade para responder estas perguntas e espero que você esteja bem
e com saúde. Como tem sido sua rotina e seu trabalho durante a pandemia? Este período
negro e de incertezas pelo qual o mundo passa tem influenciado você
musicalmente de alguma forma?
Gregor Mackintosh: Eu estou bem, obrigado. A maior
parte do meu tempo durante a pandemia tem consistido em promover o novo álbum
do Paradise Lost. Além disso eu tenho lido muitos livros, assistido muitos
filmes e ouvindo muita música. Criativamente eu comecei a trabalhar em novas composições
para meu projeto paralelo, o Strigoi. Somente o tempo nos dirá se esse material
virá inspirado por elementos da atual situação.
Falemos então sobre o novo álbum. Obsidian apresenta, de
uma maneira mais evidente comparado com os outros álbuns lançados na última
década, elementos de Rock Gótico oitentista. Em vários momentos podemos perceber
arranjos que nos remetem a The Sisters Of Mercy, The Cure e Dead Can Dance, não
apenas na música Ghosts, onde essas influências estão mais óbvias. Esse
direcionamento foi planejado antes que os trabalhos para a concepção de
Obsidian começassem?
Gregor: Influências não foram discutidas antes que começássemos
a compor para o álbum. Nós apenas concordamos que deveria ser mais variado em
relação ao lançamento mais recente (Medusa, 2017). Nós trabalhamos em uma música de cada vez e
isto acabou nos levando a diferentes caminhos. O que me inspira em qualquer dia
é o pontapé inicial para começar uma música, mas à medida em que trabalhamos
nela, ela pode seguir por um caminho ou pode seguir por outro. Nós temos várias
versões diferentes para cada música em qualquer momento e escolhemos depois por
qual caminho seguir. Isso fez com que o processo de composição acabasse por ser
divertido, apesar de que isso soe de qualquer forma, menos divertido.
A performance de Waltteri Wäyrynen na bateria me chamou
bastante a atenção. Talvez este tenha sido o mais técnico trabalho de bateria
da história da banda, com várias conduções nos tons, viradas criativas e “ghost-notes”
no caixa. Como compositor principal, você o orienta como você quer que a
bateria soe em cada música ou ele tem completa liberdade para criar?
Gregor: Eu costumo ter a bateria bem próxima do que
eu quero que ela seja, de modo que ele entende isso ao mesmo tempo que tem alguma
liberdade artística. O melhor sobre Waltteri é que sua tocada na bateria pode
cobrir vários estilos diferentes. Isto torna as coisas muito fáceis pra mim
quando eu tento explicar o que eu estou buscando em uma música. Sutileza e
dinâmica estavam bem em evidência na minha mente quando conversamos sobre isso
antes das gravações.
Este é o terceiro álbum do Paradise Lost gravado em parceria
com o produtor Jaime Gomez Arellano no Orgone Studio, o qual ele é dono. No
passado vocês também trabalharam com Jens Bogren, Rhys Fulber e e Simon Efemey,
dentre outros. Como tem sido trabalhar com Jaime e o quão importante é para o Paradise
Lost, uma banda que preza por uma sonoridade bastante característica e repleta
de influências, ter um produtor de fora da banda para direcionar as gravações além
dos aspectos técnicos?
Gregor: Tivemos uma grande experiência de aprendizado
com cada produtor com quem nós trabalhamos. Rhys realmente nos trouxe foco e crença
em nós mesmos. Jens nos ensinou sobre trabalhar com precisão. Nos anos mais recentes nós não
precisamos realmente de um produtor para nos guiar. Nós apenas precisávamos de
alguém para captar o som da banda com o melhor equipamento e com um grande
entendimento do que nós estávamos tentando alcançar. E Gomez tem sido o cara
para este trabalho. Ele é realmente talentoso em ajudar o artista a expressar o
que eles precisam e não somente em focar na técnica.
Aaron Aedy, Stephen Edmondson, Nick Holmes, Gregor Mackintosh e Waltteri Wäyrynen
De Dooms pesados até Gothic Rock’s animados, o Paradise
Lost explorou em Obsidian vários elementos musicais que construíram a discografia
da banda durante as últimas três décadas sem abrir mão da melancolia, do peso,
da miséria e de certa imponência em cada uma das músicas. Como vocês lidam com
criar uma música tão homogênea e com uma forte personalidade mesmo com a grande
variedade de influências com as quais vocês trabalham?
Gregor: Eu acho que isto vem de anos aprimorando
nosso trabalho. Nós compomos e tocamos de um modo que não é mais de uma maneira
consciente. Eu amo aprender, experimentar e me inspirar pelas mais diferentes
coisas, mas quando tudo isso entra no caldeirão do Paradise Lost, o resultado é
único de uma certa maneira.
No primeiro press-release divulgando Obsidian, a banda
declarou que este álbum seria o mais eclético em muito tempo. Dado o
direcionamento mais pesado que o Paradise Lost tomou nas últimas duas décadas,
mais notadamente na última, eu não esperava que arranjos mais acessíveis, como
os vistos em Host, por exemplo, estariam de volta com vocês. Com o Vallenfyre e
agora com o Strigoi, você tem extrapolado sua vontade de tocar um Death Metal
cru e sujo, que é outra forte influência de suas composições. Você planeja ou
pelo menos tem vontade de tocar algo mais direcionado ao Gothic Rock ou ao
Darkwave novamente em algum projeto paralelo no futuro, seja de um modo mais
orgânico lembrando The Cure ou mesmo com um direcionamento eletrônico como
visto em Host?
Gregor: Eu estive pensando em fazer isso durante
vários anos mas eu nunca senti que havia chegado a hora certa. Eu tenho várias partes
de música nesse estilo que eu fui criando ao longo dos últimos 20 anos, mas eu
nunca estive convicto que essas ideias eram boas o suficiente. Talvez algum dia
eu encontre inspiração para completar um álbum nesse estilo.
Eu imagino que existem diferentes períodos em sua vida
onde você tem mais vontade de ouvir Death e Doom Metal e outros onde sua vontade
de ouvir Gothic Rock é mais forte. Como guitarrista e compositor, quais músicos
da cena Post Punk/Gótica oitentista você mais gosta de ouvir e como eles te
influenciam na hora de compor e de tocar?
Gregor: Tem vários. Siouxsie and the Banshees, The
Sisters of Mercy, Southern Death Cult (The Cult), Christian Death, a fase inicial
do The Cure, Bauhaus, Depeche Mode, Dead Can Dance... Todas estas bandas tem
diferentes elementos que eu admiro e que me inspiram de várias maneiras. Lisa
Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) são os mestres da fluidez e da dinâmica,
indo do mais silencioso sussurro até o crescendo mais bombástico. Gore (Martin,
Depeche Mode) compõe os sucessos mais pegajosos. Robert Smith (The Cure) e
Siouxsie me ajudaram a compreender as sutilezas para criar paisagens sonoras.
Sisters me mostrou que simplicidade pode as vezes ser melhor. Mas todas estas
bandas pintam imagens com suas músicas e é isto que eu almejo fazer.
Para finalizar esta entrevista, mate-me uma curiosidade a
qual você é uma das únicas pessoas no mundo que podem fazer isso. Exceto pelo
baterista, o Paradise Lost mantém a mesma formação desde o começo há 32 anos
com você, Nick, Aaron e Stephen. Qual é o segredo para manter uma formação tão
longeva e conectada apesar de tantos acontecimentos e de mudanças de
sonoridade?
