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| FG Trade / Getty Images |
Ninguém, nem o mais pessimista dos terráqueos, nem mesmo os astrólogos ou aqueles videntes que subsistem na televisão, poderia imaginar ou prever a hecatombe sanitária pela qual o mundo passa em 2020. Um vírus cujo contágio se dá forma selvagem se espalhou por todo o planeta (menos no Turcomenistão, já que o "presidente" de lá afirma de pé junto que lá não existe nenhum caso), forçando assim a parada de todas as instâncias das sociedades como há muito tempo não se via. Se a coisa afetou tão fortemente até as maiores economias e corporações do mundo, imagine então para o lado mais fraco da corda, onde se localiza o Rock underground.
Com a preocupação maior em salvar a vida das pessoas e evitar que o coronavírus adoeça grande parte da população e mate aqueles que forem afetados de forma mais grave, aglomerações estão proibidas e as pessoas estão sendo orientadas a não saírem de casa em uma profilaxia enormemente comunitária chamada "isolamento social". Consequentemente, trazendo para o escopo deste humilde blog, que é o que interessa a vocês caros leitores, shows foram cancelados e as bandas estão tendo que se reinventar para manter o contato com o público. Daí surgiram a ideia das famosas lives.
Não que elas já não existissem, mas tendo em vista a atual conjuntura do mundo, as lives se tornaram praticamente a única maneira de os artistas apresentarem sua arte àqueles que a apreciam.
Dentro do mundo gótico, grupos como Ash Code, Sonsombre, Plastique Noir e Hapax, dentre vários outros cujos nomes a memória me veta neste momento (comentem aqui ou nas redes sociais do blog, por favor. Nunca vos pedi nada), já fizeram as suas lives para entreter o público que se enclausura em suas casas em meio à pandemia. Tocando juntos num mesmo ambiente ou então com cada integrante tocando em seu domicílio, para depois sincronizar tudo para ir ao ar de uma forma organizada, as bandas se viram como podem usando sua criatividade e seus recursos, lançando mão de jogos de luzes, de efeitos de vídeo ou mesmo fazendo algo mais simplista e caseiro. o duo francês Dear Deer fez sua live de dentro de uma cozinha, por exemplo. Os cariocas do Última Dança fizeram num sofá mesmo, com violão e teclado portátil. São diferentes formas de angariar a atenção do ouvinte em meio ao concorrido e sempre lotado palco da internet.
Uma iniciativa do tipo vem chamando a atenção. O Gothicat, loja virtual que vende produtos do universo gótico customizados com imagens de gatos, produziu e pôs no ar o Gothicat Festival, evento on-line cujo objetivo foi apresentar vídeos nunca divulgados antes por bandas do cenário Pós-Punk, Gothic Rock, Darkwave e vertentes, com apresentação de André Savetier, vocalista das bandas Deus Faust e Tenebris Obortis e responsável pelo canal The Wave Of Things. Não só com a intenção de apresentar vídeos, como descrito, o Gothicat Festival também apela para o lado social, já que, durante as transmissões, os espectadores podem fazer doações online para instituições de saúde que prestam serviços de combate ao Covid-19.
A primeira edição, que foi transmitida no último dia 12 de abril, contou com colaborações de importantes nomes como Clan Of Xymox (com um raro vídeo de uma apresentação de 1982), Lebanon Hanover, She Past Away, Minuit Machine, Molchat Doma e várias outras bandas. A aceitação foi tamanha que foi mister uma segunda edição, desta vez com a curadoria sendo feita pelos próprios fãs através de uma enquete. Outras bandas indicadas pelos fãs através desta mesma enquete comporão a terceira edição do Gothicat Festival, que irá ao ar no próximo dia 23 de maio e que contará com a participação dos cearenses do Plastique Noir, além de outros nomes importantes como Nosferatu, Merciful Nuns, Bleib Modern, Iamtheshadow, O Children e et cetera.
A iniciativa vem gerando ecos. Tanto é que um novo projeto do tipo será colocado em prática a partir do próximo dia 22 de maio, sexta-feira, bem no Dia Mundial da Cultura Gótica. Será a primeira edição do Festival Under Latinoamericano, que está sendo organizado pela produtora peruana Tumbas Eternas Producciones. Como o nome do festival delata, o mesmo será composto somente por bandas de países latino-americanos. Nesta primeira edição, um total de 26 bandas do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Costa Rica, Venezuela, Equador e Uruguai estão escaladas. Representando o nosso país estarão Plastique Noir, Ego Eris, Herzegovina e Jenni Sex. Dos outros países, alguns dos nomes confirmados são Los Malkavian, Gorgonas, Delirium Mask e El Ansia.
O Darkitalia, produtora de shows e webzine, também está organizando uma live nos mesmos moldes para o próximo dia 23. Será o World Gothic Day #FEST, que contará com colaborações de Clan Of Xymox, Molchat Doma, Iamtheshadow, Bedless Bones, Hapax, Sonsombre e outras bandas, totalizando um número de 32 grupos participantes. É tanta live que dá até para escolher!
Tais entretenimentos são essenciais em tempos que não podemos sair de casa para aproveitar a cultura nos lugares onde ela transmite o melhor de suas sensações. E, talvez, as lives rejam um paradigma que será seguido daqui em diante mesmo após a pandemia em uma nova forma que os artistas têm de se conectar com seus fãs neste moderno, maquinado e globalizado mundo. Entretanto, o que mais queremos de verdade é poder sair de casa e ver nossas bandas preferidas ao vivo, apoiar nossos artistas in loco e nos animarmos ao som dos DJ's que sempre discotecam aquelas nossas músicas preferidas. As lives, não obstante serem ideias criativas e que nos saciam bem neste período, jamais passarão o mesmo sentimento e sinergia que nos impacta nas apresentações ao vivo, onde podemos não somente ver os artistas se expressando ao vivo, como também temos a oportunidade de estarmos perto das pessoas que nos fazem bem.
Este é um período de sacrifício. O novo coronavírus é inclemente e espalhou sua chaga virulenta por toda a Terra (menos no Turcomenistão). Nossa única forma de combater seu contágio selvagem é nos resguardarmos em casa na medida do possível e seguir as recomendações das autoridades científicas e sanitárias. Enquanto líderes estúpidos e ineptos tentam a todo custo desacreditar a ciência em prol de ver em prática teorias conspiratórias ao mesmo tempo em que milhões de seguidores cegos ruminam e mugem ante qualquer atitude nojenta de seus líderes, devemos ser o lado consciente deste período de trevas e de incertezas. Cuidemo-nos. Assim, o quanto antes for possível, poderemos voltar a nossa vida normal. Nem que seja ao "novo normal" que especialistas vem falando em suas colunas, blogs e entrevistas. Espero otimista que seja um "novo normal" com saúde, esperança e cultura, tão legal quanto o antigo normal.




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