Participação:
Alexandre Carneiro - guitarra em Praxis
Texto: Bruno Rocha
Os cariocas do As Dramatic Homage estão de volta após
dois anos com um novo single, Praxis. Musicalmente, este single está conectado
ao anterior, Consternation (2018), como Praxis fosse uma
continuação, ou um epílogo, de Consternation, tendo em vista que o novo
single possui uma abordagem completamente introspectiva, quase que desprovida
de distorções e até mesmo de bateria.
Quando a banda surgiu, em 1999, a proposta de Alexandre
Pontes (vocais, guitarras, programação) e companhia era de praticar um
misto de Black e Doom Metal, algo que foi se tornando mais complexo e variado
com o passar dos anos até atingir um nível que os classifica hoje como um ato
de Metal Progressivo, apesar de elementos de Metal extremo, notadamente de Doom, terem sido retidos. Esta evolução musical foi necessária a fim de acompanhar
e emoldurar com precisão os questionamentos filosóficos e existenciais presentes
nas letras. Os arranjos mais ricos e introspectivos servem como um canal para
que os pensamentos sejam absorvidos com maior facilidade; junto a eles, as
passagens pesadas e mais velozes servem para nos lembrar que a banda toca, em
sua essência pétrea, Heavy Metal.
Porém, Praxis surge despido de quaisquer elementos
musicais de peso ou de distorções. As duas faixas que compõem o single são acústicas
e com acompanhamento somente de teclados tímidos, mas pontuais. ISRS, a
faixa instrumental que abre os trabalhos, traz um clima melancólico em sua
levada de violão e no timbre do teclado que o acompanha que fazem jus ao significado
de seu título (Inibidor Seletivo de Recaptação de Serotonina). Para quem não conhece,
“serotonina” é um neuro-transmissor que, dentre outras funções, possui
atividades relacionadas à regulação do humor. O déficit de serotonina no
organismo é um facilitador de desenvolvimento de doenças como a depressão.
A faixa-título traz em sua letra o conceito de “práxis”, usado
em diversos campos do conhecimento para definir a sequência entre finalidades
teóricas e os resultados práticos. Dentro da proposta filosófica do As Dramatic
Homage, o “práxis” é tratado como um estimulante para que as pessoas saiam de
seu comodismo e passem a agir para que novos e satisfatórios resultados aconteçam
em suas vidas. Musicalmente, a música me parece um encontro do 40 Watt Sun
com alguma banda Prog setentista, dado o andamento sofrido criado pelos violões
que contrastam com a beleza calmante do refrão. Uma distorção na verdade
aparece, em um curto solo de guitarra na metade, tocado pelo músico convidado
Alexandre Carreiro, antes que um trecho bastante lento no violão acompanhe um
teclado de timbre lúgubre. A interpretação de Alexandre Pontes nos vocais é tocante
e correta, somente com a ressalva de que ele poderia se aprimorar ainda mais na
pronúncia do inglês. Mas isto é algo que só importará a quem é fluente na
língua, pois a interpretação do cantor e a música em si falam conseguem falar
ao interior do ouvinte sem a obrigação de usar como vetor um idioma específico.
Praxis foi gravado no HCS Estúdio, no Rio de Janeiro,
e teve produção do próprio Alexandre Pontes, que soube dosar com clareza e
inteligência a participação de cada um dos instrumentos nas músicas de modo a
transmitir com clareza ao ouvinte a mensagem das mesmas. Para ilustrar com
tamanha precisão a mensagem que Praxis transmite, o artista Gustavo
Sazes elaborou uma arte capaz de simplesmente congelar aquele que o contempla.
Com Praxis, o As Dramatic Homage mostra mais uma vez
que é uma banda importante e diferenciada dentro do cenário nacional. Sem medo
de tentar e, principalmente, de ousar, a banda nos apresenta métodos criativos
não somente dentro de arranjos ou de harmonias, como também em suas letras que
instigam o ouvinte a pensar e a refletir. Praxis é mais uma peça do
complexo e inquieto quebra-cabeça do As Dramatic Homage. Um quebra-cabeça que,
verdadeiramente, não se acaba. Ele se estende até onde a imaginação alcança, e
a imagem que ele cria não segue necessariamente um padrão, mas obedece à
intepretação sonora e plástica daquele que o monta.