Gregor: Nós compartilhamos do mesmo estilo de vida ao
longo de nossos crescimentos. Viemos de uma classe trabalhadora, do Norte da
Inglaterra, com estas perspectivas humildes e com um senso de humor autodepreciativo.
Nenhum tipo de ego pode sobreviver neste tipo de ambiente e o ego é o que
costuma acabar com várias bandas.
O blog agradece a Karina Somacal e a equipe Shinigami Records pelo valioso apoio.
OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)
Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)
Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria
Texto: Bruno Rocha
O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que
possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender
do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo
chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo
de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em
cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse
tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele
serve de referência para ninguém menos que David Bowie.
Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise
Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum
entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza
que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes.
Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise
Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990)
até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999),
sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta
onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a
banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh
(guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele
nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube
filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais,
misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente
com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa
única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.
Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com
seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no
último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami
Records.
Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada
elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente
e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost
resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos
integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor
Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian,
eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em
muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além
disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian.
Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas
linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves
profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira
lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera
soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas
bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som,
rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri
Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio
crítico.
Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax
pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim
Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os
sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão
parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo
cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com
guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete
cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede
passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes
de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais
empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que
todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o
ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o
Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock
Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas
pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes
canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas.
Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria
ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.
Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano
imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de
te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de
guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy
servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos
melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez
mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na
pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês
com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost
notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity
começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar
conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove
das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a
alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum
com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de
Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo
de Edmondson a única segurança sonora.
As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo
dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies
Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a
ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve
enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um
timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável
e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras
prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício
de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não
abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão
lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black
Sabbath.
Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian,
constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua
proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que
Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das
outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes”
musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim
como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal
de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The
Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me
pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri
Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e
capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que
eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica
absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda
de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver
bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse
Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma
bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e
viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee
Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night,
um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na
versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como
faixa-bônus foi muito bem entregue.
A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez
Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação,
que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência
das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se
destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo
maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato
artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar
visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro
em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do
outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente.
Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do
grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de
Halifax ainda podem preparar para o futuro.
Os britânicos do Paradise Lost estão prestes a lançar
seu novo álbum de estúdio, Obsidian, o qual será o décimo-sexto full-length
de sua discografia. Para divulgar o novo álbum, a banda disponibilizou recentemente
seu segundo single, Ghosts, o qual você poderá ouvir no player mais
abaixo.
Em Ghosts, o Paradise Lost volta a mostrar com força
suas influências de Rock Gótico como não se vê há algum tempo. Sem esquecer o
peso que a banda trouxe de volta desde meados dos anos 2000, o baixo com
flanger de Stephen Edmondson, o fraseado de guitarra melancólico de Gregor
Mackintosh e os vocais graves de Nick Holmes construíram uma peça gótica que nos
remete a The Sisters Of Mercy. Aliás, sempre que têm a oportunidade, os
integrantes do Paradise Lost fazem questão de mencionar que as bandas góticas
oitentistas são algumas das principais influências na sonoridade típica da
banda.
Quando a data de lançamento de Obsidian foi
divulgada, o Paradise Lost divulgou que o novo álbum será o mais eclético lançado
pela banda nos últimos tempos, indo de músicas Doom pesadíssimas até Rock
Gótico. Cabe lembrar que ao longo de sua história que já atravessa três
décadas, os ingleses passearam por várias diferentes sonoridades com muito
louvor, o que embasa fortemente as intenções do grupo de mesclar várias delas
em um só registro.
Obsidian tem data de lançamento prevista para o dia 15
de maio pela gravadora Nuclear Blast. Paradise Lost é Nick Holmes
(vocais), Gregor Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen
Edmondson (contrabaixo) e Valtteri Wäyrynen (bateria). Confira nos
players a seguir a nova música Ghosts e também Fall From Grace, o primeiro single
divulgado de Obsidian e que ganhou videoclipe.
Participação:
Alexandre Carneiro - guitarra em Praxis
Texto: Bruno Rocha
Os cariocas do As Dramatic Homage estão de volta após
dois anos com um novo single, Praxis. Musicalmente, este single está conectado
ao anterior, Consternation (2018), como Praxis fosse uma
continuação, ou um epílogo, de Consternation, tendo em vista que o novo
single possui uma abordagem completamente introspectiva, quase que desprovida
de distorções e até mesmo de bateria.
Quando a banda surgiu, em 1999, a proposta de Alexandre
Pontes (vocais, guitarras, programação) e companhia era de praticar um
misto de Black e Doom Metal, algo que foi se tornando mais complexo e variado
com o passar dos anos até atingir um nível que os classifica hoje como um ato
de Metal Progressivo, apesar de elementos de Metal extremo, notadamente de Doom, terem sido retidos. Esta evolução musical foi necessária a fim de acompanhar
e emoldurar com precisão os questionamentos filosóficos e existenciais presentes
nas letras. Os arranjos mais ricos e introspectivos servem como um canal para
que os pensamentos sejam absorvidos com maior facilidade; junto a eles, as
passagens pesadas e mais velozes servem para nos lembrar que a banda toca, em
sua essência pétrea, Heavy Metal.
Porém, Praxis surge despido de quaisquer elementos
musicais de peso ou de distorções. As duas faixas que compõem o single são acústicas
e com acompanhamento somente de teclados tímidos, mas pontuais. ISRS, a
faixa instrumental que abre os trabalhos, traz um clima melancólico em sua
levada de violão e no timbre do teclado que o acompanha que fazem jus ao significado
de seu título (Inibidor Seletivo de Recaptação de Serotonina). Para quem não conhece,
“serotonina” é um neuro-transmissor que, dentre outras funções, possui
atividades relacionadas à regulação do humor. O déficit de serotonina no
organismo é um facilitador de desenvolvimento de doenças como a depressão.
A faixa-título traz em sua letra o conceito de “práxis”, usado
em diversos campos do conhecimento para definir a sequência entre finalidades
teóricas e os resultados práticos. Dentro da proposta filosófica do As Dramatic
Homage, o “práxis” é tratado como um estimulante para que as pessoas saiam de
seu comodismo e passem a agir para que novos e satisfatórios resultados aconteçam
em suas vidas. Musicalmente, a música me parece um encontro do 40 Watt Sun
com alguma banda Prog setentista, dado o andamento sofrido criado pelos violões
que contrastam com a beleza calmante do refrão. Uma distorção na verdade
aparece, em um curto solo de guitarra na metade, tocado pelo músico convidado
Alexandre Carreiro, antes que um trecho bastante lento no violão acompanhe um
teclado de timbre lúgubre. A interpretação de Alexandre Pontes nos vocais é tocante
e correta, somente com a ressalva de que ele poderia se aprimorar ainda mais na
pronúncia do inglês. Mas isto é algo que só importará a quem é fluente na
língua, pois a interpretação do cantor e a música em si falam conseguem falar
ao interior do ouvinte sem a obrigação de usar como vetor um idioma específico.
