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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Aleah Starbridge: hoje, o Rouxinol da Tristeza completaria 43 anos de idade



Texto: Bruno Rocha

O Rouxinol da Tristeza cantava de forma diferente de seus pares. Enquanto os outros rouxinóis cantavam alegremente e assim também alegravam aqueles que os ouviam, o rouxinol o qual me refiro cantava sobre suas dores e sua solidão. Sua música era triste, sua voz, fantasmagórica, sua aparência, hipnótica. Mas o poder que sua voz tinha era mais forte e atraente que as dos demais. Sua voz era feitiço, encantava a qualquer um que a ouvisse, tal qual uma sereia mitológica que enganava e atraia para a morte os fracos navegantes da época. Aqueles que ousaram ouvir o seu canto estão inebriados até hoje, mesmo após sua triste partida.

Julia Liane Stanbridge nasceu na África do Sul, mais precisamente na Cidade do Cabo, no primeiro dia do sétimo mês de 1976. Seus pais eram de origem britânica e sueca. O trabalho de sua mãe exigia que ela viajasse constantemente, de modo que sua filha Julia nasceu distante de onde ela depois tomaria base. Somente no começo dos anos 2000 foi que Julia veio se fixar definitivamente na Suécia, onde ela iria ficar conhecida pelo seu trabalho musical. Suas primeiras participações em gravações de estúdio aconteceram em trabalhos eletrônicos, fazendo participações em álbuns lançados por Krister Linder e Omnimotion no ano de 2006. Sua primeira empreitada solo foi lançada em 2007, sob o nome artístico pelo qual ela se tornaria mais conhecida, Aleah.

Suas músicas solo funcionavam movidas unicamente por um violão, como um Folk tocado na beira de um pequeno lago, dentro de uma floresta nublada e úmida. Sua voz já trazia suas principais características: embebida em reverb, o Rouxinol cantava suavemente e de forma sombria e tímida, ingredientes suficientes para encantar o ouvinte incauto. Um dos muitos que ficaram encantados por sua voz foi o músico Andy Cousin, do All About Eve e que também já foi integrante do The Mission. Andy e Aleah fundaram o projeto de Rock Gótico That Which Remains, que esteve na ativa somente em estúdio entre 2007 e 2008. Foi neste período que Aleah começou a trabalhar em outro projeto, aquele que seria sua verdadeira metamorfose em forma de música.



Desta vez, seu parceiro musical seria Juha Raivio, guitarrista da banda de Melodic Death/Doom Metal Swallow The Sun. Eles seriam parceiros não só musicalmente, mas também platonicamente. A química que existia entre ambos não contribuiu somente com o amor que era mútuo, mas também na criação de composições musicais únicas e doloridas. Ambos botaram em prática a partir de 2009 o projeto Trees Of Eternity. Este projeto era um pouco parecido com a sonoridade Death/Doom da banda original do guitarrista, mas era mais atmosférico e etéreo, graças principalmente à contribuição criativa do Rouxinol. O primeiro fruto deste combo musical só foi revelado ao mundo em 2013, através da demo Black Ocean, que trazia em si quatro composições. Estas foram reaproveitadas no primeiro lançamento oficial do grupo, Hour Of The Nightingale (Hora do Rouxinol), lançado em 2016 via Svart Records.

Na verdade, o álbum começou a ser gravado em 2014 e os músicos que o gravaram formavam uma seleção do Doom Metal da época. Além do Rouxinol e de Juha Raivio, o Trees Of Eternity contava com os irmãos Fredrik e Mattias Norrman na guitarra e no baixo, respectivamente. Na bateria, tínhamos Kai Hahto, que até recentemente era baterista do Nightwish. O Atmospheric Doom Metal do grupo não tinha nada de guitarras beirando o Death Metal ou vocais guturais, como é de costume no chamado Metal Gótico. O enfoque do Trees Of Eternity era passional. Nada poderia alterar a concentração do ouvinte, ou tirá-lo do transe hipnótico ao qual o mesmo era submetido ao ouvir a voz doce e fantasmagórica de Aleah Starbridge (sim, seu nome artístico incorporou um “R” no sobrenome, passando a ser StaRbridge). A atmosfera criada pelas músicas e pela voz do Rouxinol era absurdamente densa, sombria, soturna. Mas ao mesmo tempo bela e aconchegante. Formava-se no álbum um ambiente nublado e frio, que emanava muita tristeza e, ao mesmo tempo, amor e saudade. Não raro as músicas trazem lágrimas aos olhos do ouvinte devido a grande carga emocional imprimida pela voz de Aleah e pelas melodias tristes e inspiradíssimas de Juha Raivio.




