O Soft Cell está de volta (mais uma vez) para, enfim,
lançar material inédito. O anúncio foi feito por Dave Ball, tecladista
do duo, em entrevista ao Associated Press.
Ball afirmou que ele e o vocalista Marc Almond estão
trabalhando remotamente em novas composições para o Soft Cell. Este novo
material deve ser lançado em 2021 e será o primeiro trabalho de inéditas do duo
desde Cruelty Without Beast, de 2002.
Entre diversas idas e vindas, o Soft Cell havia se reunido pela
última vez em 2018 para um único show na Arena O2 em Londres com o intuito de
rememorar os quarenta anos do duo. Recentemente, Dave Ball lançou sua autobiografia
Electronic Boy: My Life In And Out Of Soft Cell.
O Soft Cell foi fundado em 1977 na cidade inglesa de Leeds e
se tornou uma das principais representantes do Synthpop oitentista muito embora
o duo tenha passado por um fim precoce em 1984. Neste período foram lançados três
full-lengths e um EP. Uma breve reunião aconteceu entre 2001 e 2003, na qual
foi composto e lançado um quarto full-length.
Provavelmente você já deve ter dançado ao som de Tansevat,
do Molchat Doma. Vou mais além: você já deve conhecer várias músicas do
trio Pós-Punk da Bielorrússia. Se você não atende a nenhuma das duas afirmações
anteriores, você está perdendo tempo.
O Pós-Punk do lado de lá da Europa tem uma sonoridade
peculiar e facilmente reconhecível graças a simplicidade dos arranjos e o clima
nublado que elas criam que mais parecem versões musicais das imponentes
arquiteturas e construções soviéticas. Desde os pioneiros do Kino até
nomes atuais como Human Tetris, Ploho, Supernova 1006 e Buerak, o
Pós-Punk russo se mantém forte, coeso e relevante na atualidade.
Mas o Molchat Doma é um caso bastante peculiar e específico.
Primeiro que eles não são da Rússia. São de Belarus, nome oficial do país que
conhecemos como Bielorrússia. Belarus fica localizado a Oeste da Rússia e ao
Norte da Ucrânia e fazia parte até o começo dos anos 90 da União Soviética. O
segundo ponto advém de sua sonoridade. Resguardando as tradições do Pós-Punk de
seu país vizinho, o Molchat Doma consegue elaborar uma identidade musical para
si próprio mesclando elementos de Coldwave e Synthpop. Terceiro, e não menos
importante, o grupo trabalha muito bem a parte visual, que inclui logos, capas
de álbuns e figurinos dos integrantes. Não vai dizer que não reconhece aquela roupa
social preta fechada até o pescoço e aquele bigode do vocalista Egor Shkutko?
Roman Komogortsev, Egor Shkutko e Pavel Kozlov.
Voltemos um pouco no tempo, mais precisamente até 2010. Naquele
ano, dois estudantes de uma escola técnica em Minsk, capital de Belarus, se
conheceram e um descobriu que o outro tocava instrumentos musicais. Estes eram Egor
Shkutko e Roman Komogortsev. Todavia, não era só o fato de ambos
serem músicos que os aproximou. Egor e Roman eram fãs de Depeche Mode e também
partilhavam um carinho por Red Hot Chili Peppers. Os gostos musicais parecidos
fizeram com que os dois começassem a tocar juntos na soturna, cinzenta, imponente
e soviética Minsk.
Ambos tocavam juntos vários estilos diferentes, que iam de
vertentes eletrônicas até Funk e passando até mesmo por Trip Hop. Em 2014 eles
se encontravam juntos na banda Net Kadrov, onde Roman era guitarrista e
tecladista e Egor era baixista. Foi durante a existência do Ned Kadrov que algumas
composições hoje tocadas pelo Molchat Doma surgiram, como Ya Ne Komunist,
Tishina I Priatki e Tecnologia. O vocalista do Net Kadrov
resolveu deixar o grupo após divergências musicais com Egor e Roman, o que
abriu caminho para que os dois seguissem com a banda de acordo com seus próprios
objetivos e ideais.
A primeira iniciativa foi mudar o nome da banda. De Net
Kadrov, o grupo passou a se chamar Molchat Doma, que significa “casas silenciosas”.
Ao invés de procurarem por um novo cantor, Egor resolveu largar o contrabaixo
para assumir o posto de vocalista. A busca por um baixista foi difícil, já que
vários músicos foram recrutados, mas todos eles abandonavam o projeto em pouco
tempo. Quando a dupla de amigos já estava desanimada ao ponto de encerrar de
vez o projeto, eis que Pavel Kozlov entra em contato se mostrando altamente
interessado na vaga. A salvação chegou e o Molchat Doma enfim toma o formato que
conhecemos hoje em 2017.
Em meio a tantos estilos musicais que a dupla Egor/Roman já
haviam testado, o Pós-Punk vingou como sonoridade definitiva do Molchat Doma.
Já foi citado neste texto que ambos eram fãs de Depeche Mode, mas Roman, principal
arranjador do grupo, também cultivava um forte apreço pelo Kino, um dos
principais nomes do Rock russo de todos os tempos e que praticava um Pós-Punk
frio e introspectivo.