Praxis foi gravado no HCS Estúdio, no Rio de Janeiro,
e teve produção do próprio Alexandre Pontes, que soube dosar com clareza e
inteligência a participação de cada um dos instrumentos nas músicas de modo a
transmitir com clareza ao ouvinte a mensagem das mesmas. Para ilustrar com
tamanha precisão a mensagem que Praxis transmite, o artista Gustavo
Sazes elaborou uma arte capaz de simplesmente congelar aquele que o contempla.
Com Praxis, o As Dramatic Homage mostra mais uma vez
que é uma banda importante e diferenciada dentro do cenário nacional. Sem medo
de tentar e, principalmente, de ousar, a banda nos apresenta métodos criativos
não somente dentro de arranjos ou de harmonias, como também em suas letras que
instigam o ouvinte a pensar e a refletir. Praxis é mais uma peça do
complexo e inquieto quebra-cabeça do As Dramatic Homage. Um quebra-cabeça que,
verdadeiramente, não se acaba. Ele se estende até onde a imaginação alcança, e
a imagem que ele cria não segue necessariamente um padrão, mas obedece à
intepretação sonora e plástica daquele que o monta.
CRYPTOMASS - SUUM (Seeing Red Records, 2020) Tracklist:
01. Cryptomass
02. The Silence Of Agony
03. Creatures From The Vault
04. Funeral Circle
05. Burial At Night
06. The Failure Of Creation
07. Mass In The Catacomb
08. Claws Of Evil
09. Reaper Looks In Yours Eyes
Line-up:
Mark Wolf - vocais
Painkiller - guitarras
Joe Grave - contrabaixo
Fed Kemper - bateria
Texto: Bruno Rocha
O Doomzão clássico habita nas catacumbas e é lá onde ele expressa de forma pungente sua essência soturna e pesada. Tal qual uma criatura abissal que nunca conheceu a luz, ele necessita se cercar da escuridão para se desenvolver. O Doom clássico não é uma criatura arredia, mas não espere que ele saia de seu habitat para encontrar você – é você quem precisa descer às catacumbas para encontrá-lo; isto é, se assim você desejar. Por isso o Doom Metal não é para qualquer um.
Esta é a sensação que percebemos quando ouvimos a banda Suum, de Catanzaro, na Calábria italiana. O quarteto formado por Mark Wolf (vocais), Painkiller (guitarras), Joe Grave (contrabaixo) e Fed Kemper (bateria) acaba de lançar o seu segundo álbum de estúdio, Cryptomass, via Seeing Red Records. Em relação ao debut, Buried Into The Grave (2018), a maior mudança ficou por conta das estreias de Joe Grave e Fed Kemper na cozinha, pois a proposta musical se mantém a mesma: Doom Metal clássico, pesado, imponente, grandioso e mortal. Riffs criativos se juntam a bases esmagadoras e vocais expressivos onde elementos tanto do Doom épico ensinado pelo Candlemass quanto do Doom arrastado do Reverend Bizarre se misturam ao DNA típico do Metal italiano, produzindo um som com identidade e ao mesmo tempo com essência notória.
A sensação de estar ouvindo a música do Suum de dentro de uma caverna, ou de uma cripta, é altamente perceptível. E esta sensação provem não somente da belíssima e perturbadora arte de capa de autoria do próprio guitarrista Painkiller. Os riffs iniciais da faixa-título, que dá início aos trabalhos, vêm fortemente besuntados em reverb e echo, elementos que também são aproveitados fortemente nos timbres da bateria (em especial no bumbo) e nos vocais de Mark Wolf quando este se apresenta, potencializando sua performance altamente interpretativa como de quem conduz uma missa macabra. Ao final desta faixa, guitarras limpas se metem em meio as bases pesadas criando um final épico e doloroso. A proposta da faixa-título segue intacta em The Silence Of Agony, que já havia sido disponibilizada antes em formato de single. Em sua metade a música descamba para um ritmo mais rápido e as guitarras usam todo o poder de suas afinações baixar para destruir o Universo sob o comando de gritos guturais de Mark Wolf.
Creatures From The Vault vem num ritmo mais animado e groovado. As guitarras e o baixo são tão pesados que passam a impressão de que estão formando uma muralha fortificada e tão gigantesca que nem os judeus conseguiriam derrubar como derrubaram a de Jericó. O ritmo volta a ficar lento em Funeral Circle que, fazendo jus ao seu título, remete o ouvinte a uma colossal marcha fúnebre. A andamento e as linhas vocais de Wolf remetem imediatamente a banda norueguesa Fallen nesta faixa em particular. Após a marcha fúnebre, vem finalmente o enterro com Burial At Night, dona do refrão mais cabuloso de todo o álbum. O riff de The Failure Of Creation deixa claro para quem quiser ouvir que o baixo de Joe Grave está engordurado de distorção, o que reforça mais ainda o peso da seção de cordas do álbum. Hora de se sentar e de contemplar uma certa mansidão com Mass In The Catacomb, tocada toda com dedilhado na guitarra e com um som de chuva ao fundo.
Após o descanso, se prepare para ser massacrado novamente pelas duas últimas faixas. Claws Of Evil possui um riff asfixiante puxado por Painkiller e nos remete ao Candlemass antigo. O baixo de Joe Grave se revela líder novamente na parte mais enigmática do meio antes que um fade-out leve embora toda a maldição perpetrada por esta música. O álbum se encerra de forma magnânima e imponente com Reaper Looks In Your Eyes, dotada de várias mudanças de andamentos e uma seção maravilhosa ao final onde o monstro sai das cavernas para contemplar o pôr-do-sol escarlate e para sentir uma brisa fria no topo de alguma montanha próximo ao Mediterrâneo.
Daniele Perticalori foi o responsável por toda a parte técnica das gravações de Cryptomass e seu trabalho por trás dos botões foi essencial para a música do Suum, pois ele soube dosar as toneladas de efeito como distorções, reverbs e chorus em todos os instrumentos sem que nada soasse incompreensível ou embolado. A sujeira carregada é uma característica do Doom de Catanzaro e o modo que ela foi impregnada nas composições reforçou a repugnância do monstro que habita nas cavernas de lá. Ou seja, aquilo que mais atrai o fã de Doom.
Pouco após a conclusão das gravações do álbum, Mark Wolf deixou o posto de vocalista do Suum, cedendo a ingrata missão de substituí-lo a Misantrophil, que terá a missão de celebrar as missas negras com a mesma eloquência de seu antecessor daqui em diante. Mas Mark não deixou a banda sem um feito expressivo: o Suum manteve o alto nível apresentado no debut Buried Into The Grave e posiciona Cryptomass como sério candidato a figurar entre os melhores álbuns do estilo em 2020. Afinal, cravo ainda em fevereiro que será bastante complicado surgirem dez álbuns tão pesados, asfixiantes, agourentos e “casca-grossa” quanto este lançamento. Ouvir Cryptomass em sua plenitude é como se sentir esmagado por uma procissão macabra e gigantesca, que te carrega para as profundezas da escuridão, onde somente os mais soturnos morcegos habitam e cujo odor repugnante de suas ureias se misturam aos dos incensos jorrados por velas negras. É lá onde habita o Doom clássico. É lá onde habita o Suum. É lá onde ele deve viver para sempre.
Texto: Bruno Rocha
Se o Doom Metal possuísse uma versão plástica, esta seria a capa do debut do Black Sabbath, a imagem acima. Perturbadora em sua simplicidade autoral, esta imagem traduz com perfeição em forma de imagem o sentido real e estrangulador do estilo. Por falar neste álbum, o Heavy Metal nasceu através dele sob o signo do Doom. Na forma deste, o
debut do Black Sabbath foi composto e lançado oficialmente no dia 13 de
fevereiro de 1970, portanto, tendo completado 50 anos nesta semana que se
passou.