Está marcado para o dia 26 de setembro, um sábado, a
esperada quarta edição do Deepland Festival, um dos principais eventos e encontros de música gótica do país, realizado pela Deepland Records. A edição deste ano
reunirá cinco grupos internacionais e nacionais que trarão consigo uma enorme
variedade de estilos de dentro do universo gótico/alternativo.
Uma das principais atrações do Deepland Festival IV serão os
alemães do Aeon Sable. Um dos nomes mais reconhecidos do Gothic Rock
atualmente, o grupo liderado pelo vocalista Nino Sable e pelo guitarrista
Din-Tah Aeon já tem em seu currículo passagens pelo Wave Gothik Treffen e Castle
Party e uma discografia de seis álbuns de estúdio. O som do Aeon Sable é
característico por trazer diversas influências que vão do esoterismo até o
Black Metal.
Do México virá a banda de Pós-Punk Capitals. O duo formado
por Jonathan Salazar e por Ivan Herrera traz um som empolgante e animado que
mostra influências de She Wants Revenge, Human Tetris e She Past Away. Recentemente
em 2019 o Capitals lançou o seu primeiro full-lenght, Año Once.
Outra atração internacional são os nossos vizinhos
colombianos do Los Malkavian. Mais um representante do Pós-Punk, o som do grupo
traz uma sonoridade mais distorcida e frenética, como ensinaram alguns dos
pioneiros do estilo como Bauhaus e Killing Joke, e também elementos de Shoegaze.
A banda formada por Alex Pela (vocais, bateria), Carolina Castaño (vocais,
guitarras), Jean Pierre Guarin (contrabaixo) e Mario López (guitarras) foi
fundada em 2013 na cidade de Medelin e tem em sua discografia o álbum Letargo,
de 2018.
De Recife estará presente a banda Ego Eris. Uma dos nomes
mais reconhecidos do Pós-Punk/Darkwave nacional, o grupo pernambucano estreou
em 2018 com o álbum Memento Mori, que foi sucesso de pedidos para o mercado
especializado estrangeiro segundo a gravadora Deepland Records, e já conta inclusive
com experiência internacional graças a participações no festival Tumbas
Eternas, no Peru, e no próprio Deepland Festival, no qual eles repetirão a
dose. O Ego Eris é formado por Marc Nero (guitarras, programação), Breno Romero
(vocais, programação) e Astroblack (contrabaixo, sintetizadores, programação).
Fechando o line-up do Deepland Festival IV estão os
paraibanos do Electro Bromance. O duo formado por Wilame AC (vocais, sintetizadores,
programação) e por Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores, programação, vocais)
vem de João Pessoa praticando um Synthpop com elementos de Future e Darkwave
bastante empolgante e que funciona perfeitamente ao vivo. O Electro Bromance
foi formado em 2015, mas já conta em seu currículo parcerias com nomes reconhecidos
nomes internacionais como os italianos do Ash Code, os canadenses do Decoded
Feedback e os mexicanos do Infected Sound System. O mais recente lançamento do
duo paraibano foi o álbum We Are Like A Time Bomb (2017, Deepland Records), que promete ser
sucedido ainda em 2020 por um segundo full-lenght, do qual já foi
disponibilizado o single Breaking Chains.
Além destas cinco bandas, estarão animando o público que
comparecer ao Deepland Festival IV os DJ’s Carlinhos, Xymox, Bat, Nanda McCoy e
Ricardo Wolff. O Deepland Festival IV acontecerá no Fofinho Rock Club, na avenida
Celso Garcia, próximo ao metrô Belém. Os ingressos do primeiro lote ainda estão
sendo vendidos e custam 170 reais.
