Está marcada para a próxima quarta-feira (01/07), amanhã, a próxima entrevista ao vivo do blog The Atmosphere! O convidado da vez
será o músico carioca Anderson Morphis, importante figura do underground
do Rio de Janeiro.
Morphis atualmente está a frente de vários projetos musicais,
tais como O Quarto de Helena (folk/darkwave), Bosque Lunar
(Medieval), Mortiferik (Death/Doom Metal) e Harmony Hate (Death
Metal). Em O Quarto de Helena, ele divide as responsabilidades do projeto com sua
esposa Andressa Costa e com Fabiano Sousa, conhecido pelo seu
trabalho a frente do Última Dança. Além de seus projetos musicais,
Morphis é o apresentador, juntamente também com Andressa, do programa Sons
do Apocalipse, que vai ao ar através da webrádio Soturna Sintonia.
Esses e outros assuntos serão destaques da conversa, que será conduzida pelo apresentador
de sempre, Bruno Rocha, o Escriba deste humilde blog.
A entrevista com Anderson Morphis acontecerá a partir das
19:00 em live no instagram do blog The Atmosphere. Não perca! Adentrem a
Atmosfera!
Entrevista com Anderson Morphis (O Quarto de Helena, Mortiferik)
Data: 01 de julho (quarta-feira) Horário: 19:00 Onde?: Instagram do blog The Atmosphere ( @blogtheatmosphere )
O Paradise Lost lançou recentemente o seu
décimo-sexto álbum de estúdio, Obsidian, pela gravadora Nuclear Blast e
com distribuição brasileira pela Shinigami Records. Obsidian representa
um marco na discografia da banda formada por Nick Holmes (vocais), Gregor
Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen Edmondson
(contrabaixo) e Waltteri Wäyrynen (bateria) por ser um dos registros
mais pesados e melancólicos do grupo nos últimos tempos. Coincidentemente, este
álbum foi lançado num dos períodos mais negros e tristes da história recente da
humanidade com a pandemia de Covid-19. Em entrevista exclusiva ao blog THE ATMOSPHERE..., o guitarrista e principal compositor Gregor Mackintosh deu detalhes
sobre o novo álbum do Paradise Lost, falou o que vem fazendo durante o
isolamento social e explicou seu leque de influências oriundas do Gothic Rock,
estilo que apareceu com proeminência em Obsidian, tudo isso dentre outros
assuntos.
Olá, Gregor! Em primeiro lugar, gostaria de te agradecer por
sua disponibilidade para responder estas perguntas e espero que você esteja bem
e com saúde. Como tem sido sua rotina e seu trabalho durante a pandemia? Este período
negro e de incertezas pelo qual o mundo passa tem influenciado você
musicalmente de alguma forma?
Gregor Mackintosh: Eu estou bem, obrigado. A maior
parte do meu tempo durante a pandemia tem consistido em promover o novo álbum
do Paradise Lost. Além disso eu tenho lido muitos livros, assistido muitos
filmes e ouvindo muita música. Criativamente eu comecei a trabalhar em novas composições
para meu projeto paralelo, o Strigoi. Somente o tempo nos dirá se esse material
virá inspirado por elementos da atual situação.
Falemos então sobre o novo álbum. Obsidian apresenta, de
uma maneira mais evidente comparado com os outros álbuns lançados na última
década, elementos de Rock Gótico oitentista. Em vários momentos podemos perceber
arranjos que nos remetem a The Sisters Of Mercy, The Cure e Dead Can Dance, não
apenas na música Ghosts, onde essas influências estão mais óbvias. Esse
direcionamento foi planejado antes que os trabalhos para a concepção de
Obsidian começassem?
Gregor: Influências não foram discutidas antes que começássemos
a compor para o álbum. Nós apenas concordamos que deveria ser mais variado em
relação ao lançamento mais recente (Medusa, 2017). Nós trabalhamos em uma música de cada vez e
isto acabou nos levando a diferentes caminhos. O que me inspira em qualquer dia
é o pontapé inicial para começar uma música, mas à medida em que trabalhamos
nela, ela pode seguir por um caminho ou pode seguir por outro. Nós temos várias
versões diferentes para cada música em qualquer momento e escolhemos depois por
qual caminho seguir. Isso fez com que o processo de composição acabasse por ser
divertido, apesar de que isso soe de qualquer forma, menos divertido.
A performance de Waltteri Wäyrynen na bateria me chamou
bastante a atenção. Talvez este tenha sido o mais técnico trabalho de bateria
da história da banda, com várias conduções nos tons, viradas criativas e “ghost-notes”
no caixa. Como compositor principal, você o orienta como você quer que a
bateria soe em cada música ou ele tem completa liberdade para criar?