O Black Sabbath praticava em seus primeiros álbuns aquilo
que partir dos anos 80 seria conhecido como Doom Metal: um Heavy Metal
lento, com guitarras de timbres bastante distorcidos, atmosferas soturnas e
vocais desesperados. Portanto, não há exagero em afirmar que o Doom Metal
existe desde os anos 70, sendo, portanto, o primeiro subgênero de Metal a
existir. Se formos considerar os outros gêneros que começaram a se emancipar no
fim dos anos 70 para os anos 80, como Thrash, Death, Black, Progressivo, Power
e outros, o Doom é aquele que ainda carrega a essência raiz com a qual o Metal
foi gerado por Tony Iommi e cia.
O próprio Black Sabbath é constantemente lembrado como pai tanto
do Heavy Metal quanto do Doom Metal, mas eles não eram a única banda a praticar
o estilo na época. Apesar de a crítica massacrar aquele Rock encapetado e feio que
os Sabbath praticavam, a banda rapidamente adquiriu popularidade no underground
e cresceu a ponto de alcançar a fama. Tão logo seus primeiros trabalhos
chegaram aos ouvidos dos fãs de Rock do mundo todo, outras bandas foram
surgindo inspirados por aquele Rock negro e pesado. Também carregando o cheiro
do Rock Psicodélico e ocultista, as bandas que praticavam Doom nos anos 70
mesclavam a brisa psicodélica com as distorções pesadas. Além disso, não seria muito
auspicioso falar de temas como ocultismo fazendo Rock bonitinho, em tons maiores
e timbres limpos, não é?
Antes de prosseguirmos, é preciso deixar claro um detalhe
que, apesar de parecer óbvio, é de suma importância neste artigo. Não é que as
bandas citadas nesta matéria eram genuinamente bandas de Doom Metal. Este entendimento
só veio a existir a partir da década seguinte. Indo mais além, nem sequer o
termo “Heavy Metal” estava estabelecido na época em questão. O ponto aqui é que
algumas bandas já tocavam de forma clara em algumas músicas ou trabalhos aquilo
que a partir dos anos 80 viria a ser batizado como Doom Metal. Outro detalhe
que complementa este primeiro é que o que compreendemos hoje como qualquer
outro gênero de Metal não era praticado no mesmo período. Bandas como Judas Priest,
Motörhead e Accept aceleraram e tornaram mais melódicos (este segundo adjetivo
não se aplica tanto ao Motörhead) o Metal na segunda metade dos anos 70 e
acabaram por influenciar outros gêneros de Metal que foram surgindo a partir do
começo dos anos 80, somente.
O Doom Metal emancipou-se como gênero de Metal na era
oitentista graças a bandas como Saint Vitus, The Obsessed, Trouble - estas
americanas - Pagan Altar e Witchfinder General, estas britânicas oriundas da
NWOBHM. Depois veio o Candlemass, o nome mais bem sucedido do estilo, inaugurando
o segmento Epic Doom. Todavia, como já dito, o estilo já era praticado como tal
nos anos 70. Vejamos a seguir alguns poucos nomes que se enquadram no Doom
Metal setentista. E se prepare: se você não conhece alguns destes nomes, vai se
surpreender com o quanto estas bandas já soavam tão pesadas e cabulosas na
época.
BLACK SABBATH
Ah vá!
Aquilo que conhecemos hoje como Heavy Metal existiria se o
Black Sabbath não fosse uma realidade? Provavelmente sim. Mas, como a
Matemática garante através do Princípio da Boa Ordem, alguém teve que receber
as honras da inauguração e este alguém foi o Sabbath. Ainda, será que se outra
banda tivesse criado o Metal, teria sido com tanto estilo e personalidade como
os britânicos de Birmingham fizeram?
Há quem entenda que o Metal já havia aparecido antes do
debut do Black Sabbath através de trabalhos do Cream, do Blue Cheer ou
até mesmo pelos Beatles. Mas a grande maioria dos entendidos em Rock e
Metal (eu incluso, apesar de este escritor estar longe de ser considerado um “entendido”)
concordam que a pedra angular do Metal foi mesmo o primeiro álbum do grupo,
lançado em 13 de fevereiro de 1970 pela gravadora Vertigo. Fato é que as músicas
do debut traziam uma carga pesada na guitarrada de Tony Iommi, no baixo furioso
de Geezer Butler, na bateria agressiva de Bill Ward e nos vocais
ríspidos de Ozzy Osbourne. A faixa-título em particular é tão negra e
revolucionária que conseguiu colocar o mundo da música de ponta-cabeça graças ao
riff tocado em trítono, a “Nota do Diabo”, a atmosfera horripilante e as letras
que evocam o Tinhoso, algo sem precedentes na história da Música. O Doom Metal
nasceu aí e foi devidamente lapidado nos próximos álbuns do Black Sabbath desde
então, influenciando assim uma legião de músicos e bandas de Doom e Stoner por anos a fio até hoje. E contando.
PENTAGRAM
Apesar de o Pentagram ser constantemente lembrado junto a
outros nomes como pioneiros do Doom oitentista, já emancipado, a verdade é que
a banda do caricato Bobby Liebling viveu a sua primeira encarnação durante
vários intervalos dos anos 70. O grupo não alcançou a devida fama naquela
década por conseguir somente lançar uns poucos singles, consequências de alguns
péssimos relacionamentos envolvendo empresários e os abusos de alucinógenos por
parte de Liebling. O reconhecimento só veio na segunda encarnação do grupo,
durante os anos 80 e já com o peso pesado Victor Griffin nas guitarras,
egresso do Death Row. Mas o fato de ter que dividir essa fama com Saint
Vitus e Trouble, além de outros aspectos, não os fez atingir o estrelato que os
aguardava ainda nos anos 70.
O Pentagram foi fundado em 1971 no estado da
Virginia através de Liebling e do baterista Geof O'Keefe. A banda surgiu
como uma promessa de resposta americana aos ingleses do Black Sabbath,
juntamente com os nova-iorquinos do Sir Lord Baltimore, e qualidade para
tal posto a banda tinha de sobra. O principal trabalho lançado pelo Pentagram naquela
década foi o Bias Recordings Studio, uma demo que trouxe clássicos da
banda como Forever My Queen, When The Screams Come e Review Your
Choices. Várias composições da primeira encarnação do Pentagram foram
regravadas nos álbuns lançados a partir dos anos 80. Em 2002 o grupo lançou First
Daze Here (The Vintage Collection), uma coletânea de 12 raridades e faixas perdidas
dos anos 70 em versão remasterizada. Ainda havia mais material para desenterrar;
o segundo lote de raridades setentistas do Pentagram foi lançado em 2006 sob o
nome First Daze Here Too. Em ambas as coletâneas, percebe-se o quanto o
Pentagram foi influenciado pelo Black Sabbath tanto nas músicas mais animadas
quanto nas faixas mais soturnas, os Dooms, como a própria Forever My Queen
e seu riff cinzento, a charmosa When The Screams Come e a fúnebre Be
Forewarned.