Não deu tempo de Aleah Starbridge ver sua obra-prima revelada ao mundo. Ela partiu deste plano aos 18 dias do quarto mês de 2016, sete meses antes do lançamento oficial de Hour Of The Nightingale. O álbum foi lançado postumamente e, portanto, serviu como epitáfio para o túmulo do Rouxinol, exibindo ao mundo todo o poder de sua voz e de sua interpretação. A vida imita a arte, afinal. Tristemente, a música do Trees Of Eternity faz muito mais sentido sabendo que sua mentora-mor já partiu daqui. Ela, que cantava sobre saudade, tristeza e morte, sem querer prenunciava a sua própria partida. Um câncer a levou na tenra idade de 39 anos e deixou na Terra sua obra e seu legado musical e poético. Ficou também a sua voz, em forma de ecos distantes, reverberada aos quatro ventos pelos tormentos da melancolia, que torna tudo úmido e escuro. O poder de sua voz é tamanho que não se faz necessária a presença de sua pessoa aqui na Terra. Sua própria voz continua a enfeitiçar e congelar a cada um que a ouve.

Aleah Starbridge também colaborou em músicas do Swallow The Sun, de seu parceiro Juha Raivio, e do Amorphis, banda finlandesa de Metal Progressivo. Raivio deu início então ao projeto Hallatar, como forma de eternizar e mostrar ao mundo as criações artísticas que Aleah ainda tinha escondidas. O primeiro álbum do Hallatar não poderia ter nome mais sugestivo: No Stars Upon The Bridge.

Se o Rouxinol virou estrela ou não, ninguém sabe. Fato é que os outros rouxinóis da Terra não conseguem emular seu canto soturno e hipnótico. Eles são comuns. Só conseguem alegrar e cantar alegrias. Mal sabem eles que a vida é uma mistura fatal de alegrias e tristezas, sendo as segundas mais abundantes que as primeiras. Vai ver, eles mesmos ficaram tristes com a partida de Aleah...

“À noite, as cortinas descem / Dentro da escuridão eu vagueio / Perdendo tudo que encontrei / Para o meu próprio desânimo / Meu tempo chegou a um fim.” (Trees Of Eternity - My Requiem)



sábado, 29 de junho de 2019

Resenha: O Quarto de Helena - Diário das Noites (2019)


Diário das Noites - O Quarto de Helena (independente, 2019)

Tracklist:
01. Escura Primavera
02. Eram Eles
03. Contos de Solidão
04. Um Caminho Antigo
05. Mariana
06. Luzes

Line-up:
Fabiano Souza - vocais, violão
Anderson Morphis - teclados
Andressa Costa - programações



Texto: Bruno Rocha

Resolvo mais uma vez adentrar n’O Quarto De Helena. Um quarto obscuro e sombrio, úmido e frio. Intimidador por sua opulência tão simplória. Aconchegante por sua atmosfera de dor. Não, não há nada lá. Nem cama, nem criado-mudo. Muito menos abajur. O que encontro n’O Quarto De Helena é tudo aquilo que minha mente cria em sua oficina, inspirada pela atmosfera e pelas provocações do lugar, criando assim reflexos de meus sentimentos e saudades em forma de música. Isso, reflexos. Espelhos. Existem espelhos n’O Quarto De Helena. Você tem coragem de encará-los?