O trio produziu e lançou de forma independente seu álbum de
estreia, S’Krish Nashik Domov (Dos Telhados de Nossas Casas) ainda em
2017, com nove faixas que traziam um som empoeirado, abafado, com
sintetizadores que remetiam a época de ouro do Synthpop e do New Wave,
guitarras com melodias frias cobertas de reverb, baixo hipnotizante e vocais
soturnos que pareciam ter sido gravados do fundo de um porão de algum prédio
setentista de Minsk. Um som realmente dançante e sombrio ao mesmo tempo,
sovieticamente arquitetado. O álbum chamou a atenção de Davide, o responsável
pela gravadora alemã Detriti Records. Davide entrou em contato com o
Molchat Doma através do Soundcloud, oferecendo a oportunidade de lançar S’Krish
Nashik Domov em formato de fita cassete. A oferta foi aceita pela banda e o
lançamento rapidamente se esgotou.
Mais uma oferta foi feita pelo italiano radicado na Alemanha,
Davide. Lançar o segundo álbum do Molchat Doma em vinil. Desta vez o trio
bielorrusso ficou apreensivo, pois eles nem sequer sabiam se teriam condições
de registrar um segundo álbum. Apesar da incerteza, o grupo se manteve
confiante e resolveu aceitar a oferta da gravadora alemã, o que possibilitou a
gravação de Etazhi (Pisos), lançado em 2018.
Apesar de serem músicos talentosos e criativos e de terem
uma imagem bastante chamativa, tudo isto não bastou ainda para que o Molchat
Doma se lançasse aos píncaros da glória. Um pouco de sorte também se fez
essencial para que os garotos de Belarus se tornassem a nova sensação do Pós-Punk.
Os vídeos com as canções do grupo começaram a se tornar bastante divulgados e
assistidos no YouTube. Foi através deste forte engajamento na internet que o
Molchat Doma chamou a atenção dos americanos do Drab Majesty, que
alimentou a vontade de tocar na Europa junto aos bielorrussos. O Drab Majesty tratou
de entrar em contato com seu agente de shows na Europa para falar sobre o
Molchat Doma e sobre a possibilidade de a agência também apoiá-los. O agente
foi até Berlim testemunhar pessoalmente uma apresentação do Molchat Doma, desta
feita no festival Pop-Kultur de 2019. Ao chegar lá, o que o agente presenciou
foi um trio formado por um vocalista bigodudo e altamente empolgado com danças
estranhas, um guitarrista que verdadeiramente se inebriava viajando em seus próprios
solos e um baixista que mais se parecia um músico escandinavo de Heavy Metal,
mas que dançava animadamente ao ritmo sincopado de seu baixo. Este trio tocava suas
ótimas composições de forma coesa e segura, conquistando assim todo aquele público
que, junto ao agente, testemunhavam aquele concerto. Depois foi só questão de
tempo para que o agente e os garotos de Belarus assinassem uma parceria que
permitiu ao trio rodar toda a Europa e até mesmo os Estados Unidos desde então.
Lembra da apreensão pela qual a banda passou antes de gravar
seu segundo álbum, Etazhi? Pois bem. Etazhi já foi vorazmente
devorado das lojas físicas cinco vezes. Atualmente o trabalho já está em sua
sexta prensagem, a qual provavelmente terá o mesmo destino das cinco
anteriores. Etazhi traz ainda a mesma essência fria e dançante do debut,
porém com uma melhor produção e qualidade de som graças ao aporte da gravadora
Detriti.
Não nos esqueçamos que o Molchat Doma é de Belarus, país
governado com mãos-de-ferro por Alexander Lukashenko (sim, o mesmo que disse
que o Coronavirus pode ser tratado com vodka e saunas) em mandatos consecutivos
desde 1994 e que faz questão de resguardar tradições soviéticas até hoje. Se
essas tradições se restringissem a pesada arquitetura, tudo bem. Contudo, tais
costumes vão desde práticas econômicas até repressão e censura. Para alguma
banda local poder tocar ao vivo no país, é necessário requisitar uma prévia
autorização ao regime local, que verificará o histórico, as letras e até a
imagem do grupo. Caso a autorização seja negada, representantes do regime
bielorrusso vão até o local onde a apresentação aconteceria para verificar se
realmente o show não ocorreu. O Molchat Doma já experimentou essa censura
algumas vezes, muito embora eles afirmem que pouco se preocupam com política e que
suas letras quase não abordam o assunto. Todavia, o Molchat Doma é presença
frequente na emissora local de TV Belsat, que se intitula independente e
com a missão de enaltecer a cultura bielorrussa, bem como em rádios.
O reconhecimento que falta em Belarus vem sendo ricamente
recompensado fora de lá, em toda a Europa e em todo o mundo. O Molchat Doma é atualmente
uma das principais representantes do estilo e muito deste sucesso se deve a sua
personalidade, sua empolgante, fria e única sonoridade, trabalho duro, imagem
reconhecível e, não faz mal reconhecer, uma pitada de sorte. Ora com guitarras
e com baixo na direção do Coldwave, ora nos sintetizadores que os conduzem ao
Synthpop/New Wave, o Molchat Doma se sai bastante competente em cada direção que
resolve adotar, sempre guiados pela bateria eletrônica de timbres nostálgicos e
simples. Não obstante a salada de influências, o grupo cria uma música
consistente, homogênea e empolgante. Mais que isso, o Molchat Doma é
responsável por uma atmosfera mágica e inebriante que, mesmo tendo uma coloração
cinzenta e triste tal qual os prédios de Minsk, empolga e faz alegrar qualquer fã
e ouvinte.
Ligue seu som e não permita que sua casa fique silenciosa
ante ao poder frio do Molchat Doma.
