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sábado, 21 de março de 2020

Cubüs: duo carioca de Synthpop lança novo single, “Os Gritos Não Se Calam”


Os quase 17 anos de atividade do duo carioca Cubüs renderam a eles o posto de um dos principais representantes do Synthpop daquele estado. Para marcar este primeiro período de 2020 em sua história, o Cubüs lançou em várias plataformas digitais o single Os Gritos Não Se Calam. A música ganhou um clipe, o qual você pode conferir no player ao final desta nota.

O single representa um retorno do Cubüs às atividades, tendo em vista a pequena pausa que foi tomada após a sua turnê comemorativa de 15 anos. Os Gritos Não Se Calam foi gravado entre dezembro do ano passado e janeiro último e estará presente na coletânea Memorias De Um Continente III, organizado pelo selo Infravox Records, do Peru.

Segundo Diego de Oliveira, vocalista do duo – que conta também com Karlos Junior nos sintetizadores -, a música é uma espécie de desabafo contra a postura niilista dos governantes do país.

“’Os Gritos Não Se Calam’ foi uma forma de expurgar tudo de ruim que se passava em minha mente desde o resultado das eleições em 2018 no Brasil. O mundo vem cada vez mais sendo tomado de assalto por ideais violentos, governantes que não compreendem as demandas da população e suas transformações... Ficamos surpresos com os desejos dessa ‘seita’ tenebrosa em acabar com tudo que, para nós, é racional e justo.

Mas também é uma mensagem de esperança: Nem todos se alinham à essa corrente negativa e estamos dispostos a resistir. Músicas talvez não possam mudar o mundo, mas talvez consigam, aos poucos, mudar as pessoas que vivem nele. Arte é resistência (e também diversão).”

Musicalmente, Os Gritos Não Se Calam traz o conhecido Synthpop analógico e distorcido do Cubüs, em uma construção de arranjos que remete ao oitentismo e que também carrega em sua essência um pouco da atmosfera fria do Darkwave. O single conta com uma segunda faixa, Sexo, Drogas, Aborto & Satanismo, que nada mais é do que uma experimentação noise frenética e alucinante, que mais parece a mente atrasada da pessoa que disse a frase que carrega o título da música uns meses atrás.

Os Gritos Não Se Calam foi lançado via Paranoia Musique e está disponível nas plataformas digitais desde o dia 06 de março. No momento, o Cübus se prepara para suas primeiras apresentações de 2020 e também já está engajado no processo de gravação do esperado segundo álbum.

Confira abaixo o clipe de Os Gritos Não Se Calam:

sábado, 29 de junho de 2019

Resenha: O Quarto de Helena - Diário das Noites (2019)


Diário das Noites - O Quarto de Helena (independente, 2019)

Tracklist:
01. Escura Primavera
02. Eram Eles
03. Contos de Solidão
04. Um Caminho Antigo
05. Mariana
06. Luzes

Line-up:
Fabiano Souza - vocais, violão
Anderson Morphis - teclados
Andressa Costa - programações



Texto: Bruno Rocha

Resolvo mais uma vez adentrar n’O Quarto De Helena. Um quarto obscuro e sombrio, úmido e frio. Intimidador por sua opulência tão simplória. Aconchegante por sua atmosfera de dor. Não, não há nada lá. Nem cama, nem criado-mudo. Muito menos abajur. O que encontro n’O Quarto De Helena é tudo aquilo que minha mente cria em sua oficina, inspirada pela atmosfera e pelas provocações do lugar, criando assim reflexos de meus sentimentos e saudades em forma de música. Isso, reflexos. Espelhos. Existem espelhos n’O Quarto De Helena. Você tem coragem de encará-los?

O projeto musical do trio Fabiano Souza (vocais, violão, Última Dança), Anderson Morphis (teclados, Mortiferik, Harmony Hate, etc.) e Andressa Costa (programações) lançou recentemente seu segundo EP, intitulado Diário das Noites, que traz em si mais seis composições que exploram o lado mais soturno do ser humano e que provocam as mais retraídas sensações da mente do ouvinte, como saudade, tristeza e dor. O estilo musical do grupo permanece inalterado em relação à estreia autointitulada, de 2017, promovendo em suas composições um tipo lento e sofrido de Darkwave, com alguma influência Folk, influência essa reforçada pelo violão de Fabiano Souza. Então, aqueles que já conheciam O Quarto de Helena, podem esperar por aquela mesma atmosfera nublada de outrora em Diário das Noites. Esta que serve como alicerces e paredes do Quarto.

A abertura com Escura Primavera é tão negra e sofrida que pega o ouvinte despreparado e o derruba para o canto do Quarto, massacrado pela pressão de sua mente. Tocada na sombria escala de Fá Sustenido Menor, a combinação dos teclados de Morphis (em piano, chorus e strings) e da minimalista bateria programada de Andressa é adornada pelo violão bem encaixado, formado um conjunto que serve de base para que a belíssima e calma voz de Fabiano cante suas dores e saudades de forma pesarosa. Amanhece e chove lá fora do Quarto; é a música Eram Eles, cinza, nublada e atraente, lembrando em sua estrutura de arranjos os grupos de Ethereal Wave como Autumn’s Grey Solace, graças aos timbres atmosféricos escolhidos por Morphis. Ainda na segunda música chego à conclusão que palavras são insuficientes para expressar o quão forte e doloroso é o som do Quarto de Helena. Mas as palavras são as únicas ferramentas que disponho para tão hercúleo trabalho. Sigamos em frente tentando desvendar os segredos do Quarto.

Um pouco menos lenta, lembrando um pouco o Última Dança, é a faixa Contos de Solidão, que ilumina um pouco o Quarto. Esta composição é conduzida por uma guitarra de timbre embebido em flanger e tremolo que mais parece a mente a melancólica mente do ouvinte. Um Caminho Antigo traz algo inédito n’O Quarto de Helena, algo que se aproxima de um riff em seu começo com uma harmonia de violão e teclado. Mais contida, esta última faixa prepara terreno para Mariana, uma composição bela e etérea, que parece conduzir o ouvinte por sonhos de paz em meio a um entardecer escarlate. O EP se encerra com a atmosférica Luzes, minimalista em sua condução percussiva. Praticamente o único elemento harmônico nesta música é o violão e a voz de Fabiano. Falando em morte, Luzes se revela na verdade como aquela que leva em definitivo aquele que ousou entrar no Quarto de Helena, achando que Mariana era apenas um sonho. Prova disso são os choros carpideiros que emergem ao final da faixa.

Aos poucos a música se esvai, deixando somente uma sensação de vazio e tormenta na mente daquele que entrou no Quarto. Um momento de reflexão se abate no recinto ao novamente encarar os espelhos lá posicionados, revelando que na verdade tudo na vida é vaidade, é passageiro. Consegui sair do Quarto e voltar à realidade, mas não da mesma forma que entrei. Sentindo o clima das músicas e meditando nas letras das mesmas, tornou-se claro que a vida é efêmera e passageira. As lembranças marcam como ferro na pele e ardem sem que nos preparemos antes.

O Quarto de Helena é uma entidade musical necessária para o cenário Darkwave pela sua originalidade e ousadia, conseguindo fazer com o minimamente necessário uma música grandiosa e poderosa, capaz de congelar seus pensamentos e evocar os sentimentos ocultos. Diário das Noites é mais um documento que atesta tudo que foi relatado neste diagnóstico musical. Coragem, entre no Quarto, querido leitor! Faz bem, é inebriante. Helena te convida, seja lá aquilo que for a Helena de seus pensamentos.