O projeto musical do trio Fabiano Souza (vocais, violão, Última Dança), Anderson Morphis (teclados, Mortiferik, Harmony Hate, etc.) e Andressa Costa (programações) lançou recentemente seu segundo EP, intitulado Diário das Noites, que traz em si mais seis composições que exploram o lado mais soturno do ser humano e que provocam as mais retraídas sensações da mente do ouvinte, como saudade, tristeza e dor. O estilo musical do grupo permanece inalterado em relação à estreia autointitulada, de 2017, promovendo em suas composições um tipo lento e sofrido de Darkwave, com alguma influência Folk, influência essa reforçada pelo violão de Fabiano Souza. Então, aqueles que já conheciam O Quarto de Helena, podem esperar por aquela mesma atmosfera nublada de outrora em Diário das Noites. Esta que serve como alicerces e paredes do Quarto.

A abertura com Escura Primavera é tão negra e sofrida que pega o ouvinte despreparado e o derruba para o canto do Quarto, massacrado pela pressão de sua mente. Tocada na sombria escala de Fá Sustenido Menor, a combinação dos teclados de Morphis (em piano, chorus e strings) e da minimalista bateria programada de Andressa é adornada pelo violão bem encaixado, formado um conjunto que serve de base para que a belíssima e calma voz de Fabiano cante suas dores e saudades de forma pesarosa. Amanhece e chove lá fora do Quarto; é a música Eram Eles, cinza, nublada e atraente, lembrando em sua estrutura de arranjos os grupos de Ethereal Wave como Autumn’s Grey Solace, graças aos timbres atmosféricos escolhidos por Morphis. Ainda na segunda música chego à conclusão que palavras são insuficientes para expressar o quão forte e doloroso é o som do Quarto de Helena. Mas as palavras são as únicas ferramentas que disponho para tão hercúleo trabalho. Sigamos em frente tentando desvendar os segredos do Quarto.

Um pouco menos lenta, lembrando um pouco o Última Dança, é a faixa Contos de Solidão, que ilumina um pouco o Quarto. Esta composição é conduzida por uma guitarra de timbre embebido em flanger e tremolo que mais parece a mente a melancólica mente do ouvinte. Um Caminho Antigo traz algo inédito n’O Quarto de Helena, algo que se aproxima de um riff em seu começo com uma harmonia de violão e teclado. Mais contida, esta última faixa prepara terreno para Mariana, uma composição bela e etérea, que parece conduzir o ouvinte por sonhos de paz em meio a um entardecer escarlate. O EP se encerra com a atmosférica Luzes, minimalista em sua condução percussiva. Praticamente o único elemento harmônico nesta música é o violão e a voz de Fabiano. Falando em morte, Luzes se revela na verdade como aquela que leva em definitivo aquele que ousou entrar no Quarto de Helena, achando que Mariana era apenas um sonho. Prova disso são os choros carpideiros que emergem ao final da faixa.

Aos poucos a música se esvai, deixando somente uma sensação de vazio e tormenta na mente daquele que entrou no Quarto. Um momento de reflexão se abate no recinto ao novamente encarar os espelhos lá posicionados, revelando que na verdade tudo na vida é vaidade, é passageiro. Consegui sair do Quarto e voltar à realidade, mas não da mesma forma que entrei. Sentindo o clima das músicas e meditando nas letras das mesmas, tornou-se claro que a vida é efêmera e passageira. As lembranças marcam como ferro na pele e ardem sem que nos preparemos antes.

O Quarto de Helena é uma entidade musical necessária para o cenário Darkwave pela sua originalidade e ousadia, conseguindo fazer com o minimamente necessário uma música grandiosa e poderosa, capaz de congelar seus pensamentos e evocar os sentimentos ocultos. Diário das Noites é mais um documento que atesta tudo que foi relatado neste diagnóstico musical. Coragem, entre no Quarto, querido leitor! Faz bem, é inebriante. Helena te convida, seja lá aquilo que for a Helena de seus pensamentos.