segunda-feira, 18 de maio de 2020

Resenha: Pontagulha - Memórias Mortas (EP, 2020)



MEMÓRIAS MORTAS - PONTAGULHA (EP, independente, 2020)

Tracklist:
01. Dimensão
02. Memórias Mortas
03. Ruínas
04. Noites Urbanas

Line-up (gravação):
Lucas Caducco - vocais, guitarras, contrabaixo
Gabriel Vieira - sintetizadores, programação

Line-up (atual):
Lucas Caducco - vocais, guitarras
Jocélio Freitas - guitarras
Guilherme Santos - contrabaixo



Texto: Bruno Rocha

O fato de que a música obscura chega até os mais longínquos ou interioranos rincões deste país pode surpreender quem não acompanha a movimentação desta vertente musical de perto, mas não é novidade para quem a devora com afinco. De Uruburetama, cidade cearense que dista 114 Km da capital Fortaleza, vem a banda Pontagulha, que estreou recentemente com o EP Memórias Mortas trazendo quatro faixas que demostram muito conhecimento de causa em uma musicalidade que mescla elementos do Darkwave e do Coldwave.


Formado por Lucas Caducco (vocais, guitarras, Casebre Alternativo) em 2017, a banda é composta também por Guilherme Santos (contrabaixo) e por Jocélio Freitas (guitarras). Seu nome teve uma origem curiosa e tocante: Lucas afirma que sonhou com sua avó após o falecimento da mesma em 2019. No sonho, ela dizia que o nome da banda deveria ser “Pontagulha” e que, a partir disso, portas seriam abertas para o projeto. Apesar de a formação ser o trio citado no começo deste parágrafo, o EP foi gravado sozinho por Lucas com seus próprios equipamentos em Uruburetama, assumindo também o contrabaixo. O produtor paulista Gabriel Vieira se disponibilizou para masterizar o trabalho e também para registrar os sintetizadores e as programações.

O EP se inicia com Dimensão, música que entrega a tônica que o EP seguirá dali em diante: melodias simples, soturnas e bastante eficientes no sentido de captar a atenção do ouvinte, levando-o a introspecção. Um generoso reverb foi adicionado para aumentar a sensação nebulosa que a música perpassa. Lucas aposta em vocais barítonos na faixa seguinte, a que dá nome ao EP, cujos arranjos casam bem com as letras que falam de solidão. É possível imaginar-se caminhando solitariamente no Centro de Uruburetama tarde da noite, contemplando o céu escuro e nevoento, sentindo frio e onde a única companhia são as luzes dos postes.

Para este escriba, o maior destaque do EP é a faixa de nº 3, Ruínas. Começando com um ritmo lento que destaca os bumbos da bateria programada, esta composição traz consigo novamente uma carga soturna, a qual se apresenta mais forte ainda do que na faixa de abertura graças às simples, mas negras, melodias de guitarra. É como se os americanos do French Police se encontrassem com os fortalezenses do Plastique Noir. O clímax próximo ao seu final é estonteante e poderia ter sido mais impactante ainda se um fade-out não esvaísse a música tão logo. O EP se encerra com Noites Urbanas, dona de uma atmosfera distinta de suas três antecessoras, mais cinzenta e nublada. Entretanto, inconscientemente ou não, esta música mais parece uma versão desacelerada de Rituel, do She Past Away.

Algo que precisa ser revisto pela banda é a forte dose de reverb que é dedicada especialmente aos vocais. Quando Caducco resolve lançar mão de linhas vocais mais graves, o reverb esconde tanto a performance de canto que entender as letras se torna uma tarefa complicada para um ouvido mais incauto, como se pode notar em Dimensão e em Noites Urbanas. Afora este detalhe, a produção e a mixagem dosaram na medida certa cada instrumento, deixando tudo bastante nítido aos ouvidos de quem ousa penetrar na musicalidade fria, mas convidativa, do Pontagulha. Os sintetizadores são discretos e tão somente têm a missão de reforçar o clima das composições, deixando as guitarras em posição de destaque para derramar suas melodias.

Musicalmente, o Pontagulha está no caminho certo e deixa uma boa impressão com Memórias Mortas. Esta impressão se converte em ansiedade quando paramos para imaginar o que a banda pode nos mostrar no futuro em termos de novas composições. De qualquer forma, o Pontagulha já se mostra como uma ótima alternativa para quem busca uma sonoridade Darkwave mais simples e introspectiva, mas que não deixa de lado os toques sombrios e a atmosfera fria.


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