Gregor: Eu costumo ter a bateria bem próxima do que
eu quero que ela seja, de modo que ele entende isso ao mesmo tempo que tem alguma
liberdade artística. O melhor sobre Waltteri é que sua tocada na bateria pode
cobrir vários estilos diferentes. Isto torna as coisas muito fáceis pra mim
quando eu tento explicar o que eu estou buscando em uma música. Sutileza e
dinâmica estavam bem em evidência na minha mente quando conversamos sobre isso
antes das gravações.
Este é o terceiro álbum do Paradise Lost gravado em parceria
com o produtor Jaime Gomez Arellano no Orgone Studio, o qual ele é dono. No
passado vocês também trabalharam com Jens Bogren, Rhys Fulber e e Simon Efemey,
dentre outros. Como tem sido trabalhar com Jaime e o quão importante é para o Paradise
Lost, uma banda que preza por uma sonoridade bastante característica e repleta
de influências, ter um produtor de fora da banda para direcionar as gravações além
dos aspectos técnicos?
Gregor: Tivemos uma grande experiência de aprendizado
com cada produtor com quem nós trabalhamos. Rhys realmente nos trouxe foco e crença
em nós mesmos. Jens nos ensinou sobre trabalhar com precisão. Nos anos mais recentes nós não
precisamos realmente de um produtor para nos guiar. Nós apenas precisávamos de
alguém para captar o som da banda com o melhor equipamento e com um grande
entendimento do que nós estávamos tentando alcançar. E Gomez tem sido o cara
para este trabalho. Ele é realmente talentoso em ajudar o artista a expressar o
que eles precisam e não somente em focar na técnica.
Aaron Aedy, Stephen Edmondson, Nick Holmes, Gregor Mackintosh e Waltteri Wäyrynen
De Dooms pesados até Gothic Rock’s animados, o Paradise
Lost explorou em Obsidian vários elementos musicais que construíram a discografia
da banda durante as últimas três décadas sem abrir mão da melancolia, do peso,
da miséria e de certa imponência em cada uma das músicas. Como vocês lidam com
criar uma música tão homogênea e com uma forte personalidade mesmo com a grande
variedade de influências com as quais vocês trabalham?
Gregor: Eu acho que isto vem de anos aprimorando
nosso trabalho. Nós compomos e tocamos de um modo que não é mais de uma maneira
consciente. Eu amo aprender, experimentar e me inspirar pelas mais diferentes
coisas, mas quando tudo isso entra no caldeirão do Paradise Lost, o resultado é
único de uma certa maneira.
No primeiro press-release divulgando Obsidian, a banda
declarou que este álbum seria o mais eclético em muito tempo. Dado o
direcionamento mais pesado que o Paradise Lost tomou nas últimas duas décadas,
mais notadamente na última, eu não esperava que arranjos mais acessíveis, como
os vistos em Host, por exemplo, estariam de volta com vocês. Com o Vallenfyre e
agora com o Strigoi, você tem extrapolado sua vontade de tocar um Death Metal
cru e sujo, que é outra forte influência de suas composições. Você planeja ou
pelo menos tem vontade de tocar algo mais direcionado ao Gothic Rock ou ao
Darkwave novamente em algum projeto paralelo no futuro, seja de um modo mais
orgânico lembrando The Cure ou mesmo com um direcionamento eletrônico como
visto em Host?
Gregor: Eu estive pensando em fazer isso durante
vários anos mas eu nunca senti que havia chegado a hora certa. Eu tenho várias partes
de música nesse estilo que eu fui criando ao longo dos últimos 20 anos, mas eu
nunca estive convicto que essas ideias eram boas o suficiente. Talvez algum dia
eu encontre inspiração para completar um álbum nesse estilo.
Eu imagino que existem diferentes períodos em sua vida
onde você tem mais vontade de ouvir Death e Doom Metal e outros onde sua vontade
de ouvir Gothic Rock é mais forte. Como guitarrista e compositor, quais músicos
da cena Post Punk/Gótica oitentista você mais gosta de ouvir e como eles te
influenciam na hora de compor e de tocar?
Gregor: Tem vários. Siouxsie and the Banshees, The
Sisters of Mercy, Southern Death Cult (The Cult), Christian Death, a fase inicial
do The Cure, Bauhaus, Depeche Mode, Dead Can Dance... Todas estas bandas tem
diferentes elementos que eu admiro e que me inspiram de várias maneiras. Lisa
Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) são os mestres da fluidez e da dinâmica,
indo do mais silencioso sussurro até o crescendo mais bombástico. Gore (Martin,
Depeche Mode) compõe os sucessos mais pegajosos. Robert Smith (The Cure) e
Siouxsie me ajudaram a compreender as sutilezas para criar paisagens sonoras.
Sisters me mostrou que simplicidade pode as vezes ser melhor. Mas todas estas
bandas pintam imagens com suas músicas e é isto que eu almejo fazer.
