OBSIDIAN - PARADISE LOST (Nuclear Blast, Shinigami Records, 2020)
Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)
Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria
Tracklist:
01. Darker Thoughts
02. Fall From Grace
03. Ghosts
04. The Devil Embraced
05. Forsaken
06. Serenity
07. Ending Days
08. Hope Dies Young
09. Ravenghast
10. Hear The Night (faixa-bônus)
11. Defiler (faixa-bônus)
Line-up:
Nick Holmes - vocais
Gregor Mackintosh - guitarra-solo
Aaron Aedy - guitarra-base
Stephen Edmondson - contrabaixo
Waltteri Wäyrynen - bateria
Texto: Bruno Rocha
O camaleão é aquele réptil escamado bastante peculiar que
possui entre as suas características a habilidade de mudar sua cor a depender
do ambiente em que está, como forma de adaptação e de camuflagem. Costumo
chamar de “camaleão” aquela banda que transita por várias sonoridades ao longo
de sua discografia, de preferência sempre apresentando exímia competência em
cada uma delas. Tá, eu sei, “camaleão” não o termo mais original para designar esse
tipo de banda. Mesmo assim, considero-o bastante valioso tendo em vista que ele
serve de referência para ninguém menos que David Bowie.
Não preciso ficar explicando para quem conhece o Paradise
Lost que a banda inglesa já percorreu sonoridades com pouca coisa em comum
entre si. Só falta para eles praticar um som alegre ou farofa, algo que tenho certeza
que nunca ocorrerá dado o histórico e as influências de seus integrantes.
Dentro do espectro da música obscura, os extremos da musicalidade do Paradise
Lost vão do Death/Doom podre e nauseabundo de seu debut Lost Paradise (1990)
até o Darkwave eletrônico, dançante e “depechemodiano” de Host (1999),
sendo que nos outros álbuns o grupo transitou como uma partícula em linha reta
onde ora eles estavam mais próximos de um extremo, ora de outro. Atualmente, a
banda liderada por Nick Holmes (vocais) e Gregor Mackintosh
(guitarras) está mais próxima do Death/Doom novamente, muito embora não naquele
nível lamacento de Lost Paradise. Muito pelo contrário. A banda soube
filtrar os elementos positivos de cada uma de suas experiências musicais,
misturá-los e criar uma solução homogênea onde o peso do Death/Doom caminha harmoniosamente
com a essência melódica, a atmosfera densa e os elementos góticos, solução essa
única e particular que facilmente acusa o som do Paradise Lost.
Parece que a banda atingiu ao ápice desta experiência com
seu mais recente lançamento, Obsidian, disponibilizado oficialmente no
último dia 15 de maio via Nuclear Blast e distribuído no Brasil pela Shinigami
Records.
Obsidian faz questão de exprimir em suas músicas cada
elemento que fez a história da banda ser o que é com uma fluência absurdamente
e miseravelmente natural. Em relação aos álbuns mais recentes, o Paradise Lost
resolveu saltar de forma mais pungente as influências góticas oitentistas dos
integrantes, notadamente de seu guitarrista-solo e principal compositor, Gregor
Mackintosh. Quando a banda divulgou o comunicado oficial do lançamento de Obsidian,
eles prometeram que estariam disponibilizando o álbum mais eclético e variado em
muito tempo. Não, eles não voltaram a tocar música eletrônica de Host. Além
disso, Doom’s pesados se aliaram com peças góticas para forjar Obsidian.
Nick Holmes balanceou quase que de forma igualitária seus vocais guturais com suas
linhas limpas, estas ora cantadas numa altura barítona, ora cantadas em graves
profundos. Gregor Mackintosh resolveu explorar mais os recursos de sua pedaleira
lançando mão de muitas combinações de timbres limpos que colorem a atmosfera
soturna das músicas. As guitarras de Aaron Aedy estão pesadíssimas e suas
bases cumprem com o papel de sempre que é criar uma muralha fortíssima de som,
rebocada com o baixo distorcido e gordurento de Stephen Edmondson. Waltteri
Wäyrynen, o baterista da vez... Bem, sobre ele falarei no decorrer deste ensaio
crítico.
Darker Thoughts, com sua intro acústica e seu clímax
pesado, lembrando a faixa-título de Faith Divide Us, Death Unites Us e Victim
Of The Past, constrói uma atmosfera negra, triste e mortal para derrubar os
sentimentos do ouvinte já na primeira faixa. Os guturais de Holmes no refrão
parecem condenar aqueles que o escutam a padecer eternamente naquele mundo
cruel e doloroso imaginado pela música, enquanto os momentos leves com
guitarras limpas se assemelham a um céu escuro e nevoento onde o condenado reflete
cheio de remorso acerca de sua miserável vida pregressa. O lado Death/Doom pede
passagem em Fall From Grace, vide os tons utilizados e as bases cortantes
de Aaron Aedy nas seções lentas. O ritmo se intensifica e se torna mais
empolgante sob os comandos insistentes de Nick Holmes nos quais ele afirma que
todos nós estamos sozinhos. De repente, você se vê batendo palmas seguindo o
ritmo do bumbo de Waltteri Wäyrynen. Mas não, você não foi transportado para o
Madame Satã nem para o Wave Gotik Treffen; é que a música Ghosts é um Rock
Gótico em sua essência, daqueles ensinados pelo The Sisters Of Mercy, mas
pesado e temperado com uns acordes estranguladores em sua metade. Nick Holmes
canta grave e as guitarras de Gregor Mackintosh ganharam contornos oitentistas.
Até mesmo o baixo de Stephen Edmondson foi embebido num flanger. Mas eu queria
ver esse baixo com chorus assim como o Cocteau Twins fazia.
Acabou a festa e é hora de relembrar que você é um ser humano imundo e triste. The Devil Embraced traz para si a responsabilidade de te lembrar isso com seu ritmo arrastado, teclados soturnos, fraseado de guitarra triste e Nick Holmes a sussurrar. As bases cortantes de Aaron Aedy servem de cama para Mackintosh mais uma vez experimentar com timbres limpos melodias que mais parecem nuvens plúmbeas. As influências góticas, desta vez mais imponentes e catedráticas ao estilo Dead Can Dance, emergem novamente na pesada e introspectiva Forsaken. Quem dá um show aqui é o baterista finlandês com nome de piloto de Fórmula 1, que não poupa seu kit com viradas ubíquas e ghost notes no caixa, pena que isso se torna um sério problema mais na frente. Serenity começa pesada e imponente antes de seu ritmo um pouco mais acelerado tomar conta do espaço conduzindo um solo “nwobhmiano” de Gregor Mackintosh. O groove das palhetadas para baixo acompanhadas do bumbo da bateria empolgam e elevam a alma a um estágio mais forte. Ending Days traz calma novamente ao álbum com timbres e arranjos etéreos, vocais limpos e mais um solo de bateria de Waltteri. Destaque-se após a metade a ótima melodia de guitarras tendo no baixo de Edmondson a única segurança sonora.
As duas últimas faixas revigoram novamente aquele saudosismo
dos anos 90 sem deixar de lado as características atuais da banda. Hope Dies
Young é mais uma peça gótica soturna e estonteante, com destaque para a
ponte cantada antes do refrão. No lugar de um solo propriamente dito, Gregor resolve
enublar o ambiente com uma melodia na região mais aguda da guitarra com um
timbre que lembra coisas já feitas pelo The Cure. O álbum se encerra com a miserável
e terrível Ravenghast. O deslizar das palhetas no braço das guitarras
prenuncia que um Doom Metal pesadíssimo chega para acabar com qualquer resquício
de sanidade e felicidade da mente do ouvinte. Para tal intento, a mesma não
abre mão de variar e de acelerar seu ritmo no final. Mas a base do refrão
lembra bastante o riff principal de End Of The Beggining, do Black
Sabbath.
Recobrando a consciência aos poucos após o término de Obsidian,
constato que sim, o Paradise Lost atingiu um pico de excelência dentro de sua
proposta musical após a última década e, provavelmente, em muito tempo. Não que
Mackintosh e cia. já não tenham atingidos picos de excelência antes, mas das
outras vezes em que tal objetivo foi alcançado, a banda estava em outras “vibes”
musicais. Também, Obsidian não é a perfeição em forma de álbum assim
como Draconian Times (1995), o melhor e mais belo álbum de Heavy Metal
de todos os tempos. Faltou uma música mais rápida aos moldes de Pity The
Sadness ou, indo mais além, de Terminal. Além disso, um detalhe me
pareceu bastante chato ao longo da audição do álbum: a bateria de Waltteri
Wäyrynen. Não se pode negar que o finlandês é um músico bastante técnico e
capacitado. Todavia, Waltteri praticou em boa parte de Obsidian aquilo que
eu poderia chamar de “masturbação técnica”, quando o músico profere uma técnica
absurda muito além do necessário. Querendo ou não, o Paradise Lost é uma banda
de Doom Metal em sua essência. É necessário introspecção e calma para se absorver
bem a atmosfera fria e melancólica típica do estilo (principalmente quando esse
Doom é tocado pelos reis do estilo), algo que é facilmente quebrado por uma
bateria técnica além do necessário. Já estava dando no saco conduções em tons e
viradas com milhões de notas em quase todas as faixas. Deu saudades do Lee
Morris e do Jeff Singer (que o My Dying Bride está aproveitando bem) nesse sentido. Não entendo porque Hear The Night,
um Doom Metal maravilhoso onde Waltteri toca com consciência, não entrou na
versão regular do álbum. Defiler sim, destoa bastante e sua posição como
faixa-bônus foi muito bem entregue.
A banda mais uma vez arrendou os serviços de Jaime Gomez
Arellano para a cuidar da produção e de toda a parte técnica da gravação,
que foi conduzida no Orgone Studios. A produção cristalina reforçou a imponência
das composições e a mixagem foi feliz em permitir que todos os instrumentos se
destacassem, até mesmo o poderoso baixo de Stephen Edmondson, que vinha sendo
maltratado há uns tempos atrás. A belíssima capa foi elaborada pelo novato
artista Adrian Baxter e serviu perfeitamente para embalar e apresentar
visualmente as composições de Obsidian. O camaleão mais uma vez foi certeiro
em seu ataque. Seus olhos são capazes de se mover independentemente um do
outro, de modo que um pode olhar para trás enquanto o outro mira a sua frente.
Assim, o Paradise Lost buscou as melhores referências de fases pretéritas do
grupo para aproveitá-las com perícia no presente. Imagine o que os veteranos de
Halifax ainda podem preparar para o futuro.


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