SERVIÇO
DEEPLAND FESTIVAL IV
Bandas: Aeon Sable (Ale), Capitals (Mex), Los Malkavian
(Col), Ego Eris (Bra), Electro Bromance (Bra)
DJ’s: Carlinhos, Xymox, Bat, Nanda McCoy e Ricardo Wolff
Data: 26 de setembro (sábado)
Horário: 22:00
Local: Fofinho Rock Club. Avenida Celso Garcia, 2728 (próximo ao metrô Belém),
São Paulo/SP
Ingressos: R$170,00 (primeiro lote), R$200,00 (segundo lote), R$240,00
(terceiro lote)
Venda on-line: Kingdom Rock Store, Wave Records
Venda física: Fake No More, Reversa e Fofinho Rock Club (venda física apenas para
pagamentos em dinheiro)
Link do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/569229240522339/
Realização: Deepland Records
Um curta-metragem foi criado para ser o novo clipe dos turcos
do She Past Away. A música escolhida para o vídeo foi Durdu Dünya,
faixa que abre o álbum Disko Anksiyete, lançado ano passado.
O clipe, ou curta-metragem, foi batizado de Prometheus
3044 e foi dirigido pela produtora K089. O mesmo tem uma abordagem de
ficção científica e traz figuras mutantes que interagem em quadros empoeirados que
remetem a um ambiente pós-apocalíptico.
Disko Anksiyete é o terceiro álbum do She Past Away e
foi aclamado por toda a crítica especializada mundo afora, que classificou o
álbum como um dos melhores lançamentos do estilo em 2019. Confira no player
abaixo o novo clipe de Durdu Dünya.
She Past Away é Volkan Caner (vocais, guitarras) e Doruk
Öztürkcan (teclados, programação).
CRYPTOMASS - SUUM (Seeing Red Records, 2020) Tracklist:
01. Cryptomass
02. The Silence Of Agony
03. Creatures From The Vault
04. Funeral Circle
05. Burial At Night
06. The Failure Of Creation
07. Mass In The Catacomb
08. Claws Of Evil
09. Reaper Looks In Yours Eyes
Line-up:
Mark Wolf - vocais
Painkiller - guitarras
Joe Grave - contrabaixo
Fed Kemper - bateria
Texto: Bruno Rocha
O Doomzão clássico habita nas catacumbas e é lá onde ele expressa de forma pungente sua essência soturna e pesada. Tal qual uma criatura abissal que nunca conheceu a luz, ele necessita se cercar da escuridão para se desenvolver. O Doom clássico não é uma criatura arredia, mas não espere que ele saia de seu habitat para encontrar você – é você quem precisa descer às catacumbas para encontrá-lo; isto é, se assim você desejar. Por isso o Doom Metal não é para qualquer um.
Esta é a sensação que percebemos quando ouvimos a banda Suum, de Catanzaro, na Calábria italiana. O quarteto formado por Mark Wolf (vocais), Painkiller (guitarras), Joe Grave (contrabaixo) e Fed Kemper (bateria) acaba de lançar o seu segundo álbum de estúdio, Cryptomass, via Seeing Red Records. Em relação ao debut, Buried Into The Grave (2018), a maior mudança ficou por conta das estreias de Joe Grave e Fed Kemper na cozinha, pois a proposta musical se mantém a mesma: Doom Metal clássico, pesado, imponente, grandioso e mortal. Riffs criativos se juntam a bases esmagadoras e vocais expressivos onde elementos tanto do Doom épico ensinado pelo Candlemass quanto do Doom arrastado do Reverend Bizarre se misturam ao DNA típico do Metal italiano, produzindo um som com identidade e ao mesmo tempo com essência notória.