Para finalizar esta entrevista, mate-me uma curiosidade a
qual você é uma das únicas pessoas no mundo que podem fazer isso. Exceto pelo
baterista, o Paradise Lost mantém a mesma formação desde o começo há 32 anos
com você, Nick, Aaron e Stephen. Qual é o segredo para manter uma formação tão
longeva e conectada apesar de tantos acontecimentos e de mudanças de
sonoridade?
Gregor: Nós compartilhamos do mesmo estilo de vida ao
longo de nossos crescimentos. Viemos de uma classe trabalhadora, do Norte da
Inglaterra, com estas perspectivas humildes e com um senso de humor autodepreciativo.
Nenhum tipo de ego pode sobreviver neste tipo de ambiente e o ego é o que
costuma acabar com várias bandas.
O blog agradece a Karina Somacal e a equipe Shinigami Records pelo valioso apoio.
OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)
Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)
Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria
Texto: Bruno Rocha
O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que
possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender
do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo
chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo
de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em
cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse
tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele
serve de referência para ninguém menos que David Bowie.
Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise
Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum
entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza
que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes.
Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise
Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990)
até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999),
sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta
onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a
banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh
(guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele
nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube
filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais,
misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente
com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa
única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.
Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com
seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no
último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami
Records.
Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada
elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente
e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost
resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos
integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor
Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian,
eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em
muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além
disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian.
Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas
linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves
profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira
lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera
soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas
bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som,
rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri
Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio
crítico.
Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax
pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim
Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os
sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão
parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo
cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com
guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete
cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede
passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes
de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais
empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que
todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o
ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o
Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock
Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas
pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes
canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas.
Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria
ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.
Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano
imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de
te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de
guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy
servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos
melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez
mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na
pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês
com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost
notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity
começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar
conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove
das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a
alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum
com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de
Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo
de Edmondson a única segurança sonora.
As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo
dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies
Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a
ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve
enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um
timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável
e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras
prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício
de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não
abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão
lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black
Sabbath.
Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian,
constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua
proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que
Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das
outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes”
musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim
como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal
de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The
Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me
pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri
Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e
capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que
eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica
absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda
de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver
bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse
Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma
bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e
viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee
Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night,
um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na
versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como
faixa-bônus foi muito bem entregue.
A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez
Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação,
que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência
das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se
destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo
maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato
artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar
visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro
em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do
outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente.
Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do
grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de
Halifax ainda podem preparar para o futuro.
Os britânicos do Paradise Lost estão prestes a lançar
seu novo álbum de estúdio, Obsidian, o qual será o décimo-sexto full-length
de sua discografia. Para divulgar o novo álbum, a banda disponibilizou recentemente
seu segundo single, Ghosts, o qual você poderá ouvir no player mais
abaixo.
Em Ghosts, o Paradise Lost volta a mostrar com força
suas influências de Rock Gótico como não se vê há algum tempo. Sem esquecer o
peso que a banda trouxe de volta desde meados dos anos 2000, o baixo com
flanger de Stephen Edmondson, o fraseado de guitarra melancólico de Gregor
Mackintosh e os vocais graves de Nick Holmes construíram uma peça gótica que nos
remete a The Sisters Of Mercy. Aliás, sempre que têm a oportunidade, os
integrantes do Paradise Lost fazem questão de mencionar que as bandas góticas
oitentistas são algumas das principais influências na sonoridade típica da
banda.
Quando a data de lançamento de Obsidian foi
divulgada, o Paradise Lost divulgou que o novo álbum será o mais eclético lançado
pela banda nos últimos tempos, indo de músicas Doom pesadíssimas até Rock
Gótico. Cabe lembrar que ao longo de sua história que já atravessa três
décadas, os ingleses passearam por várias diferentes sonoridades com muito
louvor, o que embasa fortemente as intenções do grupo de mesclar várias delas
em um só registro.
Obsidian tem data de lançamento prevista para o dia 15
de maio pela gravadora Nuclear Blast. Paradise Lost é Nick Holmes
(vocais), Gregor Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen
Edmondson (contrabaixo) e Valtteri Wäyrynen (bateria). Confira nos
players a seguir a nova música Ghosts e também Fall From Grace, o primeiro single
divulgado de Obsidian e que ganhou videoclipe.
Tracklist:
01. In The Cosmic Sea
02. ...Kharma
03. Mistress Of My Paradise
04. Reflex In The Last Mirror
05. Betrayed God
06. Travelling Free
07. During The Eternity
Um dos pilares do Doom Metal nacional atende pelo nome de
Serpent Rise. Apesar dos poucos trabalhos lançados, a grande maioria deles nos anos
90, a criatividade e o pioneirismo do grupo gaúcho renderam-lhe o posto de um dos
baluartes do Gênero Maldito em nosso país. Dentre suas principais obras
lançadas em seu período fértil, é óbvio que o grande destaque é o full-length
Gathered By..., de 1998. E sim! Ele acabou de ganhar um relançamento remasterizado
através da Nuktemeron Productions. O relançamento ainda traz como bônus as
demos Anastenárides (1994) e Travellin’ Free (1995). Ou seja: temos um pacotão
de trabalhos essenciais do Doom Metal nacional em um único lançamento!
Ora, o que a banda apresentou em Gathered By... há 21 anos
era uma visão de Doom Metal ainda pouco explorada no país com seus toques
atmosféricos, vocais quase sussurrados em meio aos tradicionais guturais,
teclados criando ambientações sombrias e alguns elementos de Rock Gótico que
aparecem de forma pulverizada. Na época, a banda era formada por Agnaldo nos
vocais, Luiz nas guitarras, Marcelo no contrabaixo, Eder nos teclados e Júlio
nas guitarras e na bateria. Os timbres pesados e gordurentos das guitarras e do
contrabaixo (realçados na remasterização) reforçam fortemente a parede sonora criada
e gravada pela banda nas composições da época, tudo isso junto aos teclados
muito bem encaixados, bateria reta e segura e a versatilidade vocal de Agnaldo.
O álbum tem início com In The Cosmic Sea, uma típica
composição Doom de 10 minutos que traz com força todas as características
citadas no parágrafo anterior e que cumpre bem sua missão de começar o álbum de
forma bastante empolgante. A faixa seguinte traz em seu título a continuação do
nome do álbum, ...Kharma. Iniciada por uma melodia de violão, a faixa segue num
ritmo mais lento que sua antecessora e apresenta variações de andamentos,
típicos do movimento Death/Doom que emergiu naquela década, lembrando especialmente
o Anathema. Mistress Of My Paradise é uma faixa bastante sombria e negra, cujo
começo é uma longa introdução que transporta o ouvinte para um escuro e úmido
calabouço antes que as guitarras cortantes do Death/Doom entrem cortando tudo
sem misericórdia.
Uma dose de Rock Gótico é percebida em Reflex In The Last
Mirror, cujo andamento é um pouco mais acelerado e põe o baixo de Marcelo em
evidência, temperado com teclados em piano e com um timbre lúgubre de guitarra
cheio de chorus e tremolo. Todos esses elementos criam uma atmosfera melancólica
e caleidoscópica que crescem rumo ao fim da música em peso e velocidade. O
Doomzão mais mortal volta com força e inclemente em Betrayer God, vide o riff que
faz a terra tremer carregado por um andamento fúnebre de bateria e teclados que
parecem prenunciar o apocalipse. A faixa de nº 6 é a clássica Travelling Free,
que faz jus ao seu nome por ser uma verdadeira viagem Doom de 15 minutos que passam
voando graças as suas mudanças de andamento e de tom, que dão variedade e
colorido (mórbido) a música. O álbum se encerra com During The Eternity, que
mais uma vez reforça as influências Death/Doom da época em uma procissão fúnebre
e etérea.
Pode-se resumir tudo que este redator analisou em dois
pontos:
1º) A banda conseguiu êxito naquilo que se propôs a apresentar
em cada faixa. Foi sucinta e direta naquilo que queria mostrar nas músicas mais
curtas e foi dinâmica e sortida nas composições mais longas. O grande desafio
do compositor de Doom Metal é exatamente compor uma música que prenda o ouvinte
em seu longo comprimento, deixando-o ansioso pelo que virá pela frente no que
tange a variação de arranjos.
2º) Estamos em 1998. O Serpent Rise não estava só influenciado
pelo Death/Doom noventista; o Serpent Rise ERA do Death/Doom noventista. Fazia
parte daquele conjunto de bandas que emergiram nos anos 90. Além disso, eles continuaram
carregando a pureza do estilo enquanto My Dying Bride sofria de dupla
personalidade musical, o Paradise Lost dava uma de Depeche Mode e o Anathema estava
em sua metamorfose para se tornar um Pink Floyd “Coldplayzado”. E o melhor de
tudo: o Serpent Rise fazia seu Death/Doom com muita identidade. Os elementos
atmosféricos e as timbragens gordas dos instrumentos conferiram ao som do grupo
uma energia única, perturbadora e bela, dentro dos limites do Doom.
Note que adotei os verbos com conjugação predominantemente
pretérita. Mas não há prejuízo de interpretação se você os substituir pelas
suas versões no presente. Gathered By... foi relançado e remasterizado. Ou
seja, está mais poderoso ainda! Cuide em ouvi-lo e torne-se testemunha no
futuro de uma das mais importantes realizações do Doom Metal nacional que
aconteceram no passado.