terça-feira, 26 de maio de 2020

Entrevista: Gregor Mackintosh (Paradise Lost)



Texto e entrevista: Bruno Rocha

O Paradise Lost lançou recentemente o seu décimo-sexto álbum de estúdio, Obsidian, pela gravadora Nuclear Blast e com distribuição brasileira pela Shinigami Records. Obsidian representa um marco na discografia da banda formada por Nick Holmes (vocais), Gregor Mackintosh e Aaron Aedy (guitarras), Stephen Edmondson (contrabaixo) e Waltteri Wäyrynen (bateria) por ser um dos registros mais pesados e melancólicos do grupo nos últimos tempos. Coincidentemente, este álbum foi lançado num dos períodos mais negros e tristes da história recente da humanidade com a pandemia de Covid-19. Em entrevista exclusiva ao blog THE ATMOSPHERE..., o guitarrista e principal compositor Gregor Mackintosh deu detalhes sobre o novo álbum do Paradise Lost, falou o que vem fazendo durante o isolamento social e explicou seu leque de influências oriundas do Gothic Rock, estilo que apareceu com proeminência em Obsidian, tudo isso dentre outros assuntos.

Olá, Gregor! Em primeiro lugar, gostaria de te agradecer por sua disponibilidade para responder estas perguntas e espero que você esteja bem e com saúde. Como tem sido sua rotina e seu trabalho durante a pandemia? Este período negro e de incertezas pelo qual o mundo passa tem influenciado você musicalmente de alguma forma?

Gregor Mackintosh: Eu estou bem, obrigado. A maior parte do meu tempo durante a pandemia tem consistido em promover o novo álbum do Paradise Lost. Além disso eu tenho lido muitos livros, assistido muitos filmes e ouvindo muita música. Criativamente eu comecei a trabalhar em novas composições para meu projeto paralelo, o Strigoi. Somente o tempo nos dirá se esse material virá inspirado por elementos da atual situação.

Falemos então sobre o novo álbum. Obsidian apresenta, de uma maneira mais evidente comparado com os outros álbuns lançados na última década, elementos de Rock Gótico oitentista. Em vários momentos podemos perceber arranjos que nos remetem a The Sisters Of Mercy, The Cure e Dead Can Dance, não apenas na música Ghosts, onde essas influências estão mais óbvias. Esse direcionamento foi planejado antes que os trabalhos para a concepção de Obsidian começassem?

Gregor: Influências não foram discutidas antes que começássemos a compor para o álbum. Nós apenas concordamos que deveria ser mais variado em relação ao lançamento mais recente (Medusa, 2017). Nós trabalhamos em uma música de cada vez e isto acabou nos levando a diferentes caminhos. O que me inspira em qualquer dia é o pontapé inicial para começar uma música, mas à medida em que trabalhamos nela, ela pode seguir por um caminho ou pode seguir por outro. Nós temos várias versões diferentes para cada música em qualquer momento e escolhemos depois por qual caminho seguir. Isso fez com que o processo de composição acabasse por ser divertido, apesar de que isso soe de qualquer forma, menos divertido.

A performance de Waltteri Wäyrynen na bateria me chamou bastante a atenção. Talvez este tenha sido o mais técnico trabalho de bateria da história da banda, com várias conduções nos tons, viradas criativas e “ghost-notes” no caixa. Como compositor principal, você o orienta como você quer que a bateria soe em cada música ou ele tem completa liberdade para criar?

Gregor: Eu costumo ter a bateria bem próxima do que eu quero que ela seja, de modo que ele entende isso ao mesmo tempo que tem alguma liberdade artística. O melhor sobre Waltteri é que sua tocada na bateria pode cobrir vários estilos diferentes. Isto torna as coisas muito fáceis pra mim quando eu tento explicar o que eu estou buscando em uma música. Sutileza e dinâmica estavam bem em evidência na minha mente quando conversamos sobre isso antes das gravações.

Este é o terceiro álbum do Paradise Lost gravado em parceria com o produtor Jaime Gomez Arellano no Orgone Studio, o qual ele é dono. No passado vocês também trabalharam com Jens Bogren, Rhys Fulber e e Simon Efemey, dentre outros. Como tem sido trabalhar com Jaime e o quão importante é para o Paradise Lost, uma banda que preza por uma sonoridade bastante característica e repleta de influências, ter um produtor de fora da banda para direcionar as gravações além dos aspectos técnicos?