A sensação de estar ouvindo a música do Suum de dentro de uma caverna, ou de uma cripta, é altamente perceptível. E esta sensação provem não somente da belíssima e perturbadora arte de capa de autoria do próprio guitarrista Painkiller. Os riffs iniciais da faixa-título, que dá início aos trabalhos, vêm fortemente besuntados em reverb e echo, elementos que também são aproveitados fortemente nos timbres da bateria (em especial no bumbo) e nos vocais de Mark Wolf quando este se apresenta, potencializando sua performance altamente interpretativa como de quem conduz uma missa macabra. Ao final desta faixa, guitarras limpas se metem em meio as bases pesadas criando um final épico e doloroso. A proposta da faixa-título segue intacta em The Silence Of Agony, que já havia sido disponibilizada antes em formato de single. Em sua metade a música descamba para um ritmo mais rápido e as guitarras usam todo o poder de suas afinações baixar para destruir o Universo sob o comando de gritos guturais de Mark Wolf.
Creatures From The Vault vem num ritmo mais animado e groovado. As guitarras e o baixo são tão pesados que passam a impressão de que estão formando uma muralha fortificada e tão gigantesca que nem os judeus conseguiriam derrubar como derrubaram a de Jericó. O ritmo volta a ficar lento em Funeral Circle que, fazendo jus ao seu título, remete o ouvinte a uma colossal marcha fúnebre. A andamento e as linhas vocais de Wolf remetem imediatamente a banda norueguesa Fallen nesta faixa em particular. Após a marcha fúnebre, vem finalmente o enterro com Burial At Night, dona do refrão mais cabuloso de todo o álbum. O riff de The Failure Of Creation deixa claro para quem quiser ouvir que o baixo de Joe Grave está engordurado de distorção, o que reforça mais ainda o peso da seção de cordas do álbum. Hora de se sentar e de contemplar uma certa mansidão com Mass In The Catacomb, tocada toda com dedilhado na guitarra e com um som de chuva ao fundo.
Após o descanso, se prepare para ser massacrado novamente pelas duas últimas faixas. Claws Of Evil possui um riff asfixiante puxado por Painkiller e nos remete ao Candlemass antigo. O baixo de Joe Grave se revela líder novamente na parte mais enigmática do meio antes que um fade-out leve embora toda a maldição perpetrada por esta música. O álbum se encerra de forma magnânima e imponente com Reaper Looks In Your Eyes, dotada de várias mudanças de andamentos e uma seção maravilhosa ao final onde o monstro sai das cavernas para contemplar o pôr-do-sol escarlate e para sentir uma brisa fria no topo de alguma montanha próximo ao Mediterrâneo.
Daniele Perticalori foi o responsável por toda a parte técnica das gravações de Cryptomass e seu trabalho por trás dos botões foi essencial para a música do Suum, pois ele soube dosar as toneladas de efeito como distorções, reverbs e chorus em todos os instrumentos sem que nada soasse incompreensível ou embolado. A sujeira carregada é uma característica do Doom de Catanzaro e o modo que ela foi impregnada nas composições reforçou a repugnância do monstro que habita nas cavernas de lá. Ou seja, aquilo que mais atrai o fã de Doom.
Pouco após a conclusão das gravações do álbum, Mark Wolf deixou o posto de vocalista do Suum, cedendo a ingrata missão de substituí-lo a Misantrophil, que terá a missão de celebrar as missas negras com a mesma eloquência de seu antecessor daqui em diante. Mas Mark não deixou a banda sem um feito expressivo: o Suum manteve o alto nível apresentado no debut Buried Into The Grave e posiciona Cryptomass como sério candidato a figurar entre os melhores álbuns do estilo em 2020. Afinal, cravo ainda em fevereiro que será bastante complicado surgirem dez álbuns tão pesados, asfixiantes, agourentos e “casca-grossa” quanto este lançamento. Ouvir Cryptomass em sua plenitude é como se sentir esmagado por uma procissão macabra e gigantesca, que te carrega para as profundezas da escuridão, onde somente os mais soturnos morcegos habitam e cujo odor repugnante de suas ureias se misturam aos dos incensos jorrados por velas negras. É lá onde habita o Doom clássico. É lá onde habita o Suum. É lá onde ele deve viver para sempre.
