quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Resenha: Bretus - Aion Tetra (2019)


Aion Tetra - Bretus (Ordo MCM, 2019)

Tracklist:
01. The Third Mystic Eye
02. Priests Of Chaos
03. The Other Side
04. Aion Tetra
05. Deep Space Voodoo
06. Mark Of Evil
07. Cosmic Crow
08. Fields Of Mars
09. City Of Frost

Line-up:
Zagarus - vocais
Gghenes - guitarras
Janos - contrabaixo
Striges - bateria


Texto: Bruno Rocha

Catanzaro é uma cidade que fica ao sul da Itália. Capital da Calábria, Catanzaro é conhecida como “A Cidade dos Dois Mares”, pois seu litoral à sudeste é banhado pelo Mar Jônico e de seus pontos mais altos pode-se ver o Mar Tirreno, que banha o noroeste da província que carrega também o nome de Catanzaro. Todavia, mesmo em meio a paisagens belíssimas, tingidas pelo azul dos mares e iluminadas pela luz solar que não impede que a temperatura suba tanto, o todo-poderoso Doom Metal consegue sobreviver em seus calabouços e catacumbas de forma pungente. Pois há quase duas décadas o Bretus existe lá como uma das mais fortes representações da música obscura e pesada da Itália.

Fundado no ano 2000 pelo guitarrista Ghenes, o Bretus atualmente é formado, além dele, por Zagarus (vocais, Suum, Land Of Hate), Janos (contrabaixo) e Striges (bateria), todos reunidos com o objetivo de levar em suas letras os contos de horror perpetrados por H.P. Lovecraft e por cineastas do gênero, tendo com trilha sonora o mais puro e clássico Doom Metal, ensinado pelos pioneiros do gênero e harmonizado com elementos de Stoner e de Psicodélico. Tudo isso, lógico, fabricado com o DNA italiano do estilo, o que torna o som das bandas vindas de lá único e reconhecível. No caso específico do Bretus, ouvir seu Doom é como se estivéssemos em uma caverna onde ocorrem cultos aos ocultos, enegrecidos por uma nauseabunda atmosfera onde o vocalista Zagarus invoca os mitos cósmicos Yog-Sothoth e seu guardião, Cthulhu.

Em pouco tempo o Bretus se tornou um dos mais importantes grupos de Doom Metal da Itália graças a boa recepção de seu EP de estreia, autointitulado, e de seu primeiro full-length, In Onirica (2012, Arx Productions), que os levaram a participar de importantes festivais do estilo na Europa, como o Malta Doom Fest e o Doom Over Viena. Os lançamentos de The Shadow Over Innsmouth (2015, BloodRock Records) e de ...From The Twilight Zone (2017, Endless Winter) reforçaram e sacramentaram a posição do Bretus no âmbito do Gênero Maldito em solo italiano. Agora em 2019 está previsto o lançamento do quarto álbum de estúdio do grupo, Aion Tetra, para o dia 27 de setembro pela gravadora Ordo MCM. Todavia, o blog The Atmosphere... recebeu com antecedência este material para análise antes de seu lançamento oficial.

Um baixo ameaçador seguido de um riff poderoso e cadenciado dá início aos trabalhos com The Third Mystic Eye, uma música bastante empolgante e que prende a atenção do ouvinte com suas variações de andamento e de tom para um pesado Ré Sustenido Menor. Uma introdução tocada em órgão pavimenta o caminho para os riffs de Priests Of Chaos, dona de uma cativante melodia com odor setentista em seu refrão. A faixa de nº 3, The Other Side, reúne em si todas as características do Bretus. Com início acelerado, a música passeia por diferentes andamentos (especialmente em compassos ¾) e passagens com timbres limpos embebidos em chorus. A faixa-tútlo ocupa a posição de número 4 e é tão-somente um interlúdio acústico de muita beleza e bom-gosto. Seu tom introspectivo prepara terreno para um dos grandes destaques do disco, a sombria, pesada e viajante faixa de nº 5, Deep Space Voodoo.

Todo o poder de fogo do Doom Metal clássico “sabbathico” volta em Mark Of Evil, outro grande destaque do álbum. Um corvo agourento anuncia Cosmic Crow e sua pegada setentista que aqui se mostra muito forte. Ganhou inclusive um clipe muito bem produzido e condizente com a proposta de horror do grupo. Mais um interlúdio surge em Fields Of Mars. Desta vez vocalizada, a composição se mostra sombria, mas limpa e etérea, criando um contraste com o restante do álbum assim como Cantazaro consegue vislumbrar a vista de dois mares diferentes. O álbum se encerra com a épica City Of Frost, que traz um apurado senso de melodia mais pujante que as músicas anteriores, inclusive lançando mão de guitarras dobradas em sua seção instrumental.

A produção de Aion Tetra deixou a sonoridade do álbum crua e orgânica, mas ao mesmo tempo sem muita sujeira, deixando assim todos os instrumentos nítidos e as músicas com fácil compreensão por parte do ouvinte. A produção também reforçou a característica dramática dos vocais de Zagarus, deixando-os em lugar de destaque sem ofuscar a primorosa parte instrumental. Ao longo de todo play, o guitarrista Ghenes consegue misturar em suas composições todas as suas influências musicais com o fim de criar um som único para o Bretus, usando para isso sua baita criatividade para criar riffs e passagens. A cozinha formada por Janos e Striges é bastante segura e forte, conduzindo com força os andamentos cadenciados e as muitas mudanças de andamento sem deixar a peteca cair. Tudo isso vem ilustrado com uma belíssima arte de capa, que consegue transmitir de forma plástica toda a proposta sonora e lírica do Bretus no álbum.

Para aqueles que apreciam o bom e velho Doom Metal clássico, vale muito a pena conferir o que os doomers de Cantazaro já apresentaram ao mundo e também esperar pelo lançamento oficial de Aion Tetra, em setembro. Não, não tenha medo das criaturas cósmicas enxergadas por Lovecraft. Se o Bretus for de fato o porta-voz daquele panteão, será muito auspicioso ouvir as palavras oriundas do espaço profundo.

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