Nas trilhas sonoras que acompanham nossa existência neste
mundo maldito e cada vez mais decadente, alguns álbuns se destacam por conquistar
um espaço especial em nossos corações, seja por um momento marcante em nossas
vidas, por sua qualidade musical ou pelos sentimentos que ele desperta em nossa
imaginação. Seja em qual dessas categorias ele se encaixe, muito provavelmente Violator,
do Depeche Mode, está presente nesta sua discoteca especial. Não há como
se manter passivo ante as composições deste trabalho, que representou o ápice
criativo e de ousadia do Depeche Mode naquela época e que completou nesta
semana que se finda três décadas de lançamento.
Lançado exatamente no ano em que se findou a era oitentista
e começou a década de 90, Violator une elementos do Synthpop
característico do quarteto a modas que viriam a fazer sucesso ao longo dos anos
90, provando que o Depeche Mode não somente alcançara um nível de maturidade
musical absurdo, como também eles se tornariam influência-mor no futuro para
diversos artistas de sucesso e se tornariam trilha sonora definitiva para uma
legião de fãs mundo afora. Nunca um álbum de Eletrônico com pitadas de Rock foi
tão bem criado e esmerado. O Rock não ousou invadir o espaço do Eletrônico. Alternativamente, os dois gêneros simplesmente juntaram o que tinham de melhor e criaram esta quimera musical. Ao
mesmo tempo em que as batidas e melodias eletrônicas se distinguem das
guitarras mais nervosas de Martin Gore (nervosismo essenotável em Personal Jesus e em Policy Of Truth), Violator se mostra
homogêneo, e no final pouca gente se importa com qual estilo musical este álbum
mais se encaixa. O que interessa e entrar e fazer parte de sua atmosfera única,
sensacional e inebriante.
O título em si pode querer dar a entender que o álbum é
violento, impiedoso e inclemente, como aquele que viola de maneira iníqua aquilo
que não deve ser violado. Todavia, o significado do título não passa de uma
piada, como garante o criador da obra, Martin Gore, em entrevistas dadas em
1990. Pelo contrário; ouvir Violator é confortante, é animador. Seu interlocutor,
o ouvinte, é levado a lugares - noturnos, diga-se de passagem – onde os
problemas do mundo são trancados do lado de fora. Dentro, emerge um universo paralelo
onde o fã é convidado a dançar e sentir seus prazeres mais íntimos de forma
despudorada. Na verdade, esse universo não é paralelo à realidade. Os criadores
deste universo, o Depeche Mode, funcionam como a interseção deste lugar imaginário
e o mundo real.
Sim, interprete “prazeres mais íntimos” da forma mais livre
(libertina?) que você quiser. Este é o convite feito pela música que abre o
trabalho, World In My Eyes. Seu ritmo dançante e a interpretação irrepreensível
de Dave Gahan faz surgir uma atmosfera atraente, onde a personagem seduz
seu par, convidando-a a sentir os mais primitivos prazeres carnais, não como
sugere erroneamente o título do álbum, mas comparando suas sensações a uma
viagem pelas mais diferentes paisagens e climas da Terra. Sweetest Perfection,
cantada por Martin Gore, é sombria, mas aconchegante, como se o sexo de World
In My Eyes fosse seguido por um momento de sossego, mansidão e prazer eternos.
Um momento de rebeldia é invocado em Personal Jesus. Mostrando
que limitações estilísticas não existiam mais para a banda, Martin Gore pegou
sua guitarra, distorceu levemente seu timbre e criou um riff Country/Rock, que se
fez acompanhar por um andamento groovado e empolgante, para liderar uma música
da banda que até outrora era genuinamente Synthpop. Sim, as guitarras já eram
usadas pelo músico em Music For The Masses (1987), mas não com tanta
pujança quanto a apresentada em Personal Jesus. Assim como pela primeira
vez uma bateria acústica foi adotada pela banda quando Alan Wilder
tocou-a na já citada Sweetest Perfection. É ou não é atuar como Jesus, lançando
mão de seus instintos pessoais? As coisas voltariam a ficar mais sombrias, mas
não menos inspiradas, em Halo, que traz novamente um convite de uma
pessoa ao seu par, todavia de um modo mais polido. Repare como a voz de Dave
Gahan está agora imponente, pouco lembrando as performances inocentes do menino
Gahan na época de Just Can’t Get Enough...
Um momento de introspecção enfim surge para acalmar os
ânimos ferozes das músicas e, neste momento, dos ouvintes, em Waiting For
The Night. Como a brisa do anoitecer de algum lugar alto e longe das metrópoles,
esta música afaga nossa mente transportando-a em uma nuvem de etereidade. Isso
tudo para que depois se possa aproveitar em toda a sua personalidade, o
silêncio.
Hora de acordar, mas mantenha-se em silêncio e o aproveite,
pois a próxima música é a imortal Enjoy The Silence. Um hit dançante,
grudento e com a eternizada guitarra cheia de chorus de Martin Gore a ecoar por
todo o seu comprimento. Concentre-se – lembre-se do silêncio – e repare em cada
elemento que compõe a música; cada efeito, cada string, o timbre da bateria
programada... tente até mesmo ouvir os dedos de Martin Gore deslizando pelas
cordas da guitarra. Você consegue mais: tente ouvir as trilhas tocadas pelo
nosso querido e fofo tecladista Andrew Fletcher. Repare como todos os
elementos, do mais presente ao mais discreto, passando pela intepretação certeira
de Dave Gahan e o ritmo sincopado criado por Alan Wilder, se harmonizam com
tamanha perfeição que o produto final, a música, toma conta de você de forma nunca
experimentada antes. Experimente o silêncio!