Gregor: Tivemos uma grande experiência de aprendizado com cada produtor com quem nós trabalhamos. Rhys realmente nos trouxe foco e crença em nós mesmos. Jens nos ensinou sobre trabalhar com precisão. Nos anos mais recentes nós não precisamos realmente de um produtor para nos guiar. Nós apenas precisávamos de alguém para captar o som da banda com o melhor equipamento e com um grande entendimento do que nós estávamos tentando alcançar. E Gomez tem sido o cara para este trabalho. Ele é realmente talentoso em ajudar o artista a expressar o que eles precisam e não somente em focar na técnica.

Aaron Aedy, Stephen Edmondson, Nick Holmes, Gregor Mackintosh e Waltteri Wäyrynen

De Dooms pesados até Gothic Rock’s animados, o Paradise Lost explorou em Obsidian vários elementos musicais que construíram a discografia da banda durante as últimas três décadas sem abrir mão da melancolia, do peso, da miséria e de certa imponência em cada uma das músicas. Como vocês lidam com criar uma música tão homogênea e com uma forte personalidade mesmo com a grande variedade de influências com as quais vocês trabalham?

Gregor: Eu acho que isto vem de anos aprimorando nosso trabalho. Nós compomos e tocamos de um modo que não é mais de uma maneira consciente. Eu amo aprender, experimentar e me inspirar pelas mais diferentes coisas, mas quando tudo isso entra no caldeirão do Paradise Lost, o resultado é único de uma certa maneira.

No primeiro press-release divulgando Obsidian, a banda declarou que este álbum seria o mais eclético em muito tempo. Dado o direcionamento mais pesado que o Paradise Lost tomou nas últimas duas décadas, mais notadamente na última, eu não esperava que arranjos mais acessíveis, como os vistos em Host, por exemplo, estariam de volta com vocês. Com o Vallenfyre e agora com o Strigoi, você tem extrapolado sua vontade de tocar um Death Metal cru e sujo, que é outra forte influência de suas composições. Você planeja ou pelo menos tem vontade de tocar algo mais direcionado ao Gothic Rock ou ao Darkwave novamente em algum projeto paralelo no futuro, seja de um modo mais orgânico lembrando The Cure ou mesmo com um direcionamento eletrônico como visto em Host?

Gregor: Eu estive pensando em fazer isso durante vários anos mas eu nunca senti que havia chegado a hora certa. Eu tenho várias partes de música nesse estilo que eu fui criando ao longo dos últimos 20 anos, mas eu nunca estive convicto que essas ideias eram boas o suficiente. Talvez algum dia eu encontre inspiração para completar um álbum nesse estilo.

Eu imagino que existem diferentes períodos em sua vida onde você tem mais vontade de ouvir Death e Doom Metal e outros onde sua vontade de ouvir Gothic Rock é mais forte. Como guitarrista e compositor, quais músicos da cena Post Punk/Gótica oitentista você mais gosta de ouvir e como eles te influenciam na hora de compor e de tocar?

Gregor: Tem vários. Siouxsie and the Banshees, The Sisters of Mercy, Southern Death Cult (The Cult), Christian Death, a fase inicial do The Cure, Bauhaus, Depeche Mode, Dead Can Dance... Todas estas bandas tem diferentes elementos que eu admiro e que me inspiram de várias maneiras. Lisa Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) são os mestres da fluidez e da dinâmica, indo do mais silencioso sussurro até o crescendo mais bombástico. Gore (Martin, Depeche Mode) compõe os sucessos mais pegajosos. Robert Smith (The Cure) e Siouxsie me ajudaram a compreender as sutilezas para criar paisagens sonoras. Sisters me mostrou que simplicidade pode as vezes ser melhor. Mas todas estas bandas pintam imagens com suas músicas e é isto que eu almejo fazer.

Para finalizar esta entrevista, mate-me uma curiosidade a qual você é uma das únicas pessoas no mundo que podem fazer isso. Exceto pelo baterista, o Paradise Lost mantém a mesma formação desde o começo há 32 anos com você, Nick, Aaron e Stephen. Qual é o segredo para manter uma formação tão longeva e conectada apesar de tantos acontecimentos e de mudanças de sonoridade?

Gregor: Nós compartilhamos do mesmo estilo de vida ao longo de nossos crescimentos. Viemos de uma classe trabalhadora, do Norte da Inglaterra, com estas perspectivas humildes e com um senso de humor autodepreciativo. Nenhum tipo de ego pode sobreviver neste tipo de ambiente e o ego é o que costuma acabar com várias bandas.

O blog agradece a Karina Somacal e a equipe Shinigami Records pelo valioso apoio.





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