Texto: Bruno Rocha
Se o Doom Metal possuísse uma versão plástica, esta seria a capa do debut do Black Sabbath, a imagem acima. Perturbadora em sua simplicidade autoral, esta imagem traduz com perfeição em forma de imagem o sentido real e estrangulador do estilo. Por falar neste álbum, o Heavy Metal nasceu através dele sob o signo do Doom. Na forma deste, o
debut do Black Sabbath foi composto e lançado oficialmente no dia 13 de
fevereiro de 1970, portanto, tendo completado 50 anos nesta semana que se
passou.
O Black Sabbath praticava em seus primeiros álbuns aquilo
que partir dos anos 80 seria conhecido como Doom Metal: um Heavy Metal
lento, com guitarras de timbres bastante distorcidos, atmosferas soturnas e
vocais desesperados. Portanto, não há exagero em afirmar que o Doom Metal
existe desde os anos 70, sendo, portanto, o primeiro subgênero de Metal a
existir. Se formos considerar os outros gêneros que começaram a se emancipar no
fim dos anos 70 para os anos 80, como Thrash, Death, Black, Progressivo, Power
e outros, o Doom é aquele que ainda carrega a essência raiz com a qual o Metal
foi gerado por Tony Iommi e cia.
O próprio Black Sabbath é constantemente lembrado como pai tanto
do Heavy Metal quanto do Doom Metal, mas eles não eram a única banda a praticar
o estilo na época. Apesar de a crítica massacrar aquele Rock encapetado e feio que
os Sabbath praticavam, a banda rapidamente adquiriu popularidade no underground
e cresceu a ponto de alcançar a fama. Tão logo seus primeiros trabalhos
chegaram aos ouvidos dos fãs de Rock do mundo todo, outras bandas foram
surgindo inspirados por aquele Rock negro e pesado. Também carregando o cheiro
do Rock Psicodélico e ocultista, as bandas que praticavam Doom nos anos 70
mesclavam a brisa psicodélica com as distorções pesadas. Além disso, não seria muito
auspicioso falar de temas como ocultismo fazendo Rock bonitinho, em tons maiores
e timbres limpos, não é?
Antes de prosseguirmos, é preciso deixar claro um detalhe
que, apesar de parecer óbvio, é de suma importância neste artigo. Não é que as
bandas citadas nesta matéria eram genuinamente bandas de Doom Metal. Este entendimento
só veio a existir a partir da década seguinte. Indo mais além, nem sequer o
termo “Heavy Metal” estava estabelecido na época em questão. O ponto aqui é que
algumas bandas já tocavam de forma clara em algumas músicas ou trabalhos aquilo
que a partir dos anos 80 viria a ser batizado como Doom Metal. Outro detalhe
que complementa este primeiro é que o que compreendemos hoje como qualquer
outro gênero de Metal não era praticado no mesmo período. Bandas como Judas Priest,
Motörhead e Accept aceleraram e tornaram mais melódicos (este segundo adjetivo
não se aplica tanto ao Motörhead) o Metal na segunda metade dos anos 70 e
acabaram por influenciar outros gêneros de Metal que foram surgindo a partir do
começo dos anos 80, somente.
O Doom Metal emancipou-se como gênero de Metal na era
oitentista graças a bandas como Saint Vitus, The Obsessed, Trouble - estas
americanas - Pagan Altar e Witchfinder General, estas britânicas oriundas da
NWOBHM. Depois veio o Candlemass, o nome mais bem sucedido do estilo, inaugurando
o segmento Epic Doom. Todavia, como já dito, o estilo já era praticado como tal
nos anos 70. Vejamos a seguir alguns poucos nomes que se enquadram no Doom
Metal setentista. E se prepare: se você não conhece alguns destes nomes, vai se
surpreender com o quanto estas bandas já soavam tão pesadas e cabulosas na
época.
BLACK SABBATH
Ah vá!