BEDEMON
Uma das formações recentes do Bedemon, com a presença de Scott "Wino" Weinrich (à esquerda)
Pesadíssimo! É assim que podemos definir o som da banda Bedemon,
que, tal como o Pentagram, passou por duas encarnações: uma entre 1973 e 1974,
com um brevíssimo retorno em 1979, e uma segunda encarnação a partir de 2001.
Na fase setentista, a banda também contava com Bobby
Liebling nos vocais e com Geof O’Keefe na bateria, que se faziam acompanhar de Mike
Matthews no baixo e Randy Palmer nas guitarras. Este Randy Palmer também
andou tocando no Pentagram por dois períodos, um na primeira encarnação e outro
na segunda, perto do fim dos anos 80.
Todas as músicas gravadas pelo Bedemon naquele período só viram
a luz do dia em 2005, quando do lançamento da coletânea Child Of Darkness:
From The Original Master Tapes. O que esse trabalho revelou ao mundo era
uma banda de som soturno, sujo, negro e pesado, como nenhuma outra fazia na época.
A baixa qualidade das gravações só reforçou a poeira em cima das músicas. É
tanta poeira que é possível tatear as músicas e constatar as cascas de sujeira.
O grupo voltou a ativa em 2001 através da iniciativa do músico e jornalista Perry
Greyson, que tratou de contactar e de reunir os ex-integrantes Palmer,
Keefe e Matthews. Um álbum de inéditas foi lançado em 2011, Symphony Of
Shadows, que contou com os vocais de Craig Junghandel.
STONE AXE
Essa aqui habita nas catacumbas plúmbeas da história do Rock
e de lá nunca saiu. Quem quiser conhecer o Stone Axe, desça rumo a escuridão
onde a luz nunca ousou penetrar.
O Stone Axe surgiu das cinzas do Josefus e existiu
entre 1971 a 1972 na cidade de Houston, no Texas. Após o fim do Josefus, o
vocalista Pete Bailey, o baixista Ray Turner e o baterista Jerry
Ontiberoz receberam o guitarrista “Wolf” Mike Long para formar o
Stone Axe. O único lançamento oficial do grupo foi o single Slave Of
Fear/Snakebite, de 1971. A primeira faixa em particular apresenta algo que
o Black Sabbath começaria a fazer naquele mesmo ano: afinações baixas nas guitarras.
Isso somado ao ritmo lento e as influências de Psicodélico criou um som pesado,
soturno e melancólico, que ficou escondido nas areias do tempo. O fim precoce
do Stone Axe ensejou o retorno do Josefus em 1972. Até hoje o grupo teima em
existir apesar das várias idas e vindas. Mas o blog The Atmosphere faz questão
de desenterrar, limpar a poeira e apresentar este souvenir para você.
FLOWER TRAVELLIN’ BAND
Esta banda vem do Japão! Sim, o Doom Metal também aprontou
das suas durante os anos 70 na Terra do Sol Nascente. O Flower Travellin’ Band
foi a continuação natural do Yuya Uchida & The Flowers após uma
reformulação da formação do grupo e a adoção de um novo direcionamento musical.
Em seu segundo álbum, Satori, lançado em 1971, Uchida e companhia mostraram
um som que lembrava muito o Black Sabbath dado o peso das guitarras, os ritmos
lentos e as melodias sombrias. Ou seja, temos em Satori a receita básica
do Doom Metal. As características pétreas do estilo são melhor percebidas nas faixas
ímpares do álbum, Satori Part I, Satori Part III e Satori Part V,
além da faixa-bônus Map. Ainda, por influência do guitarrista Hideki
Hishima, o grupo usava de forma magnifica arranjos criados com escalas
árabes, algo que se tornaria marca registrada do Solitude Aeturnus nos
anos 90. O Flower Travellin’ Band existe até hoje, mesmo que sem seu membro-fundador
e cérebro criativo da fase áurea do grupo, Yuya Uchida. Outro destaque do álbum
Satori são as interpretações viscerais do vocalista Joe Yamanaka.
Por hoje é isso. Existem outros exemplos, mas estes que aqui foram lembrados cumprem bem o papel de apresentar a você o Doom setentista. É como este redator costuma falar
sempre que as oportunidades permitem: o Doom Metal é o gênero mais antigo, o Primeiro,
aquele que carrega a essência raiz do Heavy Metal. Da metade dos anos 80 em
diante o Doom Metal se metamorfoseou e se hibridizou com outros gêneros para
se transformar em vários formatos distintos como Epic Doom, Death Doom, Metal
Gótico, Sludge, Funeral Doom e etc. Isso tudo sem considerar o Stoner Rock/Stoner
Metal, que pode ser considerado um irmão do Doom Metal. Que o Gênero Maldito
sobreviva nos calabouços renegados do Rock por muito mais tempo. De preferência, mantendo e perpetrando para toda a posteridade o negrume perturbador da imagem que abre esta matéria.
Diretamente da encantadora região da Calabria, no sul da
Itália, vem a banda C.L.I., abreviação para Cruel Life Inside. O grupo formado
em 2017 é composto atualmente por A.P. (vocais), G.S. (contrabaixo) e F.B.
(guitarras e programação) e pratica um som que mescla influências de
Atmospheric Black Metal, Post Rock e Doom Metal.
Mantendo a tradição respeitada por quase todas as bandas italianas de Heavy Metal, o C.L.I.
pratica um som com muita identidade e beleza, com um toque romântico, dentro sua proposta musical. A banda utiliza
como inspirações para compor suas músicas as próprias paisagens da região calabresa,
como por exemplo a primeira faixa divulgada do EP de estreia, Loricum. A inspiração
para esta música vem de uma pequena cidade chamada Lorica, que fica às margens
do lago Arvo, cuja paisagem adorna a capa do single. A atmosfera da música leva
o ouvinte a contemplar sentado na beira do grande Arvo um pôr-do-sol que deixa
o horizonte cor escarlate, rodeado por diversas nuvens cirrucumulus que ganham
um tom alaranjado, e a sentir um vento frio, agravado pela umidade que vem das
águas do lago. Segundo a banda, Lorica é como uma zona de transição, um caminho
entre a felicidade e a tristeza, entre sonhos e realidade, entre a vida e a
morte.
Loricum é uma das faixas do EP de estreia do C.L.I.,
Eclipses Vitae, que tem previsão de lançamento prevista para o primeiro trimestre
de 2020. Confira no player abaixo a música Loricum.
Aion Tetra - Bretus (Ordo MCM, 2019) Tracklist:
01. The Third Mystic Eye
02. Priests Of Chaos
03. The Other Side
04. Aion Tetra
05. Deep Space Voodoo
06. Mark Of Evil
07. Cosmic Crow
08. Fields Of Mars
09. City Of Frost
Catanzaro é uma cidade que fica ao sul da Itália. Capital da
Calábria, Catanzaro é conhecida como “A Cidade dos Dois Mares”, pois seu litoral
à sudeste é banhado pelo Mar Jônico e de seus pontos mais altos pode-se ver o
Mar Tirreno, que banha o noroeste da província que carrega também o nome de
Catanzaro. Todavia, mesmo em meio a paisagens belíssimas, tingidas pelo azul dos
mares e iluminadas pela luz solar que não impede que a temperatura suba tanto,
o todo-poderoso Doom Metal consegue sobreviver em seus calabouços e catacumbas
de forma pungente. Pois há quase duas décadas o Bretus existe lá como uma das
mais fortes representações da música obscura e pesada da Itália.
Fundado no ano 2000 pelo guitarrista Ghenes, o Bretus
atualmente é formado, além dele, por Zagarus (vocais, Suum, Land Of Hate), Janos (contrabaixo) e
Striges (bateria), todos reunidos com o objetivo de levar em suas letras os
contos de horror perpetrados por H.P. Lovecraft e por cineastas do gênero,
tendo com trilha sonora o mais puro e clássico Doom Metal, ensinado pelos
pioneiros do gênero e harmonizado com elementos de Stoner e de Psicodélico.
Tudo isso, lógico, fabricado com o DNA italiano do estilo, o que torna o som
das bandas vindas de lá único e reconhecível. No caso específico do Bretus,
ouvir seu Doom é como se estivéssemos em uma caverna onde ocorrem cultos aos
ocultos, enegrecidos por uma nauseabunda atmosfera onde o vocalista Zagarus
invoca os mitos cósmicos Yog-Sothoth e seu guardião, Cthulhu.
Em pouco tempo o Bretus se tornou um dos mais importantes
grupos de Doom Metal da Itália graças a boa recepção de seu EP de estreia,
autointitulado, e de seu primeiro full-length, In Onirica (2012, Arx
Productions), que os levaram a participar de importantes festivais do estilo na
Europa, como o Malta Doom Fest e o Doom Over Viena. Os lançamentos de The
Shadow Over Innsmouth (2015, BloodRock Records) e de ...From The Twilight Zone
(2017, Endless Winter) reforçaram e sacramentaram a posição do Bretus no âmbito
do Gênero Maldito em solo italiano. Agora em 2019 está previsto o lançamento do
quarto álbum de estúdio do grupo, Aion Tetra, para o dia 27 de setembro pela
gravadora Ordo MCM. Todavia, o blog The Atmosphere... recebeu com antecedência
este material para análise antes de seu lançamento oficial.
Um baixo ameaçador seguido de um riff poderoso e cadenciado
dá início aos trabalhos com The Third Mystic Eye, uma música bastante
empolgante e que prende a atenção do ouvinte com suas variações de andamento e
de tom para um pesado Ré Sustenido Menor. Uma introdução tocada em órgão
pavimenta o caminho para os riffs de Priests Of Chaos, dona de uma cativante
melodia com odor setentista em seu refrão. A faixa de nº 3, The Other Side, reúne
em si todas as características do Bretus. Com início acelerado, a música passeia
por diferentes andamentos (especialmente em compassos ¾) e passagens com timbres
limpos embebidos em chorus. A faixa-tútlo ocupa a posição de número 4 e é tão-somente
um interlúdio acústico de muita beleza e bom-gosto. Seu tom introspectivo
prepara terreno para um dos grandes destaques do disco, a sombria, pesada e
viajante faixa de nº 5, Deep Space Voodoo.
Todo o poder de fogo do Doom Metal clássico “sabbathico” volta
em Mark Of Evil, outro grande destaque do álbum. Um corvo agourento anuncia
Cosmic Crow e sua pegada setentista que aqui se mostra muito forte. Ganhou inclusive um clipe muito bem produzido e condizente com a proposta de horror do grupo. Mais um interlúdio
surge em Fields Of Mars. Desta vez vocalizada, a composição se mostra sombria,
mas limpa e etérea, criando um contraste com o restante do álbum assim como
Cantazaro consegue vislumbrar a vista de dois mares diferentes. O álbum se
encerra com a épica City Of Frost, que traz um apurado senso de melodia mais pujante
que as músicas anteriores, inclusive lançando mão de guitarras dobradas em sua
seção instrumental.
A produção de Aion Tetra deixou a sonoridade do álbum crua e
orgânica, mas ao mesmo tempo sem muita sujeira, deixando assim todos os
instrumentos nítidos e as músicas com fácil compreensão por parte do ouvinte. A
produção também reforçou a característica dramática dos vocais de Zagarus, deixando-os
em lugar de destaque sem ofuscar a primorosa parte instrumental. Ao longo de
todo play, o guitarrista Ghenes consegue misturar em suas composições todas as
suas influências musicais com o fim de criar um som único para o Bretus, usando
para isso sua baita criatividade para criar riffs e passagens. A cozinha
formada por Janos e Striges é bastante segura e forte, conduzindo com força os
andamentos cadenciados e as muitas mudanças de andamento sem deixar a peteca
cair. Tudo isso vem ilustrado com uma belíssima arte de capa, que consegue transmitir de forma plástica toda a proposta sonora e lírica do Bretus no álbum.
Para aqueles que apreciam o bom e velho Doom Metal clássico,
vale muito a pena conferir o que os doomers de Cantazaro já apresentaram ao mundo
e também esperar pelo lançamento oficial de Aion Tetra, em setembro. Não, não
tenha medo das criaturas cósmicas enxergadas por Lovecraft. Se o Bretus for de
fato o porta-voz daquele panteão, será muito auspicioso ouvir as palavras
oriundas do espaço profundo.
Beyond The Crimson Horizon – Solitude Aeturnus (Roadrunner Records, 1992) Tracklist:
01. Seeds Of The Desolate
02. Black Castle
03. The Final Sin
04. It Came Upon One Night
05. The Hourglass
06. Beneath The Fading Sun
07. Plague Of Procreation
08. Beyond…
Line-up:
Robert Lowe – vocais
John Perez – guitarras
Edgar Rivera – guitarras
Lyle Steadham – contrabaixo
John Covington – bateria
Texto: Bruno Rocha
Seguindo as trilhas do Epic Doom Metal descobertas pelo Candlemass, diversas bandas surgiram no fim dos anos 80 fazendo o já consolidado Doom Metal, mas num caminho progressivo, dando o tom épico que sugere o nome do gênero.
Em 1987 nascia no Texas a banda Solitude (de onde será que veio esse nome?) que depois de alguns meses mudou seu nome para Solitude Aeturnus, fazendo Doom como Leif Edling ensinou. A estreia da banda com Into The Dephts Of Sorrow, em 1991, fincou o nome do Solitude Aeturnus entre os grandes do gênero lento do Heavy Metal, tornando a banda texana na maior autoridade do Epic Doom Metal ao lado do Candlemass. E o álbum Beyond The Crimson Horizon foi lançado em 1992 para sacramentar tal feito.
Produzido por Danny Brown e lançado pela poderosa gravadora a época Roadrunner, o segundo álbum do Solitude Aeturnus trouxe uma preocupação maior em fazer o grupo soar agressivo. Corroborou para isso a nítida melhoria na qualidade sonora em relação ao debut, que não soa ruim, mas que também não tem uma mixagem que realça as características Metal da banda como peso e agressividade. Cabe citar que John Perez tocava guitarra na banda de Thrash Metal Rotting Corpse nos anos 80 antes de fundar o Solitude inspirado no Candlemass. A veia Thrash do cara ainda pulsava forte!
A abertura com Seeds Of The Desolate deixa bem claro a tônica seguida no restante do álbum. Muito peso nos riffs e bases, mudanças de andamento repentinas, solos de guitarra na linha “shred” por conta de Edgar Rivera e com presença ubíqua de vibratos com alavanca, cortesia do guitarrista fundador John Perez, bateria técnica sob responsabilidade de John Covington e, principalmente, a performance monumental do vocalista Robert Lowe (que anos mais tarde gravou três discos de estúdio com o próprio Candlemass). Sua voz limpa e seu alcance, aliados a melodias calcadas em escalas orientais, surpreendem até mesmo os acostumados a sonoridade da banda.
O disco segue com Black Castle (peso bruto) e The Final Sin, música mais rápida do álbum, onde a banda bota um pezão no Thrash. Depois, com uma introdução soturna de teclado, começa It Came Upon One Night, com um riff Doom daqueles de fazer a Terra tremer, seguido de uma mudança agressiva de andamento.
Outro destaque vem com The Hourglass, com uso e abuso de escalas orientais no fraseado de guitarra e na voz de Lowe. A coisa dá uma leve acalmada com Beneath The Fading Sun, mas depois, o peso e a técnica dos músicos voltam com Plague Of Procreation, que poderia até ser um pouco mais curta se o refrão não fosse repetido a exaustão. Mas esse fato não causa prejuízos a audição do disco, que encerra com a instrumental Beyond…
Todas as músicas foram compostas por Solitude Aeturnus, e todas as letras foram compostas pelo baixista mão-pesada Lyle Steadham, a exceção da faixa 4, cuja letra é de Kristoff Gabehart, ex-vocalista dos tempos que a banda se chamava Solitude.
Até hoje Beyond The Crimson Horizon é considerado por muitos o melhor álbum do Solitude Aeturnus, emparelhado em preferência com o seguinte, o criativo Through the Darkest Hour, de 1994. Após este período, a banda resolveu apostar em menos agressividade e reforçou o lado progressivo. A banda continuou lançando discos fundamentais para o Doom Metal mesmo assim, mas seu segundo trabalho é a prova cabal de que o Doom Metal não precisa ficar preso aos seus clichês, nem sequer impor marcha lenta às suas músicas o tempo todo. Exatamente pelo seu ritmo lento, o compositor criativo pode lançar mão de suas ideias para embelezar e enriquecer os arranjos Doom, coisa que John Perez, principal compositor do Solitude Aeturnus, sempre foi mestre.
Em pouco mais de 43 minutos, a banda do Texas deixa aqui para sempre sua autoridade em fazer Doom Metal técnico, rico em melodia e ao mesmo tempo agressivo, empolgando até quem não é chegado ao estilo. E Robert Lowe sacramenta seu nome como uma das vozes mais poderosas do Heavy Metal. O único detalhe que faço vem exatamente da parte de Lowe, pois ele canta em registros altos quase que o tempo todo, e um ouvido menos apurado poderá inferir que ele está executando a mesma melodia vocal em todas as faixas. Mas isso não tira o brilho deste disco fundamental do Epic Doom Metal, estilo que não vive só de Candlemass.
Tracklist:
01. In The Cosmic Sea
02. ...Kharma
03. Mistress Of My Paradise
04. Reflex In The Last Mirror
05. Betrayed God
06. Travelling Free
07. During The Eternity
Um dos pilares do Doom Metal nacional atende pelo nome de
Serpent Rise. Apesar dos poucos trabalhos lançados, a grande maioria deles nos anos
90, a criatividade e o pioneirismo do grupo gaúcho renderam-lhe o posto de um dos
baluartes do Gênero Maldito em nosso país. Dentre suas principais obras
lançadas em seu período fértil, é óbvio que o grande destaque é o full-length
Gathered By..., de 1998. E sim! Ele acabou de ganhar um relançamento remasterizado
através da Nuktemeron Productions. O relançamento ainda traz como bônus as
demos Anastenárides (1994) e Travellin’ Free (1995). Ou seja: temos um pacotão
de trabalhos essenciais do Doom Metal nacional em um único lançamento!
Ora, o que a banda apresentou em Gathered By... há 21 anos
era uma visão de Doom Metal ainda pouco explorada no país com seus toques
atmosféricos, vocais quase sussurrados em meio aos tradicionais guturais,
teclados criando ambientações sombrias e alguns elementos de Rock Gótico que
aparecem de forma pulverizada. Na época, a banda era formada por Agnaldo nos
vocais, Luiz nas guitarras, Marcelo no contrabaixo, Eder nos teclados e Júlio
nas guitarras e na bateria. Os timbres pesados e gordurentos das guitarras e do
contrabaixo (realçados na remasterização) reforçam fortemente a parede sonora criada
e gravada pela banda nas composições da época, tudo isso junto aos teclados
muito bem encaixados, bateria reta e segura e a versatilidade vocal de Agnaldo.
O álbum tem início com In The Cosmic Sea, uma típica
composição Doom de 10 minutos que traz com força todas as características
citadas no parágrafo anterior e que cumpre bem sua missão de começar o álbum de
forma bastante empolgante. A faixa seguinte traz em seu título a continuação do
nome do álbum, ...Kharma. Iniciada por uma melodia de violão, a faixa segue num
ritmo mais lento que sua antecessora e apresenta variações de andamentos,
típicos do movimento Death/Doom que emergiu naquela década, lembrando especialmente
o Anathema. Mistress Of My Paradise é uma faixa bastante sombria e negra, cujo
começo é uma longa introdução que transporta o ouvinte para um escuro e úmido
calabouço antes que as guitarras cortantes do Death/Doom entrem cortando tudo
sem misericórdia.
Uma dose de Rock Gótico é percebida em Reflex In The Last
Mirror, cujo andamento é um pouco mais acelerado e põe o baixo de Marcelo em
evidência, temperado com teclados em piano e com um timbre lúgubre de guitarra
cheio de chorus e tremolo. Todos esses elementos criam uma atmosfera melancólica
e caleidoscópica que crescem rumo ao fim da música em peso e velocidade. O
Doomzão mais mortal volta com força e inclemente em Betrayer God, vide o riff que
faz a terra tremer carregado por um andamento fúnebre de bateria e teclados que
parecem prenunciar o apocalipse. A faixa de nº 6 é a clássica Travelling Free,
que faz jus ao seu nome por ser uma verdadeira viagem Doom de 15 minutos que passam
voando graças as suas mudanças de andamento e de tom, que dão variedade e
colorido (mórbido) a música. O álbum se encerra com During The Eternity, que
mais uma vez reforça as influências Death/Doom da época em uma procissão fúnebre
e etérea.
Pode-se resumir tudo que este redator analisou em dois
pontos:
1º) A banda conseguiu êxito naquilo que se propôs a apresentar
em cada faixa. Foi sucinta e direta naquilo que queria mostrar nas músicas mais
curtas e foi dinâmica e sortida nas composições mais longas. O grande desafio
do compositor de Doom Metal é exatamente compor uma música que prenda o ouvinte
em seu longo comprimento, deixando-o ansioso pelo que virá pela frente no que
tange a variação de arranjos.
2º) Estamos em 1998. O Serpent Rise não estava só influenciado
pelo Death/Doom noventista; o Serpent Rise ERA do Death/Doom noventista. Fazia
parte daquele conjunto de bandas que emergiram nos anos 90. Além disso, eles continuaram
carregando a pureza do estilo enquanto My Dying Bride sofria de dupla
personalidade musical, o Paradise Lost dava uma de Depeche Mode e o Anathema estava
em sua metamorfose para se tornar um Pink Floyd “Coldplayzado”. E o melhor de
tudo: o Serpent Rise fazia seu Death/Doom com muita identidade. Os elementos
atmosféricos e as timbragens gordas dos instrumentos conferiram ao som do grupo
uma energia única, perturbadora e bela, dentro dos limites do Doom.
Note que adotei os verbos com conjugação predominantemente
pretérita. Mas não há prejuízo de interpretação se você os substituir pelas
suas versões no presente. Gathered By... foi relançado e remasterizado. Ou
seja, está mais poderoso ainda! Cuide em ouvi-lo e torne-se testemunha no
futuro de uma das mais importantes realizações do Doom Metal nacional que
aconteceram no passado.
O Rouxinol da Tristeza cantava de forma diferente de seus
pares. Enquanto os outros rouxinóis cantavam alegremente e assim também
alegravam aqueles que os ouviam, o rouxinol o qual me refiro cantava sobre suas
dores e sua solidão. Sua música era triste, sua voz, fantasmagórica, sua aparência,
hipnótica. Mas o poder que sua voz tinha era mais forte e atraente que as dos
demais. Sua voz era feitiço, encantava a qualquer um que a ouvisse, tal qual
uma sereia mitológica que enganava e atraia para a morte os fracos navegantes
da época. Aqueles que ousaram ouvir o seu canto estão inebriados até hoje,
mesmo após sua triste partida.
Julia Liane Stanbridge nasceu na África do Sul, mais
precisamente na Cidade do Cabo, no primeiro dia do sétimo mês de 1976. Seus
pais eram de origem britânica e sueca. O trabalho de sua mãe exigia que ela
viajasse constantemente, de modo que sua filha Julia nasceu distante de onde
ela depois tomaria base. Somente no começo dos anos 2000 foi que Julia veio se
fixar definitivamente na Suécia, onde ela iria ficar conhecida pelo seu
trabalho musical. Suas primeiras participações em gravações de estúdio aconteceram
em trabalhos eletrônicos, fazendo participações em álbuns lançados por Krister Linder
e Omnimotion no ano de 2006. Sua primeira empreitada solo foi lançada em 2007,
sob o nome artístico pelo qual ela se tornaria mais conhecida, Aleah.
Suas músicas solo funcionavam movidas unicamente por um
violão, como um Folk tocado na beira de um pequeno lago, dentro de uma floresta
nublada e úmida. Sua voz já trazia suas principais características: embebida em
reverb, o Rouxinol cantava suavemente e de forma sombria e tímida, ingredientes
suficientes para encantar o ouvinte incauto. Um dos muitos que ficaram encantados
por sua voz foi o músico Andy Cousin, do All About Eve e que também já foi
integrante do The Mission. Andy e Aleah fundaram o projeto de Rock Gótico That
Which Remains, que esteve na ativa somente em estúdio entre 2007 e 2008. Foi
neste período que Aleah começou a trabalhar em outro projeto, aquele que seria
sua verdadeira metamorfose em forma de música.
Desta vez, seu parceiro musical seria Juha Raivio,
guitarrista da banda de Melodic Death/Doom Metal Swallow The Sun. Eles seriam
parceiros não só musicalmente, mas também platonicamente. A química que existia
entre ambos não contribuiu somente com o amor que era mútuo, mas também na
criação de composições musicais únicas e doloridas. Ambos botaram em prática a
partir de 2009 o projeto Trees Of Eternity. Este projeto era um pouco parecido
com a sonoridade Death/Doom da banda original do guitarrista, mas era mais
atmosférico e etéreo, graças principalmente à contribuição criativa do Rouxinol.
O primeiro fruto deste combo musical só foi revelado ao mundo em 2013, através
da demo Black Ocean, que trazia em si quatro composições. Estas foram
reaproveitadas no primeiro lançamento oficial do grupo, Hour Of The Nightingale
(Hora do Rouxinol), lançado em 2016 via Svart Records.
Na verdade, o álbum começou a ser gravado em 2014 e os
músicos que o gravaram formavam uma seleção do Doom Metal da época. Além do
Rouxinol e de Juha Raivio, o Trees Of Eternity contava com os irmãos Fredrik e
Mattias Norrman na guitarra e no baixo, respectivamente. Na bateria, tínhamos
Kai Hahto, que até recentemente era baterista do Nightwish. O Atmospheric Doom
Metal do grupo não tinha nada de guitarras beirando o Death Metal ou vocais
guturais, como é de costume no chamado Metal Gótico. O enfoque do Trees Of
Eternity era passional. Nada poderia alterar a concentração do ouvinte, ou
tirá-lo do transe hipnótico ao qual o mesmo era submetido ao ouvir a voz doce e
fantasmagórica de Aleah Starbridge (sim, seu nome artístico incorporou um “R”
no sobrenome, passando a ser StaRbridge). A atmosfera criada pelas músicas e pela
voz do Rouxinol era absurdamente densa, sombria, soturna. Mas ao mesmo tempo
bela e aconchegante. Formava-se no álbum um ambiente nublado e frio, que
emanava muita tristeza e, ao mesmo tempo, amor e saudade. Não raro as músicas trazem
lágrimas aos olhos do ouvinte devido a grande carga emocional imprimida pela
voz de Aleah e pelas melodias tristes e inspiradíssimas de Juha Raivio.
Não deu tempo de Aleah Starbridge ver sua obra-prima
revelada ao mundo. Ela partiu deste plano aos 18 dias do quarto mês de 2016,
sete meses antes do lançamento oficial de Hour Of The Nightingale. O álbum foi
lançado postumamente e, portanto, serviu como epitáfio para o túmulo do
Rouxinol, exibindo ao mundo todo o poder de sua voz e de sua interpretação. A
vida imita a arte, afinal. Tristemente, a música do Trees Of Eternity faz muito
mais sentido sabendo que sua mentora-mor já partiu daqui. Ela, que cantava
sobre saudade, tristeza e morte, sem querer prenunciava a sua própria partida.
Um câncer a levou na tenra idade de 39 anos e deixou na Terra sua obra e seu
legado musical e poético. Ficou também a sua voz, em forma de ecos distantes, reverberada
aos quatro ventos pelos tormentos da melancolia, que torna tudo úmido e escuro.
O poder de sua voz é tamanho que não se faz necessária a presença de sua pessoa
aqui na Terra. Sua própria voz continua a enfeitiçar e congelar a cada um que a
ouve.
Aleah Starbridge também colaborou em músicas do Swallow The
Sun, de seu parceiro Juha Raivio, e do Amorphis, banda finlandesa de Metal Progressivo.
Raivio deu início então ao projeto Hallatar, como forma de eternizar e mostrar ao
mundo as criações artísticas que Aleah ainda tinha escondidas. O primeiro álbum
do Hallatar não poderia ter nome mais sugestivo: No Stars Upon The Bridge.
Se o Rouxinol virou estrela ou não, ninguém sabe. Fato é que
os outros rouxinóis da Terra não conseguem emular seu canto soturno e
hipnótico. Eles são comuns. Só conseguem alegrar e cantar alegrias. Mal sabem
eles que a vida é uma mistura fatal de alegrias e tristezas, sendo as segundas
mais abundantes que as primeiras. Vai ver, eles mesmos ficaram tristes com a
partida de Aleah...
“À noite, as cortinas descem / Dentro da escuridão eu vagueio
/ Perdendo tudo que encontrei / Para o meu próprio desânimo / Meu tempo chegou
a um fim.” (Trees Of Eternity - My Requiem)