quinta-feira, 21 de maio de 2020

Resenha: Paradise Lost - Obsidian (2020)



OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)

Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)

Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria


Texto: Bruno Rocha

O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele serve de referência para ninguém menos que David Bowie.

Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes. Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990) até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999), sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh (guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais, misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.

Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami Records.

Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian, eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian. Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som, rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio crítico.

Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas. Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.



Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo de Edmondson a única segurança sonora.

As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black Sabbath.

Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian, constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes” musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night, um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como faixa-bônus foi muito bem entregue.

A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação, que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente. Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de Halifax ainda podem preparar para o futuro.



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