Aquilo que conhecemos hoje como Heavy Metal existiria se o
Black Sabbath não fosse uma realidade? Provavelmente sim. Mas, como a
Matemática garante através do Princípio da Boa Ordem, alguém teve que receber
as honras da inauguração e este alguém foi o Sabbath. Ainda, será que se outra
banda tivesse criado o Metal, teria sido com tanto estilo e personalidade como
os britânicos de Birmingham fizeram?
Há quem entenda que o Metal já havia aparecido antes do
debut do Black Sabbath através de trabalhos do Cream, do Blue Cheer ou
até mesmo pelos Beatles. Mas a grande maioria dos entendidos em Rock e
Metal (eu incluso, apesar de este escritor estar longe de ser considerado um “entendido”)
concordam que a pedra angular do Metal foi mesmo o primeiro álbum do grupo,
lançado em 13 de fevereiro de 1970 pela gravadora Vertigo. Fato é que as músicas
do debut traziam uma carga pesada na guitarrada de Tony Iommi, no baixo furioso
de Geezer Butler, na bateria agressiva de Bill Ward e nos vocais
ríspidos de Ozzy Osbourne. A faixa-título em particular é tão negra e
revolucionária que conseguiu colocar o mundo da música de ponta-cabeça graças ao
riff tocado em trítono, a “Nota do Diabo”, a atmosfera horripilante e as letras
que evocam o Tinhoso, algo sem precedentes na história da Música. O Doom Metal
nasceu aí e foi devidamente lapidado nos próximos álbuns do Black Sabbath desde
então, influenciando assim uma legião de músicos e bandas de Doom e Stoner por anos a fio até hoje. E contando.
PENTAGRAM
Apesar de o Pentagram ser constantemente lembrado junto a
outros nomes como pioneiros do Doom oitentista, já emancipado, a verdade é que
a banda do caricato Bobby Liebling viveu a sua primeira encarnação durante
vários intervalos dos anos 70. O grupo não alcançou a devida fama naquela
década por conseguir somente lançar uns poucos singles, consequências de alguns
péssimos relacionamentos envolvendo empresários e os abusos de alucinógenos por
parte de Liebling. O reconhecimento só veio na segunda encarnação do grupo,
durante os anos 80 e já com o peso pesado Victor Griffin nas guitarras,
egresso do Death Row. Mas o fato de ter que dividir essa fama com Saint
Vitus e Trouble, além de outros aspectos, não os fez atingir o estrelato que os
aguardava ainda nos anos 70.
O Pentagram foi fundado em 1971 no estado da
Virginia através de Liebling e do baterista Geof O'Keefe. A banda surgiu
como uma promessa de resposta americana aos ingleses do Black Sabbath,
juntamente com os nova-iorquinos do Sir Lord Baltimore, e qualidade para
tal posto a banda tinha de sobra. O principal trabalho lançado pelo Pentagram naquela
década foi o Bias Recordings Studio, uma demo que trouxe clássicos da
banda como Forever My Queen, When The Screams Come e Review Your
Choices. Várias composições da primeira encarnação do Pentagram foram
regravadas nos álbuns lançados a partir dos anos 80. Em 2002 o grupo lançou First
Daze Here (The Vintage Collection), uma coletânea de 12 raridades e faixas perdidas
dos anos 70 em versão remasterizada. Ainda havia mais material para desenterrar;
o segundo lote de raridades setentistas do Pentagram foi lançado em 2006 sob o
nome First Daze Here Too. Em ambas as coletâneas, percebe-se o quanto o
Pentagram foi influenciado pelo Black Sabbath tanto nas músicas mais animadas
quanto nas faixas mais soturnas, os Dooms, como a própria Forever My Queen
e seu riff cinzento, a charmosa When The Screams Come e a fúnebre Be
Forewarned.
BEDEMON
Uma das formações recentes do Bedemon, com a presença de Scott "Wino" Weinrich (à esquerda)
Pesadíssimo! É assim que podemos definir o som da banda Bedemon,
que, tal como o Pentagram, passou por duas encarnações: uma entre 1973 e 1974,
com um brevíssimo retorno em 1979, e uma segunda encarnação a partir de 2001.