Não é nada fácil ser a música responsável por suceder Enjoy
The Silence, mas Policy Of Truth quase chega a rivalizar com sua
antecessora por conta de suas melodias grudentas e a levada seca e dançante. Policy
Of Truth é uma música por si só poderosa e que possui predicados suficiente
para torná-la o grande hit da história do Depeche Mode. Uma dualidade marca o
fim de Violator: Uma balada muito bonita, mas com uma simplicidade “krafterkiana”,
a música Blue Dress, antecede a pesada Clean, onde Dave Gahan
clama que está mais limpo do que nunca. Parece até uma piada tendo em vista a
situação pela qual o cantor passou poucos anos depois, quando chegou a ser
declarado morto por overdose. Estas duas últimas faixas nos fazem lembrar que o
Depeche Mode é uma banda de músicas sombrias e pesadas, mas que sabe trabalhar
esses elementos em doses sensatas, abrindo espaço para algo mais iluminado e
tocante, quando estes adjetivos se fazem necessários. Desta forma, a mente do
ouvinte não se afoga ferozmente no absinto negro, nem se deixa transformar em
um anjo que depende da luz para sobreviver.
Tecnicamente, Violator, o sétimo da discografia do
Depeche Mode, representa o ponto onde a transformação começada em Music For
The Masses enfim se concretizou. Influências de Rock alternativo se
mostraram cada vez mais presentes e as construções eletrônicas se tornaram mais
variadas, muito disso graças à novos métodos de produção adotados principalmente
por Alan Wilder (o nerd musical do quarteto) e pela parceria com Mark “Flood”
Ellis, produtor que trabalhara anteriormente com U2, New Order, Nine Inch
Nails e Erasure, dentre outros nomes. Anteriormente, a banda preparava suas programações
eletrônicas e já as deixava prontas antes mesmo de entrar em estúdio. Com o
novo método adotado a partir de Violator, a pré-produção passou a trabalhar
somente o essencial, de modo a trabalhar com maior liberdade e criatividade em
estúdio o esqueleto elaborado antes. Foi assim que Enjoy The Silence, o
maior hit da história do Depeche Mode, foi moldado. Originalmente, Martin Gore
o compôs como uma balada quase que romântica. Alan Wilder, em seu trabalho como
arranjador do grupo, transformou a música em uma peça dançante e empolgante, da
forma como a conhecemos hoje.
Resultado: sucesso no mundo inteiro, sacramentando de vez o Depeche Mode como uma banda de arenas e estádios, milhões de álbuns vendidos e muitas, muitas, certificações. A ousadia musical seria ainda mais trabalhada no álbum seguinte, Songs Of Faith And Devotion (1993), onde o grupo colocaria o pé de vez no Rock Alternativo. Entretanto, esta ousadia apareceria de uma forma predominantemente mais densa e pesada.
Há quem prefira o Depeche Mode oitentista, puramente Synthpop.
Tem os que gostam bastante da fase alternativa vivida nos anos 90 e os álbuns
atuais agradam por trazer elementos até mesmo de Blues (apesar das reclamações
de quem ainda sente falta de Alan Wider na banda). Mas ninguém pode contestar o
valor e a importância de Violator na discografia da banda. Este álbum é
a esquina onde os mundos já criados pela musicalidade do Depeche Mode se
encontram. Alternativo na medida certa, eletrônico para não esquecer as raízes
nem perder a essência. Em resumo: perfeito para a boa música e, principalmente,
para levantar os sentimentos mais escondidos, ferozes e ousados do ser humano. Ouça
este álbum e viole sua timidez.
Os quase 17 anos de atividade do duo carioca Cubüs
renderam a eles o posto de um dos principais representantes do Synthpop daquele
estado. Para marcar este primeiro período de 2020 em sua história, o Cubüs lançou
em várias plataformas digitais o single Os Gritos Não Se Calam. A música
ganhou um clipe, o qual você pode conferir no player ao final desta nota.
O single representa um retorno do Cubüs às atividades, tendo
em vista a pequena pausa que foi tomada após a sua turnê comemorativa de 15 anos.
Os Gritos Não Se Calam foi gravado entre dezembro do ano passado e
janeiro último e estará presente na coletânea Memorias De Um Continente III,
organizado pelo selo Infravox Records, do Peru.
Segundo Diego de Oliveira, vocalista do duo – que conta
também com Karlos Junior nos sintetizadores -, a música é uma espécie de
desabafo contra a postura niilista dos governantes do país.
“’Os Gritos Não Se Calam’ foi uma forma de expurgar
tudo de ruim que se passava em minha mente desde o resultado das eleições em
2018 no Brasil. O mundo vem cada vez mais sendo tomado de assalto por ideais
violentos, governantes que não compreendem as demandas da população e suas
transformações... Ficamos surpresos com os desejos dessa ‘seita’ tenebrosa em
acabar com tudo que, para nós, é racional e justo.
Mas também é uma mensagem de esperança: Nem todos se
alinham à essa corrente negativa e estamos dispostos a resistir. Músicas talvez
não possam mudar o mundo, mas talvez consigam, aos poucos, mudar as pessoas que
vivem nele. Arte é resistência (e também diversão).”
Musicalmente, Os Gritos Não Se Calam traz o conhecido
Synthpop analógico e distorcido do Cubüs, em uma construção de arranjos que
remete ao oitentismo e que também carrega em sua essência um pouco da atmosfera
fria do Darkwave. O single conta com uma segunda faixa, Sexo, Drogas, Aborto
& Satanismo, que nada mais é do que uma experimentação noise frenética
e alucinante, que mais parece a mente atrasada da pessoa que disse a frase que carrega
o título da música uns meses atrás.
Os Gritos Não Se Calam foi lançado via Paranoia
Musique e está disponível nas plataformas digitais desde o dia 06 de março.
No momento, o Cübus se prepara para suas primeiras apresentações de 2020 e
também já está engajado no processo de gravação do esperado segundo álbum.
Está marcado para o dia 26 de setembro, um sábado, a
esperada quarta edição do Deepland Festival, um dos principais eventos e encontros de música gótica do país, realizado pela Deepland Records. A edição deste ano
reunirá cinco grupos internacionais e nacionais que trarão consigo uma enorme
variedade de estilos de dentro do universo gótico/alternativo.
Uma das principais atrações do Deepland Festival IV serão os
alemães do Aeon Sable. Um dos nomes mais reconhecidos do Gothic Rock
atualmente, o grupo liderado pelo vocalista Nino Sable e pelo guitarrista
Din-Tah Aeon já tem em seu currículo passagens pelo Wave Gothik Treffen e Castle
Party e uma discografia de seis álbuns de estúdio. O som do Aeon Sable é
característico por trazer diversas influências que vão do esoterismo até o
Black Metal.
Do México virá a banda de Pós-Punk Capitals. O duo formado
por Jonathan Salazar e por Ivan Herrera traz um som empolgante e animado que
mostra influências de She Wants Revenge, Human Tetris e She Past Away. Recentemente
em 2019 o Capitals lançou o seu primeiro full-lenght, Año Once.
Outra atração internacional são os nossos vizinhos
colombianos do Los Malkavian. Mais um representante do Pós-Punk, o som do grupo
traz uma sonoridade mais distorcida e frenética, como ensinaram alguns dos
pioneiros do estilo como Bauhaus e Killing Joke, e também elementos de Shoegaze.
A banda formada por Alex Pela (vocais, bateria), Carolina Castaño (vocais,
guitarras), Jean Pierre Guarin (contrabaixo) e Mario López (guitarras) foi
fundada em 2013 na cidade de Medelin e tem em sua discografia o álbum Letargo,
de 2018.
De Recife estará presente a banda Ego Eris. Uma dos nomes
mais reconhecidos do Pós-Punk/Darkwave nacional, o grupo pernambucano estreou
em 2018 com o álbum Memento Mori, que foi sucesso de pedidos para o mercado
especializado estrangeiro segundo a gravadora Deepland Records, e já conta inclusive
com experiência internacional graças a participações no festival Tumbas
Eternas, no Peru, e no próprio Deepland Festival, no qual eles repetirão a
dose. O Ego Eris é formado por Marc Nero (guitarras, programação), Breno Romero
(vocais, programação) e Astroblack (contrabaixo, sintetizadores, programação).
Fechando o line-up do Deepland Festival IV estão os
paraibanos do Electro Bromance. O duo formado por Wilame AC (vocais, sintetizadores,
programação) e por Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores, programação, vocais)
vem de João Pessoa praticando um Synthpop com elementos de Future e Darkwave
bastante empolgante e que funciona perfeitamente ao vivo. O Electro Bromance
foi formado em 2015, mas já conta em seu currículo parcerias com nomes reconhecidos
nomes internacionais como os italianos do Ash Code, os canadenses do Decoded
Feedback e os mexicanos do Infected Sound System. O mais recente lançamento do
duo paraibano foi o álbum We Are Like A Time Bomb (2017, Deepland Records), que promete ser
sucedido ainda em 2020 por um segundo full-lenght, do qual já foi
disponibilizado o single Breaking Chains.
Além destas cinco bandas, estarão animando o público que
comparecer ao Deepland Festival IV os DJ’s Carlinhos, Xymox, Bat, Nanda McCoy e
Ricardo Wolff. O Deepland Festival IV acontecerá no Fofinho Rock Club, na avenida
Celso Garcia, próximo ao metrô Belém. Os ingressos do primeiro lote ainda estão
sendo vendidos e custam 170 reais.
SERVIÇO
DEEPLAND FESTIVAL IV
Bandas: Aeon Sable (Ale), Capitals (Mex), Los Malkavian
(Col), Ego Eris (Bra), Electro Bromance (Bra)
DJ’s: Carlinhos, Xymox, Bat, Nanda McCoy e Ricardo Wolff
Data: 26 de setembro (sábado)
Horário: 22:00
Local: Fofinho Rock Club. Avenida Celso Garcia, 2728 (próximo ao metrô Belém),
São Paulo/SP
Ingressos: R$170,00 (primeiro lote), R$200,00 (segundo lote), R$240,00
(terceiro lote)
Venda on-line: Kingdom Rock Store, Wave Records
Venda física: Fake No More, Reversa e Fofinho Rock Club (venda física apenas para
pagamentos em dinheiro)
Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/569229240522339/
Realização: Deepland Records
Anunciado em dezembro de 2019, o novo single Breaking Chains,
dos paraibanos do Electro Bromance, gerou ansiedade entre os fãs do grupo e do
estilo não só por ser uma nova composição do duo (que já vinha sendo
apresentado ao vivo, diga-se de passagem,), mas também por trazer como bônus remixagens
dos italianos do Ash Code e do projeto paulista Code: Red Core.
Finalmente, as ansiedades foram saciadas. O duo formado por
Wilame AC (vocais, sintetizadores, programação) e Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores,
programação, vocais) lançou hoje no Bandcamp seu novo single e o que se escuta
nele é um Electro Bromance bastante sombrio. Com influências do próprio Ash
Code, ou mesmo de Plastique Noir, como se os cearenses tentassem soar “eletrificados”,
Breaking Chains nos leva a caminhar em meio a becos úmidos de alguma metrópole
durante a madrugada. Isso graças a sua base estonteante que mais aprece uma
onda e os arranjos melódicos muito bem compostos e encaixados na composição, tudo criado em cima da sombria escala de Ré Sustenido Menor. Todavia,
a identidade do Electro Bromance se mantém intacta com seu Synth/Darkwave
elétrico e os vocais característicos de Wilame AC.
Além da versão original, o single traz as remixagens feitas pelo
Code: Red Core e pelo Ash Code. O projeto paulista de Rodrigo Albuquerque (que
também foi o responsável pela bela arte de capa do single) tratou de dar a
música um toque mais Industrial e Trance, enquanto os renomados italianos
estamparam sua marca em Breaking Chains com timbres retrôs na programação, novos
arranjos de sintetizadores e graves pulsantes, embebidos em flanger.
Confira no player abaixo o single Breaking Chains:
O duo paraibano de Synth/FuturePop Electro Bromance está nos
preparativos finais para lançar o seu segundo álbum de estúdio, o sucessor do
debut We Are Like A Time Bomb (2017).
Uma das músicas que farão parte do novo álbum será Breaking
Chains, que vem sendo apresentada ao vivo desde 2018. Recentemente, o duo
formado por Wilame AC (vocais, sintetizadores, programação) e Hansen Pessoa
(guitarras, sintetizadores, programação, vocais) anunciou que Breaking Chains irá
ganhar duas remixagens: uma do grupo italiano de Darkwave Ash Code e outra pelo
projeto paulista Code: Red Core.
O Ash Code vem se firmando ao longo da última década como um
dos principais representantes do Darkwave da atualidade. Segundo Wilame AC, o
contato com os italianos se deu através do Facebook dos integrantes e que o
retorno foi rápido, retorno esse onde o Ash Code se disse disposto a fazer um
remix para Breaking Chains. Wilame completa dizendo que o Ash Code chama a sua
atenção e a de Hansen pela sua sonoridade e pela sua atmosfera, o que acaba por
se tornar uma grande influência para o Electro Bromance.
Já o contato com o Code: Red Core para também fazer um remix
para Breaking Chains foi mais direto ainda, tendo em vista que os integrantes
são colegas de Rodrigo Albuquerque, o mentor do projeto paulista de
Aggrotech/Industrial que existe desde 2011.
O Electro Bromance foi fundado em 2015 como um trio, pois
na época o grupo contava com os serviços do baixista Williard Fragoso. De contrato
assinado com a Deepland Records, o Electro Bromance gravou nos últimos meses de 2016 o debut We Are Like A Time Bomb, já como duo e que foi lançado em fevereiro
de 2017. Em setembro do mesmo ano foi disponibilizado o single Supermodel, que, além de sua versão
original, veio com remixagens dos grupos Decorded Feedback (Canadá), Infected
Sound System (México), K-Factor e Synthetik Form (Brasil).
Confira no player abaixo um registro de Breaking Chains, quando ela foi tocada ao vivo pela primeira vez em 2018.
THE FELLOW TRAVELLER – THE FROZEN AUTUMN (Echozone, 2017)
Tracklist:
01. Tomorrow’s Life 02. White On White 03. We’ll Fly Away (long version) 04. Told You At Once 05. Your Touch 06. A Gentle Flame 07. Grey Metal Wings 08. Sirens And Stargazers 09. The Twin Planet 10. I Love You But I’ve Chosen Synthesizers 11. Loving The Alien (David Bowie cover)
Line-up:
Diego Merletto – vocais, sintetizadores
Froxeanne – vocais, sintetizadores
Texto: Bruno Rocha
Prepare-se! Uma frente fria está vindo da região de Turim,
na Itália. Mas ela não é uma frente fria qualquer, que traz chuvas ou mesmo
leves geadas. Essa frente fria é uma verdadeira onda congelante, sob a qual nem
mesmo o próprio ar escapa incólume, passando por um processo de sublimação, acabando
por solidificar-se. Fora estes efeitos, a onda congelante de Turim obscurece
luzes, tornado o ambiente escuro; os poucos e corajosos fachos de luzes que ousam
resistir são como as auroras boreais que rasgam os céus nórdicos, criando assim
um espaço, ao mesmo tempo escuro e frio, agradável e etéreo.
O grupo italiano The Frozen Autumn possui considerável
respeito dentro do cenário Gothic/Darkwave mundo afora graças ao seu estilo
bastante pessoal que mescla elementos de música atmosférica e de Synthpop, num
estilo que seus próprios integrantes batizaram de “Frozenwave”.Fundado em 1993 por Diego Merletto, o The
Frozen Autumn mostrou em seus primeiros trabalhos um som ainda com um pé no
Gothic Rock (na época a banda contava com os serviços de Claudio Brosio nas
guitarras) e com fortes influências de Clan Of Xymox, porém já havia ali
elementos de sonoridade característica que se tornaria consagrada anos depois.
Os dois primeiros álbuns do The Frozen Autumn, Pale Awakening (1995) e
Fragments Of Memories (1997), se tornariam clássicos do Darkwave, trazendo
consigo faixas atmosféricas e sorumbáticas recheadas com teclados que criam
climas ora melancólicos, ora confortantes. Os elementos Synthpop já existiam,
mas eram poucos e retraídos. A parceria de Merletto com Arianna Vespasiano teve
início com uma participação especial da cantora na faixa-título de Fragments Of
Memories, naquilo que foi um motivador para um projeto paralelo dos dois
músicos chamado Static Movement. O único álbum lançado por esse projeto,
Visionary Landscapes (1999), foi de suma importância para uma leve mudança no
direcionamento musical do próprio The Frozen Autumn, que deixou de lado
qualquer contribuição de guitarras e tornou seu som 100% eletrônico, fabricado
a base de sintetizadores e com maior proeminência das influências Synthpop.
Arianna, que atende pelo pseudônimo Froxeanne, foi efetivada
no The Frozen Autumn e a agora dupla grava o importante Emotional Screening
Device (2002) e a perfeição chamada Is Anybody There? (2005). As guitarras
voltam a se fazer presentes no bom álbum Chirality (2010) e no DVD Seen From
Under Ice (2011), que foi gravada em quarteto com a adição de mais um
tecladista e de um guitarrista, o que permitiu que algumas músicas de todos os álbuns
ganhassem novos arranjos. Após alguns anos sem novos lançamentos, o The Frozen
Autumn volta novamente como a dupla Merletto/Froxeanne no lançamento do EP Lie
In Wait (2014), que serviu como uma prévia para o sexto álbum de estúdio do
grupo, The Fellow Traveller, lançado em 2017 pela gravadora Echozone e que é o
objeto de análise deste artigo.
The Fellow Traveller é um álbum empolgante e viciante do
começo ao fim. Diferentemente de todos os álbuns anteriores, este álbum é completamente
moldado em cima do Synthpop. Não há nenhuma música atmosférica ao estilo de
Onyria (Pale Awakening, 1995), ou mesmo faixas introspectivas e de ritmo lento
aos moldes de Evening Falls (Is Anybody There?, 2004). Claro que há momentos em
que a dupla põe o pé no freio, mas na maior parte do tempo o ritmo é frenético
e dançante. Outra diferença de The Fellow Traveller é na mixagem do som, que é
bem mais limpo e cristalino que nos álbuns anteriores. Felizmente, a falta de
uma mixagem mais abafada e empoeirada não tirou o clima nostálgico das
composições, que por si só conseguem manter a chama (ou o gelo) típica dos anos
80 viva e forte. Como se isso tudo não bastasse, The Fellow Traveller é o álbum
mais democrático da história da dupla. Diego Merletto e Froxeanne se alternam
cantando em cada faixa, seis para ele e cinco para ela, quebrando assim uma
tradição que fazia Merletto cantar a maioria das faixas em todos os outros
álbuns.
As quatro primeiras faixas matam bem a sede dos fãs do grupo
sedentos por música dançante. Os trabalhos já começam lá em cima com Tomorrow’s Life, onde Diego Merletto canta com sua inconfundível voz grave cheia de
reverbs e ecos. As próximas duas músicas foram reaproveitadas do EP Lie In Wait e melhoradas. A coisa dá uma acalmada em White On White, que é a única música
do álbum que se destaca por ser bem mais introspectiva, apesar da proeminência
da bateria eletrônica. É a vez de Froxeanne cantar e ela entrega o que se
espera dela: uma voz belíssima e angelical, com abençoados graves, que
hipnotiza o ouvinte e o transporta para flutuar em nuvens de granizo. Gaivotas
e ondas anunciam o começo de We’ll Fly Away e seu ritmo dançante e libertador. Com
seu refrão belíssimo, Merletto fala sobre voar para sempre em busca da
felicidade, assim como as gaivotas voam eternamente por sobre os mares. E parece
que a chegada deste longo voo é na faixa 4, Told You At Once. Um apocalipse
sonoro protagonizado por Froxeanne, uma perfeição para as pistas góticas de
dança por seu ritmo acelerado, melodias destacadas e bases pesadas.
Após quatro músicas frenéticas, é hora de aproveitar mais
uma viagem guiada por Diego Merletto em Your Touch, mais uma que foi reaproveitada do último EP. Escura como um pôr-do-sol contemplada
no inverno das montanhas de Turim, Your Touch traz de volta as antigas forças
Darkwave de álbuns anteriores, incluindo até mesmo uma guitarra, desta vez
aliadas as poderosas camas de sintetizadores e de bateria eletrônica. Por falar
neste último elemento, nunca as viradas e recursos de bateria foram tão usadas
num álbum do The Frozen Autumn. A próxima faixa, A Gentle Flame, não possui a
mesma imponência de arranjos como as demais, até porque ela carrega um tom sisudo
“kraftwerkiano”. Todavia ela não passa despercebida, pois não existe nada que passe desapercebido se Froxeanne impôs nela seu divinal dom de interpretação. A tradição de músicas longas e
viajadas é mantida com a excelente e variada Grey Metal Wings, que é como se
fosse uma irmã FuturePop de Is Everything Real?, do Emotional Screening Device,
e de Static Cold, de Is Anybody There?.
Aqui, cabe mais um comentário acerca das novidades trazidas
em The Fellow Traveller. Os efeitos nos vocais de Merletto e de Froxeanne se
multiplicaram. Os tradicionais e obrigatórios reverbs continuam presentes,
lógico. Mas os delays estão mais destacados e facilmente perceptíveis,
principalmente nos vocais de Froxeanne. Também, as harmonias vocais nunca foram
tão trabalhadas, especialmente nos vocais de Diego Merletto. É como se você
pudesse ouvir vários Diegos formando um coral em muitos momentos do álbum. A verdade
é que essa variedade de efeitos não faria sentido algum se as próprias vozes
dos dois cantores não fossem belas e diferenciadas.
Findada mais uma viagem a bordo de Grey Metal Wings, a
simplicidade oitentista retorna em Sirens and Stargazers, que se vai se
tornando mais e mais empolgante a medida que avança em seu tempo, atingindo o
ápice em um momento onde Froxeanne canta somente com o apoio de um sintetizador
grave e nervoso. Em contraponto a simplicidade de Sirens and Stargazers, vem em
seguida aquela que talvez seja a mais complexa e progressiva composição da
história do grupo italiano, The Twin Planet. Esta faixa traz um elaborado
trabalho de arranjos de sintetizadores que são guiados por uma bateria quebrada
e cheia de contratempos no caixa. As escalas árabes dos strings, os graves
destacados e os vocais cavernosos de Diego Merletto nos conduzem por uma viagem
ao cosmos em busca dos planetas gêmeos. O auge da viagem no profundo cosmos é
um trecho onde Merletto assobia uma melodia sinistra por cima de imponentes strings,
o que faz arrepiar o ouvinte de frio intergaláctico. Sim, a onda congelante do
The Frozen Autumn chegou aos confins do Universo!
De volta à Terra, Froxeanne dá uma forte declaração na
próxima faixa: eu te amo, mas eu prefiro sintetizadores! Enaltecendo a adoração
aos instrumentos eletrônicos de teclas, a faixa que carrega o maravilhoso
título de I Love You But I’ve Chosen Synthesizers é um dos grandes destaques de
The Fellow Traveller e traz de volta o clima de pista de dança. O álbum se
encerra com um cover de Loving The Alien, do eterno David Bowie, muito bem
interpretada por Diego Merletto, claro, com seus vocais graves.
The Fellow Traveller pode ser o início de uma nova fase na
discografia do The Frozen Autumn. Falo “pode ser”, pois é só o primeiro álbum
desta nova sonoridade depois de sete anos sem lançar um novo full-length. O melhor
de tudo é que a essência do som do The Frozen Autumn, o Darkwave, permanece lá
em seu devido lugar. Mas agora ele está recauchutado e muito bem cuidado com
todas as facilidades e opções que os sintetizadores podem oferecer. Há quem talvez
tenha sentido falta de pelo menos uma faixa fortemente atmosférica, aos moldes
antigos, mas a alternância de músicas fortes e dançantes com outras composições
mais calmas sacia a qualquer um que goste das duas facetas da dupla italiana. Também
considero um fato extremamente positivo a alternância de vocais entre Merletto e
Froxeanne. Apesar de ele ser o fundador do grupo e principal compositor, ela o
completa com seus vários recursos que a tornam uma cantora tão talentosa e que
não deixa nada a dever às grandes divas Pop de todas as eras. Por sua vez, Merletto
não teve em momento algum medo de ousar nas composições de The Fellow Traveller,
que são as mais ricas e bem trabalhadas de toda a história do grupo. The Twin Planet
que o diga!
Pois bem. A onda congelante veio, fez seus estragos e foi embora.
Estragos sob o ponto de vista meteorológico, pois a música do The Frozen Autumn
faz justamente o contrário de estragar. Ela eleva a mente do ouvinte e o faz experimentar
múltiplas sensações num curto período de tempo. As vozes etéreas de Diego Merletto
e de Froxeanne são essenciais para este mundo, bem como a musicalidade do The
Frozen Autumn. Se você nunca testemunhou a Tempestade Congelante de Turim,
faça-o agora. Congele sua mente nesta onda e mantenha-a fossilizada nela para sempre.
Ah, um estrago de verdade foi feito: no coração da pessoa cuja amada
o trocou por sintetizadores.
A banda cearense Dark Hertz Transmission divulgou hoje em
seus canais oficiais seu primeiro single, Carmilla. Confira a nova música dos
cearenses no player abaixo:
Carmilla é a primeira música autoral disponibilizada pelo
Dark Hertz Transmission. O grupo formado atualmente por Léo de Oliveira
(vocais), Erik Castro (sintetizadores) e Caio Mota (contrabaixo) foi fundado em
2017 como um grupo-tributo ao Depeche Mode. Com o passar do tempo o grupo foi
agregando outras homenagens ao seu set-list ao vivo, mas sempre deixando claro
que o direcionamento que a banda tomaria seria o autoral. O som do Dark Hertz
Transmission reúne elementos que vão do Pós-Punk ao Synthpop, do sombrio ao
dançante.
A estreia ao vivo de Carmilla, bem como de outras novas composições do Dark Hertz Transmission
se dará no Gotham, o maior evento de cultura gótica de Fortaleza, que
acontecerá no dia 19 de outubro. Na ocasião, o Dark Hertz Transmission dividirá o palco do
Havana 1884 com o Plastique Noir, o Projeto Maldigo. e os paraibanos do Electro
Bromance.