MEMÓRIAS MORTAS - PONTAGULHA (EP, independente, 2020)
Tracklist:
01. Dimensão02. Memórias Mortas
03. Ruínas
04. Noites Urbanas
Line-up (gravação):
Lucas Caducco - vocais, guitarras, contrabaixo
Gabriel Vieira - sintetizadores, programação
Line-up (atual):
Lucas Caducco - vocais, guitarras
Jocélio Freitas - guitarras
Guilherme Santos - contrabaixo
Texto: Bruno Rocha
O fato de que a música obscura chega até os mais longínquos ou
interioranos rincões deste país pode surpreender quem não acompanha a movimentação
desta vertente musical de perto, mas não é novidade para quem a devora com
afinco. De Uruburetama, cidade cearense que dista 114 Km da capital Fortaleza,
vem a banda Pontagulha, que estreou recentemente com o EP Memórias
Mortas trazendo quatro faixas que demostram muito conhecimento de causa em
uma musicalidade que mescla elementos do Darkwave e do Coldwave.
Formado por Lucas Caducco (vocais, guitarras, Casebre Alternativo) em 2017, a banda é composta também por Guilherme Santos (contrabaixo) e por Jocélio Freitas (guitarras). Seu nome teve uma origem curiosa e tocante: Lucas afirma que sonhou com sua avó após o falecimento da mesma em 2019. No sonho, ela dizia que o nome da banda deveria ser “Pontagulha” e que, a partir disso, portas seriam abertas para o projeto. Apesar de a formação ser o trio citado no começo deste parágrafo, o EP foi gravado sozinho por Lucas com seus próprios equipamentos em Uruburetama, assumindo também o contrabaixo. O produtor paulista Gabriel Vieira se disponibilizou para masterizar o trabalho e também para registrar os sintetizadores e as programações.
O EP se inicia com Dimensão, música que entrega a
tônica que o EP seguirá dali em diante: melodias simples, soturnas e bastante
eficientes no sentido de captar a atenção do ouvinte, levando-o a introspecção.
Um generoso reverb foi adicionado para aumentar a sensação nebulosa que a
música perpassa. Lucas aposta em vocais barítonos na faixa seguinte, a que dá
nome ao EP, cujos arranjos casam bem com as letras que falam de solidão. É
possível imaginar-se caminhando solitariamente no Centro de Uruburetama tarde
da noite, contemplando o céu escuro e nevoento, sentindo frio e onde a única
companhia são as luzes dos postes.
Para este escriba, o maior destaque do EP é a faixa de nº 3,
Ruínas. Começando com um ritmo lento que destaca os bumbos da bateria
programada, esta composição traz consigo novamente uma carga soturna, a qual se
apresenta mais forte ainda do que na faixa de abertura graças às simples, mas
negras, melodias de guitarra. É como se os americanos do French Police se
encontrassem com os fortalezenses do Plastique Noir. O clímax próximo ao seu
final é estonteante e poderia ter sido mais impactante ainda se um fade-out não
esvaísse a música tão logo. O EP se encerra com Noites Urbanas, dona de
uma atmosfera distinta de suas três antecessoras, mais cinzenta e nublada. Entretanto,
inconscientemente ou não, esta música mais parece uma versão desacelerada de Rituel,
do She Past Away.
Algo que precisa ser revisto pela banda é a forte dose de
reverb que é dedicada especialmente aos vocais. Quando Caducco resolve lançar
mão de linhas vocais mais graves, o reverb esconde tanto a performance de canto
que entender as letras se torna uma tarefa complicada para um ouvido mais
incauto, como se pode notar em Dimensão e em Noites Urbanas.
Afora este detalhe, a produção e a mixagem dosaram na medida certa cada
instrumento, deixando tudo bastante nítido aos ouvidos de quem ousa penetrar na
musicalidade fria, mas convidativa, do Pontagulha. Os sintetizadores são
discretos e tão somente têm a missão de reforçar o clima das composições,
deixando as guitarras em posição de destaque para derramar suas melodias.
Musicalmente, o Pontagulha está no caminho certo e deixa uma
boa impressão com Memórias Mortas. Esta impressão se converte em ansiedade quando
paramos para imaginar o que a banda pode nos mostrar no futuro em termos de novas
composições. De qualquer forma, o Pontagulha já se mostra como uma ótima alternativa
para quem busca uma sonoridade Darkwave mais simples e introspectiva, mas que
não deixa de lado os toques sombrios e a atmosfera fria.


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