Na fase setentista, a banda também contava com Bobby
Liebling nos vocais e com Geof O’Keefe na bateria, que se faziam acompanhar de Mike
Matthews no baixo e Randy Palmer nas guitarras. Este Randy Palmer também
andou tocando no Pentagram por dois períodos, um na primeira encarnação e outro
na segunda, perto do fim dos anos 80.
Todas as músicas gravadas pelo Bedemon naquele período só viram
a luz do dia em 2005, quando do lançamento da coletânea Child Of Darkness:
From The Original Master Tapes. O que esse trabalho revelou ao mundo era
uma banda de som soturno, sujo, negro e pesado, como nenhuma outra fazia na época.
A baixa qualidade das gravações só reforçou a poeira em cima das músicas. É
tanta poeira que é possível tatear as músicas e constatar as cascas de sujeira.
O grupo voltou a ativa em 2001 através da iniciativa do músico e jornalista Perry
Greyson, que tratou de contactar e de reunir os ex-integrantes Palmer,
Keefe e Matthews. Um álbum de inéditas foi lançado em 2011, Symphony Of
Shadows, que contou com os vocais de Craig Junghandel.
STONE AXE
Essa aqui habita nas catacumbas plúmbeas da história do Rock
e de lá nunca saiu. Quem quiser conhecer o Stone Axe, desça rumo a escuridão
onde a luz nunca ousou penetrar.
O Stone Axe surgiu das cinzas do Josefus e existiu
entre 1971 a 1972 na cidade de Houston, no Texas. Após o fim do Josefus, o
vocalista Pete Bailey, o baixista Ray Turner e o baterista Jerry
Ontiberoz receberam o guitarrista “Wolf” Mike Long para formar o
Stone Axe. O único lançamento oficial do grupo foi o single Slave Of
Fear/Snakebite, de 1971. A primeira faixa em particular apresenta algo que
o Black Sabbath começaria a fazer naquele mesmo ano: afinações baixas nas guitarras.
Isso somado ao ritmo lento e as influências de Psicodélico criou um som pesado,
soturno e melancólico, que ficou escondido nas areias do tempo. O fim precoce
do Stone Axe ensejou o retorno do Josefus em 1972. Até hoje o grupo teima em
existir apesar das várias idas e vindas. Mas o blog The Atmosphere faz questão
de desenterrar, limpar a poeira e apresentar este souvenir para você.
FLOWER TRAVELLIN’ BAND
Esta banda vem do Japão! Sim, o Doom Metal também aprontou
das suas durante os anos 70 na Terra do Sol Nascente. O Flower Travellin’ Band
foi a continuação natural do Yuya Uchida & The Flowers após uma
reformulação da formação do grupo e a adoção de um novo direcionamento musical.
Em seu segundo álbum, Satori, lançado em 1971, Uchida e companhia mostraram
um som que lembrava muito o Black Sabbath dado o peso das guitarras, os ritmos
lentos e as melodias sombrias. Ou seja, temos em Satori a receita básica
do Doom Metal. As características pétreas do estilo são melhor percebidas nas faixas
ímpares do álbum, Satori Part I, Satori Part III e Satori Part V,
além da faixa-bônus Map. Ainda, por influência do guitarrista Hideki
Hishima, o grupo usava de forma magnifica arranjos criados com escalas
árabes, algo que se tornaria marca registrada do Solitude Aeturnus nos
anos 90. O Flower Travellin’ Band existe até hoje, mesmo que sem seu membro-fundador
e cérebro criativo da fase áurea do grupo, Yuya Uchida. Outro destaque do álbum
Satori são as interpretações viscerais do vocalista Joe Yamanaka.
Por hoje é isso. Existem outros exemplos, mas estes que aqui foram lembrados cumprem bem o papel de apresentar a você o Doom setentista. É como este redator costuma falar
sempre que as oportunidades permitem: o Doom Metal é o gênero mais antigo, o Primeiro,
aquele que carrega a essência raiz do Heavy Metal. Da metade dos anos 80 em
diante o Doom Metal se metamorfoseou e se hibridizou com outros gêneros para
se transformar em vários formatos distintos como Epic Doom, Death Doom, Metal
Gótico, Sludge, Funeral Doom e etc. Isso tudo sem considerar o Stoner Rock/Stoner
Metal, que pode ser considerado um irmão do Doom Metal. Que o Gênero Maldito
sobreviva nos calabouços renegados do Rock por muito mais tempo. De preferência, mantendo e perpetrando para toda a posteridade o negrume perturbador da imagem que abre esta matéria.
A Círculo Soturnos, uma das editoras brasileiras mais importantes no âmbito da literatura sombria, está agora com uma novidade: periodicamente serão lançados em seus canais oficiais vídeos com informes sobre todas as ações da editora. Os mesmos serão apresentados por Juliana Weyne, uma das responsáveis pela Underdark Produções, cantora e DJ da cena gótica de Fortaleza.
Em seu primeiro vídeo informativo, a Círculo Soturnos dá detalhes sobre o lançamento de seus dois primeiros editais para 2020. O primeiro selecionará autores para a obra Devaneios Cemiteriais. Sob organização de Fernanda Miranda, a obra contará em suas páginas contos macabros sobre romances e histórias que envolvem amor e morte, podendo envolver criaturas sobrenaturais e arte cemiterial. O segundo edital servirá para escolher autores para o quinto volume da já conceituada antologia Soturnos, sob organização de Sr. Arcano. Para este volume, as obras terão como objetivo extrair a beleza em meio a temas sombrios e macabros.
O vídeo também dá detalhes sobre o primeiro lançamento da editora em 2020, Versos Proibidos, uma coletânea de poesias de autoria de Sr. Arcano que foram escritas e publicadas entre 1999 e 2019. Ainda, o vídeo trata sobre a excursão que a editora está organizando para o festival Woodgothic, o mais importante festival de música gótica do país e que será realizado entre os dias 11 e 13 de junho na fria e obscura São Tomé das Letras, em Minas Gerais.
Confira maiores detalhes sobre todas estas novidades no informe da editora Círculo Soturnos, através do player abaixo.
Anunciado em dezembro de 2019, o novo single Breaking Chains,
dos paraibanos do Electro Bromance, gerou ansiedade entre os fãs do grupo e do
estilo não só por ser uma nova composição do duo (que já vinha sendo
apresentado ao vivo, diga-se de passagem,), mas também por trazer como bônus remixagens
dos italianos do Ash Code e do projeto paulista Code: Red Core.
Finalmente, as ansiedades foram saciadas. O duo formado por
Wilame AC (vocais, sintetizadores, programação) e Hansen Pessoa (guitarras, sintetizadores,
programação, vocais) lançou hoje no Bandcamp seu novo single e o que se escuta
nele é um Electro Bromance bastante sombrio. Com influências do próprio Ash
Code, ou mesmo de Plastique Noir, como se os cearenses tentassem soar “eletrificados”,
Breaking Chains nos leva a caminhar em meio a becos úmidos de alguma metrópole
durante a madrugada. Isso graças a sua base estonteante que mais aprece uma
onda e os arranjos melódicos muito bem compostos e encaixados na composição, tudo criado em cima da sombria escala de Ré Sustenido Menor. Todavia,
a identidade do Electro Bromance se mantém intacta com seu Synth/Darkwave
elétrico e os vocais característicos de Wilame AC.
Além da versão original, o single traz as remixagens feitas pelo
Code: Red Core e pelo Ash Code. O projeto paulista de Rodrigo Albuquerque (que
também foi o responsável pela bela arte de capa do single) tratou de dar a
música um toque mais Industrial e Trance, enquanto os renomados italianos
estamparam sua marca em Breaking Chains com timbres retrôs na programação, novos
arranjos de sintetizadores e graves pulsantes, embebidos em flanger.
Confira no player abaixo o single Breaking Chains: